o carapuceiro



CARAPUÇAS PARA TIPINHOS DE HOMENS CONTEMPORÂNEOS

Tudo bem, bravas fêmeas, os homens são todos iguais, blábláblá etc.

Alguns, no entanto, são bem mais perigosos que os outros. Em mais um serviço de utilidade pública, este cronista de costumes volta a exibir os tipinhos contemporâneos da mais alta periculosidade.

Muito prazer, Homem-bouquet. Sim, é aquele macho que entende de vinhos finos, abre a garrafa, cheira a rolha, balança na taça, sente o bouquet da bebida dos deuses.  O tipinho faz mil cursos, não perde um programa especializado na tevê, entra em sites franceses do gênero, reúne os amigos para encher o saco com o tal bouquet, o sabor e o aroma amadeirado etc.

Mais uma advertência: o mesmo elemento costuma apreciar também o que ele chama de  “um bom jazz”, uma “MPB de qualidade”... Corra, Lola, corra de criaturas desse naipe. Esse camarada é frutado!

Homem que entende e gosta mesmo de vinho não sai arrotando conhecimentos por ai, simplesmente aprecia e faz a sua companhia apreciar sem arrogância ou jequice alguma.

Mesmo as heroínas que conseguem escapar do “In vino picaretas” dificilmente escaparão da arapuca do inominável e desqualificado Homem-hortinha. Trata-se do distinto mancebo que, ao receber as moças elegantemente para um jantar, usa o manjericão cultivado na própria hortinha que mantém no quintal ou na área de serviço. Cultivar o próprio manjericão não é exatamente o defeito do rapaz. O problema é que ele passa duas horas a discorrer sobre o cultivo da hortinha, os cuidados, o zelo, samba de um tempero só, degustação ao pé do saco.

Uma amiga, Ty, coitada, conheceu um destes exemplares que cultivava até a própria minhoca usado como “fator adubante” da própria hortinha.  Corra, Lola, corra, corra mesmo, corra léguas, eis um tipo irrecuperável.

Com o Homem-Ômega 3 não carecemos  cozinhar tanto o juízo, não representa lá, sejamos generosos, grandes dramas para a humanidade. É simplesmente um sujeito doente, com alguma cota de paranóia, que tenta pregar a causa da vida saudável, como se isso fosse pelos menos 10% possível. Preocupado em  combater os radicais livres, o elemento enche imoderamente o saco dos que enchem a cara. É o tipo do macho que costuma morrer cedo, mas cheio de saúde, uma beleza, com todas as células empenhadíssimas em retardar o envelhecimento.

Todo politicamente correto, benza-te Deus, o Homem-ONG, ou homus-oenegê, é o que há de mais maçante nesse mundão sem porteira. Adora um abaixo-assinado, uma passeata, põe nariz de palhaço a cada cinco linhas que lê do noticiário e está sempre morto de decepcionado com o governo, qualquer governo, mesmo que a sua entidade não-governamental encha as burras, lave a égua no brejal mais público. Sim, ele acredita na humanidade, na responsabilidade social, no terceiro setor, na arte como redenção dos pobres... Se você reparar, leitora do meu coração, ele quase levita, de tão puro, de tão bom. Some, Lola, some que é roubada-mor.



Escrito por xico sá às 14h22
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DO AMOR ILHADO DE AMOR OU CONTA OUTRA, VELHO JIM JARMUSCH

 

 

Estávamos em paraty, lembra, meu amor?, e, uma vez cumprida a obrigação lítero-guntenberguiana-boêmia-picareta-cachacística da Flip, buscamos um barco para fugir, de ressaca, para uma ilha, quando o moço triste nos arrastou mar-adentro, tão lentos o motor e o rapaz, seguimos nada esperávamos a não ser trocar umas palavras novas como são os vocábulos inaugurais do amor sobre as águas repisadas pelos moços dos sertões e pelas mais lindas mineiras.

 

O moço triste nos contou tb uma história de amor sem sentido, como a nossa.

 

Passamos pelas ilhas dos milionários idiotas e eu gastei uns impropérios liricamente comunistas...

 

Passamos por um navio que lembrava uma favela romântica ou um navio igualmente milionário lindamente saqueado por piratas profissas.

 

Sim, amor, era Paraty, seguimos e o moço com cara de filme de Jim Jarmusch nos ancourou em um quintal de família. Parou o barco e achava que estávamos no paraíso. Nada havia lá de tão bom assim que já não esperássemos nos nossos coraçõezinhos superbonders & aralditosamente colados. Até as crianças eram chatas e não bebiam sangria como los niños de Espana. Nada para vender ou comprar, baby, nada mesmo, só uma areinha de nada, cinco metros se muito, e uma família triste, tão triste que nem havia um gordo feliz e sequer um radinho deixado por R. Crusoé ao pé de uma bananeira artificial.

 

O moço do barco dormiu (no barco) e silenciosamente lesou de boa na proa. Eu estava tão feliz que nem notei nada disso. Se não fosse a companhia de uma linda mulher sequer havia notado que segue a vida e muito menos que vida ali havia. Só a beleza cutuca um homem de modo a acordá-lo para Jesus. Levanta-te e anda!

 

Paramos depois numa ilha-bar, povo já indo embora, mas sol pedindo saideira e vocábulos de corações lesados.

 

Nem mais lembro o que meu amorzinho falava àquela altura.

 

O moço do barco contava uma história parecida. Lentamente dizia que nada lhe faltava quando inventava histórias de amor como essa. Mostrou a luz da sua mulherzinha ao longe como quem mostra o farol da existência na mão trocada, afinal de contas é o faroleiro quem deve mostrar o rumo das coisas ao barqueiro.

 

Sua mulherzinha bem longe, ele rezava a reza de quem vai chegar em casa e pegá-la de jeito. O moço falava uma língua meio jamurschiana mesmo, assim perdido no paraíso. Minha mulher ao cair da noite foi ficando cada vez mais incrível, o moço chegou, pegou seu dinheiro e foi para casa. Até adonde deu na vista, feliz.

 

(copiado dos garranchos do caderno amarelo do amor de muito, paraty, julho do ano da graça de 2008). 



Escrito por xico sá às 07h22
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A ARTE DE JOGAR CONVERSA FORA

 Ainda comovido com a leitura de “Chá das Cinco com Aristóteles” (Lacerda Editora, Rio, 1999, disponível nos bons sebos do ramo), O Carapuça deixa as suas dicas sobre a arte da conversa em mesa de bar, tablados praieiros, sombreros praianos e alhures. Sem cerimônia, fizemos um reearanjo para os dias que correm, a levar em conta a realidade dos Tristes Trópicos e um punhado de sugestões do velho dândi Oscar Wilde.

O.W. escreveu artigo sobre o tema em crítica ao livro “The principles of the Art of Conversation: A Social Essay”, de um tal de J.P. Mahaffy, publicado em 1887 na Inglaterra.

Como a arte da boa conversa está cada vez mais em baixa - e é tão necessária como o silêncio elegante em uma pista ou salão de danças -, prometemos, a partir desse número, um madureza ginasial completo sobre o tema. É triste a ausência de prosa ou o bodejar inoportuno de certos senhores - só às grandes mulheres é permitido uma prosódia marcada por elipses preguiçosas (intervalos para cafunés) ou até mesmo o sábio silêncio, quando metidas em náusea ou tédio bem particulares.

“A este falta café”. Assim os espanhóis do tempo de Mariano José de Larra (o maior articulista de costumbres de Espanha, escriba do século XIX) reclamavam dos ruins de papo, atribuindo a culpa à ausência do hábito de frequentar rodas de bares e cafés de Madri. É realmente na cachaça, entre os amigos ou adversários cordiais, que adquirimos tal arte. Ao nosso pequeno manual, pois.

1) Um ligeiro gaguejar pode até oferecer um entusiasmo peculiar à conversa, ampliando o suspense nas suas boas palavras.

2) Nada pode ser mais irritante do que um pesquisador que diz o tempo todo: “Exatamente!, exatamente!!”

3) Nunca diga “não tenho nada contra isso, mas...” Adversativa imperdoável.

4) Nunca diga “no meu tempo...”

5) Nunca termine uma sentença com um inescrupuloso “você não acha?”

6) Evite o samba-exaltação na linha “encantador, encantador!”. Murmúrio de pseudo-artista.

7) Nunca seja escrupolosamente sincero ao ponto de questionar cada fato e corrigir qualquer impropriedade.

8) O mentiroso de qualquer espécie sabe que a recreação, e não a instrução, é a alma da conversa e acaba sendo muito mais civilizado do que o cabeça-dura que fica alardeando sua desconfiança em relação a uma história que é contada apenas para entreter a platéia.

9) Nelson Rodrigues e outras usinas de boas frases. Citações ad infinitum, evitemos, pois. Prefira o naturalismo-realista e conte histórias ou situações do seu próprio cunhado safado, da sobrinha tentadora, da vizinha do 704 etc.

10) Não conte filmes.

11) Muito menos sonhos. Interpretá-los em público, nem pensar, senhoras e senhores.

12) Não demonstre o seu cabacismo tecnológico, de modo a exaltar qualquer nova geringonça ou novidadismo do gênero.

13) Prefira a superfície bem fundamentada ao obscurantismo das teses ditas profundas -nota de rodapé em mesa de botequim é um desperdício.

14) Em caso de desconhecidos na mesa, não faça a maldita pergunta "o que você faz" logo nos primeiros goles;

15) Nunca se exalte demais diante de uma mulher bonita e gostosa ao ponto de querer discutir Faulkner com ela nos primeiros cinco minutos de conversa.

(continua...)



Escrito por xico sá às 10h12
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O MAIOR PASSO DA HUMANIDADE

Reproduzo ai, a pedidos, croniqueta deste mesmo Carapuceiro publicada em 17 de outubro de 2004: 

Nascimento do Passo, gênio das 70 e tantas mungangas do frevo, que me desculpe; os velhos e bons b-boys, idem ibidem; os mestre dos baques solto e virado que me perdoem; Elvis, pomba-gira da pele branca, negocie; Fred Astaire, qualé, não se revire no desenho pontilhado dos seus respeitáveis sete palmos; funkadeliks forever, Chicago e Belém com as suas aparelhagens, samba, samba, samba, candomblé, os deuses que dançam, a todos o meu respeito e o sangue sem mertiolate dos meus joelhos...

Mas, na boa, o maior passo da humanidade se deu quando o primeiro negro pisou na lua: salve Michael Jackson, um, dois, espírito a três passos do chão, me encoxe, wanna take you on a moonwalk...

Ele vai pagar a vida inteira por ter sido maior que Armstrong e sua gangue, por ter fincado a bandeira da sua tara acima de todos os musicais de todas as tendências... Wanna take you on a magic carpet ride…

Salve os bois bumbás, os tchans, o samba duro, as lias de itamaracás, a ciência sob o calçamento do mangue, a fulerage, a macumba da japonega, mas, peraí, ninguém levitou tão bonito quanto esse rapaz!

Forever my love, you'll be mine. A lua, esse conhaque, o passo da humanidade, comovido com alma perra e carapuça de jabá-pop à vera.

Eu sei, ele perdeu o nariz original como o carinha do barbeiro de Gogol, mas pouco importa, nao o diminui como o primeiro negro a pisar a areia movediça da lua. 

A América nunca vai perdoar o seu primeiro negro mais leve que as folhas das folhas da relva, coitada d´América...

Ninguém, nem o mais mungangueiro dos artistas populares, nem os comedores de vidros, ninguém sob a lona do nosso Soleil, ninguém no farol, ninguém no sinal... Nunca houve um passo tão lindo, ajoelhe e reze sr. Balé clássico, bata palmas, morra de inveja, gaste a arrogância das sapatilhas...

Nunca houve um passo como moonwalk, nunca houve mais linda invasão à lua dos doidos varridos, Michael Jackson nunca caiu nesse agá minúsculo, pra enganar moça, ora direis, de pisar nos astros distraído.

Ele andou palmos acima, seu mar vermelho, tábuas sagradas, Moisés da hora,  por entre as nuvens do auto-engano, por entre os dez mandamentos, a terra é azul.... e ele, marcha à ré,  se move.

Estátua!

Stop.

Parou ele ou parou o pop?



Escrito por xico sá às 12h22
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MISS CORAÇÕES SOLITÁRIOS ESTÁ ENTRE NÓS

Depois dos mais histéricos pedidos, depois de ameaças de suicídios à base de overdoses de Frontal com Domecq, barbitúricos com Drury´s, depois de roletas russas de grossíssimo calibre e gritos lancinantes à Kim Novak na Golden Gate...

 

Depois de pulsos cortados e vinis furados de Elvis Costello, Roberto das antigas, lupicínicos arranhões da agulha sobre os sulcos das dores mais profundas, Odair José [“mande pelo menos um telegrama/ dizendo que me ama...”, como entoa na madruga o  amigo Bruno Torturra...], Velvet, Nick Cave  e Leonardo Cohen[I can't forget but I don't remember what]...

 

Ufa!

 

Depois de todas as dores de corno que não curam com cachaça, aspirina ou morfina, Miss Corações Solitários, cigana-mor das cólicas andaluzas, bálsamo dos almodovares corazones, pegou o seu helicóptero vermelho-sangue, ao qual se refere apenas como “o colibri rubro a serviço dos deuses”, e aqui se encontra, na redação deste Carapuceiro, a serviço dos molambos e outros farrapos humanos.

 

Primeira cartinha, sem mais delongas:

 

Redentora e fecunda Miss C., não é a primeira nem a última vez que lhe escrevo esses lacrimosos garranchos, provas da minha vida de m... ah, de merda mesmo, pronto, falei o que todo mundo aqui já sabe desde que provei o mingau da inconveniência de haver nascido... Ah, Miss C., não busco mais a cura, preciso apenas de uma resposta, à nível de uma aposta aqui entre as balzacas do bairro dos Aflitos, atrás do campo do Náutico, essa outra desgraça da minha existência!. Gloriosa Miss C., qual a coisa mais difícil dessa vida: 1) Parar de fumar?; 2)parar de beber?; 3)parar de amar? Ansiosa pela sua luz, Madá do MADA.

 

RESPOSTA:

 

Querida consulente, envelhecida em barris de Jerez, eu diria, no auge da minha antologia de ressacas monstras, que parar de beber é a luta mais vã; parar de fumar só quando parar de fuder _o que fazer?, a não ser baforar o king size da desilusão depois da foda meia-boca aqui de casa?; parar de amar? Ah, mulherzinha, esse povo do MADA está a carecer é de um bom tanque de roupa suja ou um corte de cana da Zona da Mata pernambucana, sob o chicote do latifúndio da Casa Grande, essa outra praga que teima em não ser extinta. Mas vamos com calma... Cariño, Miss C. Solitários.



Escrito por xico sá às 03h00
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DE COMO PERÉIO REPRESENTA A RESISTÊNCIA ETC ETC

Com vocês, Paulo César Campos Velho, vulgo Peréio, gaúcho de Alegrete, ator, poeta e macho. Uma vida de resistência contra a androginia (“Esse camarada se androginou/ a moça deu bola a ele e ele nem ligou!”, ouve-se ao fundo a lírica de Luiz Ayrão) e os desvios demasiadamente humanos da raça.

-Demasiadamente humanos para ti, cronista vagabundo, esse basquete do Nietszche não rola aqui na minha masmorra, corta essa, estoy fuera –manifesta-se o homem, o mito, a lenda viva, o bom animal à espreita.

É isso ai, a mata é virgem porque o vento é fresco, vamos em frente, conosco o Peréio, na mira da bola preta, roda a madeira sobre o giz italiano, buraco do meio, suave como aquela do Miles Davis, caçapa.

-Sabe, amigo, é preciso manter o senso de escrotidão – cutuca, solene como no primeiro Shakespeare. –Não obrigatoriamente com as mulheres, mas com esse garçom, por exemplo, que não chora no meu uísque.

Bola no canto, ele ajeita a manga da camisa cor de rosa, dribla dois fãs chatos no mesmo mosaico, drible curto, seco, de futebol de salão, gênio, fecha um olho como no tiro ao marreco, erra na mira, por pouco, muito pouco, pouco mesmo.

-Chegou mulher bonita começa a dar merda no ambiente –admoesta a diva que flana na área.

Homem que é homem não chama uma moça à atenção, homem que é homem admoesta, mata no peito, desliza na coxa e faz do pito uma tese dramática de catega, jamais uma cantada, tão-somente uma isca para os movimentos futuros.

É o que nos professa o monstro de Alegrete, agora já retomando a sua melhor fase no jogo depois do alumbramento bucetístico.

-E digo mais, meus rapazes, ser amado pode até nos encher a bola, ampliar o orgulho macho etc, acontece, mas não olvidem jamais: toda mulher que ama, porra, se acha no sagrado direito de chutar o teu saco em qualquer calçada, a qualquer hora. E isso não é uma metáfora, porra, homem que é homem não trabalha com metáforas.

Como assim, meu guru, explique a teoria. Antes, porém, peço um uiscao duplo para nós outros.

Peréio cascaveliza o copázio e manda, de prima, no ângulo:

-Certa vez uma ex mandou a porrada nos meus culhões. Ali ainda no solo pátrio, me contorcendo em dores, deblaterei, blasfemei, e quis saber o motivo de tal ira.

Pausa para a chegada de Mário Bortolotto, que desafia o monstro de Alegrete na sinuca, assobia um um blues, e fica de botuca para ouvir as danações em andamento.

-No que a amada se explica, senhores, magnâmica: ´É que eu te amo demais´.

A essa altura, garçons, putas, rufiões, jogadores profissas e umas duas, três moças de bem indagam, em uníssono:

-E ai, o que fizeste, hombre de Diós?

-De chofre, gostaram do ´de chofre?´, admoestei: pois trata de me amar menos, porra! (...)Desse dia em diante, sempre adverti as fêmeas: por favor, me amem menos, cada vez menos, e de lá para cá tenho preservado o meu lindo saco cor de rosa.     



Escrito por xico sá às 15h34
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O QUE ESTOU FAZENDO? YAYAYA. NA ESTRADA

Trasmitimos diretamente da Feira do Livro de Ribeirão Preto, adonde logo mais, 15h deste sabadão junino, comando uma prosa botequística sobre crônica esportiva, crônica da alma encantadora das ruas e outras dores crônicas. Chegue ai pueblo do Pinguim & região. Sim, o doutor Sócrates vai me auxiliar nos calcanhares platônicos e nos argumentos greco-baianos. Vengam meus rapazes e minhas pequenas!



Escrito por xico sá às 13h45
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DA SÉRIE SUPER-HERÓIS SENSÍVEIS E MODERNOS

         Episódio de hoje: O HOMEM-LAXANTE 

         Na saúde, na doença, na TPM... E muito mais ainda na prisão de ventre. Prova de devoção maior não há. Do que viver de perto este drama, seguir todos os passos da costela amada, na pista, na vida, no WC. O carinho, o cafuné, o chamego, o homem-laxante com a nega onde a nega estiver.

Existem mulheres de todos os naipes, mas elas se dividem basicamente em duas classes: as que fazem bem e as que têm certas dificuldades.

 Os machos também assim se organizam, segundo Garcia Márquez, os que evacuam fácil e os que se enfezam ao extremo. O escriba mesmo, em conversa sobre o tema com o psicanalista Helio Pellegrino, declarou-se ruim de serviço, um enfezado nato.

O temor feminino diante do trono exige atenção redobrada do macho. Melhor, valiosa leitora, não esconder essa pequena agonia diária. Ponha o tema na roda. Melhor ainda, meu rapaz, é você antecipar-se, assim que notar, pelos sinais exteriores de enfezamento _aquele riso sem graça e a sobrancelha com medo da vida_ que a amada carece de maiores dengos, cuidados, delicadezas.

Ou sinais vindos das prateleiras das farmácias: Cascara sagrada, Ducolax, Tamarine... “Ameixas, ame-as ou deixe-as”, como no hai-kai de Leminski, também são bons indícios para despertar nossos trabalhos de Hércules.

Vale todo esforço.

E ainda fica um lembrete sábio, que parece indiano, mas foi me ensinado pela minha vó Merandolina, brava filha de índios de Águas Belas, Pernambuco: quem mira as próprias fezes, dizia ela, cria-se sem o menor pecado da inveja.

Lição mais sábia.

 Outro bom conselho, que deixamos aqui de graça, é o da voz da experiência de “Tia Julia e o Escrevinhador”, melhor livro de Vargas Llosa: “Para dores de amor, nada melhor do que leite de magnésia(...). Na maior parte das vezes, os chamados males de amor, etcétera, são distúrbios digestivos, feijões duros que não digerem, peixe estragado, entupimento. Um bom purgante fulmina a loucura do amor.”

 

[De mi libro “Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias”, editora do Bispo[



Escrito por xico sá às 14h24
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CARTA ABERTA A GILBERTO FREYRE *

 

Caro mestre de Santo Antônio de Apipucos, o  motivo desta é tão-somente te dar notícias sobre os modos de homem e, principalmente, sobre a involução das modas de mulher.

Amigo, se já temias o avanço da modinha europeizante no madrugador 1986, não te darei uma boa-nova, muito pelo contrário: a fêmea brasileira se tornou a maior consumidora de tinta loira do planeta. Sei que não és de espanto, viste de tudo nesse mundo –aqui incluído as assombrações como os pernambucaníssimos papa-figos-, mas a nossa morenidade sofre um golpe atrás do outro.

Sim, ainda vemos grandes bundas, ótimos latifúndios dorsais, mas na maioria dos casos contra a vontade das suas angustiadas proprietárias. Elas perseguem um outro corpo, um outro ideal de belezura,sonham com Giseles e outros fetiches ao melhor estilo vara-pau, bunda-seca, bundinhas que não rendem um pastel de feira.

Estás sentado, amigo? Então escutas mais esta: os cabelos encaracolados que enfeitavam as cumeeiras das nossas Sônias Bragas, lembras?, eita, estes sumiram de vez da nossa paisagem. Alisaram o mundo todo, amigo. A humanidade das fêmeas virou Vera Fischer por estas plagas.

A chapinha esquentou em todos os cocorutos, mesmo nos mais melanizados. Temos um salão de beleza a cada esquina, nos sobrados e nos mocambos, na casa-grande e na senzala.

O clareamento é a tônica.

E não tão-somente nos quesitos capilares, meu velho G.F.. Do teu livro "Modos de Homem & Modas de Mulher" (1986) para cá, tem sido uma reviravolta, um sururu na área a cada instante.

Sabes a maciez da mulher brasileira, as carnes de se apalpar em safadezas tantas? Pois bem, meu caro, todas correm a perdê-las na primeira fórmula milagrosa que encontram.

Não existem mais os corpos para os quais fomos sentimentalmente educados. Os colos macios de moças são cada vez mais raros. Tudo músculo endurecido de traveco ou de zagueiro. Não é mais nem aquela coisa assim Roberta Close, por quem nutrias uma admiração pela fartura da bunda, É só dureza. E pronto.

As cheinhas ou desapareceram ou estão meio desgostosas, isso é trágico, meu velho. Claro que molho a pena no tinteiro do exagero, mas precisamos ser panfletários para evitar a catástrofe definitiva.

Aqui me despeço, atenciosamente, mirando uma bela bunda, essa sim uma rara morena, uma jambo-girl, como diríamos em tempos de aldeias globais, uma legítima afilhada dos trópicos que passa sob a luz do final da tarde da vila Pompéia, a melhor iluminação natural, sem filtro, para se ver a cor morena. 

 

crônica escrita originalmente para a revista Continente.



Escrito por xico sá às 11h10
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ABECEDÁRIO DE FÊMEAS *

         Homem lá conhece mulher, meu amigo. Homem morre menino nesse aspecto do saber humano. Homem mata outro, promove estripolias no mundo, joga bola, vai à guerra, planta batatas, fabrica robôs, desenha videogames, mas não sabe da missa um terço sobre as Angélicas ou Zenaides, para ficarmos apenas na primeira e na última costela do abecedário de fêmeas que tratarei mais adiante.

Homem lá sabe do que está falando quando se trata desse quesito. Poucos, raríssimos, seriam aprovados em um Enem do gênero, em um vestibular da área. Somos analfabetos funcionais, somos quase todos do Mobral quando o assunto é o feminino à vera. Ficamos muito no raso, na beira do açude, rosto no espelho d´água da cacimba, medrosos, covardes, uma preguiça sentimental da gota serena, uns Macunaímas do amor e da sorte.

As Angélicas e Zenaides, estimado amigo macho, estão em um livro de chapar o quengo, um livro capaz de bulir com as nossas ignorâncias, remexê-las, e nos tornar mais cúmplices e interessados por completo nestes seres colossais que guardam mais mistérios do que a Santíssima Trindade e o bicho da seda. O livro, sem mais nove-horas, desembucha seu cronista enrolado:”As filhas de Lilith” (ed.Caliban, Rio, 2009), da poeta Cida Pedrosa, com ilustrações de Tereza Costa Rego.

Leia se for homem e volte das suas páginas com um outro encaibramento do mundo. Não tema, “o pênis de Angélica, era de plástico/ passou a vida a esfregar-se no espelho”. Berenice, animal de quatro patas, está exposta ao pássaro. Cecília, você já viu muitas, mas nunca conheceu mais de perto; ela lava a calçada, diz a autora, como quem lava o mundo. Tem coisa mais bonita?

Coitada de Diana. Coitada nada. Faz as loucuras de dietas porque bem quer: “A sopa a lua o brócolis a proteína o shake/ a balança a fita métrica o manequim”.Elisa tem olhos quase infantis e se perde naquele teto da igreja povoado de ovelhas próximas ao cajado do pastor. Alma atada aos cânticos, menino!

São biografias de mulheres de todos os tipos e quereres. Lirismos a doer no juízo & bofetadas no gosto besta e mediano. Dona Fátima, por exemplo, vende goiaba na feira, participa da associação comunitária e espera o dia em que a agência de modelo convide Priscilla para desfilar no shopping center e que Wesley termine o curso de informática para pilotar o caixa do supermercado Carrefour.

Tem ainda Grace e o seu café coado na hora; Hilda e o sexo de manhã antes do ônibus Rio Doce-Piedade; Ívis que fumou, riu e comeu; Juanita tem uma dor grande que não cabe no confessionário; Khady, ah, Khady; Luíza no jogo de buraco; Melissa nasceu loiríssimo e com olhos azuis, era o bibelô das tias e foi criado à luz dos ensinamentos do doutor Rinaldo Delamare...

Coube a Nely entender desde criança que o corpo era a morada dos loucos, desvão dos homens e ganha-pão dos pobres. Eis o cascudo poético de Cida Pedrosa na moleira do mundo. Só podia ser de Bodocó (PE), só podia ser do sertão do Araripe, só podia ser libriana, porque outubro naquelas plagas é o mês mais quente do universo inteiro.

Deixei outras mulheres e letras pelo caminho e aqui arriado os quatro pneus e o estepe encosto em Rosana. Porque em um dia de junho, agora mesmo, ela resolveu diminuir as horas: secou seu homem a tarde toda, prendeu-o entre as pernas e ao som de Bob Dylan diluiu-o na boca.

 

& Modinhas de Fêmea

 

Nem deu pra falar de Tereza no IML e de outras musas do abecedário de Cida. Úrsula, porém, era por causa da xará e atriz Andress mesmo: sapato só arezzo, bolsa victor hugo, relógio rolex, calcinha mourisco, perfume chanel, jeans m. officer, caneta mont blanc, creme lancôme, camisinha, infelizmente, a que tiver no motel. Pense numa mulher de grife! Coitada de Zenaide, coitada nada, dividiu em 12 suaves prestações, aos 60 de idade, a aplicação de botox. 

 

da coluna "modos de macho & modinhas de fêmea",  semanalmente no Diario de Pernambuco, Diario do Nordeste e O Tempo (BH).



Escrito por xico sá às 17h55
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O MILAGROSO PAU DE SANTO ANTÔNIO

As coroas largam seus caritós e vão pegar no pau de Santo Antônio, as Lolas também brincam em cima do tronco, as desenganadas fazem um chá da casca, os homens seguem os poetas Josélio, negão Wilson e o barco de cachaça, os ecologicamente corretos protestam –não contra a festa do santo, mas contra a derrubada da árvore gigante, arre palavra, aroeira, arre, Ibama na área-, o vigário desfia os seus contos e enterra os seus níqueis na botija, a rádio Salamanca toca Eleonor Rigby dos Beatles, o arroz jogado nas noivas rende um banquete aos mendigos, o pau do santo é milagreiro, quem pega casa mesmo, todo cuidado é pouco para um lobo solitário, o santo passa no andor muito sorridente, bochechas coradas de tanto paparico, ô mamãe ô que calor, ô mamãe ô que calor, calor calor na bacurinha, as coroas com fogo nas entranhas, meu Santo Antoniozinho, nos dai hoje um velho tarado e aposentado, fazei subir nossa pressão atmosférica,  Barbalha acordou manhosa, Barbalha barbarela, o pau de Santo Antônio nunca foi tão casanovístico, teso, grosso, imenso, rosa, valhei-me meu padroeiro, as coroas gozam só de vê-lo, é festa, pá, bendita efeméride e ninguém sabe direito onde começa o sagrado e muito menos adonde o profano acaba com a gente.  



Escrito por xico sá às 15h13
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CARTA ABERTA AO REI ROBERTO *

E/ou Educação Sentimental do Macho Popular Brasileiro

 

Amigo Roberto, antes de tudo agradeço a oportunidade de te escrever esta carta, aberta como um coração de um homem que sempre amou e sofreu em público, daqueles que marejam os olhos com uma canção pensando nela, mesmo a mais ingrata das crias das nossas costelas, mesmo uma mulher tão errada quanto aquela tua matemática do dois e dois são cinco.

Um homem que faz de todo amor um escândalo, amigo Roberto, seja bem ou mal-sucedido o amor em jogo, afinal de contas quem disse que pode haver amor guardado apenas para si e pronto?

Para mim, Roberto, o amor é a coisa mais pública, que se diz no balcão, que se chora no ombro do amigo, que se põe anúncio no rádio, que se derrama em chuvas de flores de helicóptero, que faz a gente se achar um daqueles caras sofridos de cinema americano, que faz a gente cantar “el dia en que me quieras” na chuva, em lágrimas, parando em cada orelhão público para ouvir a queda das fichas telefônicas comidas pela garganta  do silêncio da linha do outro lado, como me acontecia antes dos aparelhos móveis.

Amor de verdade, amigo Roberto, a gente fala, agente conta até para o cachorro, aquele que nos sorri latindo, que tanto nos serve de analista na emergência do desabafo.

Amor tem que ser dito bem alto para qualquer passante, como se fosse tua involuntária canção que toca no rádio do táxi.

Falar nisso, Roberto, já reparaste que toda vida que estamos fodidos de amor, lascados como maxixe em cruz, toda música tua, até mesmo aquela que ouvimos sem querer no fanhoso alto-falante da festa do padroeiro de Aratama,  é como se fosse nossa biografia precoce ou nosso horóscopo daquele dia, daquela semana, daquela quinzena?

Quando chorei pela primeira vez com uma música tua, e do Erasmo, claro, foi no Natal de 1974,  e vou te contar, nem era música de amor por moça, nem queria comer ninguém (ainda), foi aquela do milhão de amigos, mas quando falas da possibilidade do choro do irmão e do querer estar por perto. Naquele tempo tive a primeira noção de perda e dor de um homem: o tio Nelson, teu maior fã nessa terra, se fora precocemente aos trinta e poucos.

Durante todo o ano chorei ao ouvir aquela canção, mas o que era muito triste foi abrindo o céu fechado, “sem abrigo a dor”,  e era como o visse dizendo assim, lá pelas tantas, em sonhos, “quando sair o disco novo do Roberto canta dai para mim, meu rapaz?”

Poxa, ela não gostava daquela tristeza, Roberto, aí chegaste com uma perfeita para eu pensar que ele estava mesmo a ouvir as coisas terrenas, mas na buena: “Além do horizonte deve ter um lugar bonito pra viver em paz...”  Fui para o meio de uma descampado, em cima de um murundu, um deserto de tudo nordestino, alí onde havia chorado cacimbas, e cantei bem do alto, desta feita sem choro, com uma coragem que só tu vendo, disposto para enfrentar todas as futuras perdas, como se isso fosse possível.

 

*

 

Depois, amigo, corta do Cariri para o Recife, aí já adulto recebo, pelo rádio, a mais importante lição do Roberto, professor titular de educação sentimental do homem brasileiro, simples como um prato de arroz, feijão, bife: “O amor está sempre na moda”.

Falou e disse!

Foi em uma canção dos anos 1980, quando as declarações amorosas andavam um tanto em baixa, quando uma certa modernidade e frieza tomavam conta do mundo, quando começávamos a perder de vez o cavalheirismo, quando já esquecíamos a possibilidade de unir testosterona, pegada e delicadeza...

Foi justamente no perigo dessa hora, que tu cantaste, disco da safra 83, um dos mais importantes manifestos para alertar-nos sobre burrice que imperava:

“Olha, tudo é questão de momento

Homem que tem sentimento

Briga por tudo que quer

Ama, independente da moda

Macho, mas não se incomoda

De ser um doce com sua mulher.”

E assim em todas as nossas crises, és o cara que conversa com a gente, que manda os plás, os recados, és aquele cara, ombro amigo, que nos conforta nas dores do chifre e na tremelica nos orienta, nos mostra o rumo qual um Humphrey Bogart ensinando truques a um abestalhado Woody Allen (“Sonhos de um sedutor”, o filme).

Roberto, mostraste a nós todos, até à mais bruta das criaturas, que tratar bem a pequena jamais será uma fraqueza, muito pelo contrário, isso é que é ser homem completo, os 12 trabalhos de Hércules, a beleza do encontro, barro, andaime e reboco das nossas costelas.

Por isso que bradaste, escutas só, te lembras dessa?:

Mas o amor está sempre na moda

Não me deixam mentir os casais

Pelos cantos escuros das ruas

E entre quatro paredes bem mais”.

 

Sim, amigo, numa canção que nem dão muito por ela, nem virou clássico, mataste a pau, antes mesmo do debate dessa parada do macho perdido de hoje, sacas?

Nossa Senhora, o título da música já diz tudo: “O amor é a moda”.

Que lição de vida, como se perder com tal bússola?

Aquela estrela é dela, vida vento leva-me daqui, como é lindo quando cantavas a dos meninos do Ceará, lembras?

Mais lindo ainda quando cantou as fofinhas, as macias, as de óculos, tens a manha da isonomia anatômica, bem sei que não se trata de média, nós pegamos todas, desde que seja com a mínima moral amorosa, além, muito além dos botões da blusa.

Sim, me diga aí amigo meu, se tudo que a gente gosta é ilegal é imoral ou engorda?

Agora mesmo, sabe, cara, todas as vezes, sabe aquela moça que sempre passa e não nos vê... Os dias passam correndo... Preciso dar um jeito de chamar a atenção da desalmada, que tu achas, se ele nem liga para minha existência?

Que jeito, amigo, para chamar a atenção da sujeita?

Sim, o meu melhor sorriso eu dei, segui o teu conselho, não adianta, só me falta ficar nu pra chamar sua atenção, mas tu sabes, amigo, anatomicamente não sou lá essas coisas todas, o que se faz nessas horas?

Chega de te encher o saco, amigo Roberto, parabéns pelos 50 anos de educação sentimental do macho brasileiro e desculpa pelo desabafo, e o resto é a rotina do dia-a-dia que está mudando tudo lentamente, mas estamos firmes, como machos, antigos ou modernos, que não deixam nunca o amor sair de moda, por supuesto.

 

*crônica publicada na revista RC EMOÇÕES, a revista comemorativa do cinquentenário do cara.

 



Escrito por xico sá às 00h18
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O CASO DA VIUVA DE JABOTICABAL

Entre as minhas tantas costuras para fora, uma, em especial, me encanta: a de conselheiro sentimental. Talvez herança da minha mãe. Ouvia moças e mais moças que passavam naquela beira de estrada rumo a Nova Olinda e Crato. Eu ficava só ali, na botuca, pegando a manha, o que me renderia o primeiro estágio no rádio, em Juazeiro, no programa Temas de Amor, no qual escrevia –mesmo sem conhecer o que seria uma mulher- as dicas para chicas abandonadas ou cheias de dúvidas. Depois ocupei a mesma função com o pseudônimo de Miss Corações Solitários (batismo roubado do livro do escriba Nathanael West) em sites e periódicos. Nos últimos anos, a experiência se repetiu na revista feminina UMA e em um blog temporário da revista Trip.

 

Por causa dessa ficha corrida, sempre me mandam, até hoje, cartas e emails com alguma demanda amorosa. Não estava respondendo publicamente às consultas, mas como Eliete faz questão de tornar explícita a sua dúvida, deixamos ai aberta aos leitores.


Xico, sou viúva e tenho um pretendente em outra cidade. Sou pobre e ele rico. Ambos temos filhos.Você acha que largo tudo e caso com ele ou desisto desse amor? Muito obrigada. Um abraço afetuoso, Eliete, Jaboticabal, São Paulo

 

Prezada Eliete, desistir qual o quê, encantadora senhora! Se achas que é amor por que fugir à luta? Por que o dito sr. mora em outra cidade? Quando é amor, criatura, vale se mudar com mala e cuia até para Tegucigalpa, o que não deve ser o caso –imagino que mores na mesma região do pretendido homem maduro. Mas o que você vais largar, criatura? Filhos? Se eles já tiverem grandinhos, não há motivo para mascar o jiló cristão da culpa. Que faças tua vida, serás compreendida pelos garotos. Até porque eles não terão cerimônia alguma em mais adiante, naturalmente, deixar a mãezinha querida e seguir a merecida vida deles, casarem, terem também os seus rebentos etc etc.

 

Amiga consulente, por que tu achas que a riqueza do sr. pretendente pode atrapalhar vossa vida amorosa e de convivência?  Não careces dar ouvidos a estranhos comentários, que, por maldade, insinuam algum interesse teu na fortuna dele. Se ele diz que ama, por que temê-lo? Temos que correr de quem vive afundado em um poço de dúvidas, da turma do “estou confuso”, da turma do “oncotô, quêque-eu-sou, oncovô” etc.

 

Mira, encantadora Eliete, a gente não pode desperdiçar certas oportunidades na vida, sob pena de arrependimentos e rancores futuros que ficam dependurados no trapézio do cocoruto até o fim dos dias. Meio amor não é amor, como nos lembra o titio Nelson, mas se sente que é amor inteiro, segura na mão de Deus e vai, sem medo. Te juega, criatura. Beijo, com o carinho de sempre, XS



Escrito por xico sá às 18h33
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PERTO É UM LUGAR QUE NÃO EXISTE

ou Breve manifesto brego-piegas antes do macarrão domingueiro  

Tudo bem, tem dia que a gente acorda meio velho patético, fazer o quê, vamos em frente, e a queixa senil da semana, a blasfêmia que divido com vocês é mais ou menos a seguinte: a capacidade que as pessoas têm no momento de se comoverem com as coisas ou personagens lá de longe, bem distantes mesmo, e a injeção de anestesia que tomam para as coisas e os personagens bem de perto, ali na esquina, na porta de casa, as Susan Boyle que existem em cada rua, em cada povoado, em cada sítio, em cada vila, usina, engenho, montanha.

Não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia e nem no algo mais, como diria o meu amigo  Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, porém,  meu velho, é muito fácil, moleza, safadeza, quase crocodilagem, chorar e prestar apoio virtual somente para o que está a milhares de léguas de nós. Há uma Susan Boyle, para voltar à modesta e simpática senhorinha inglesa, em cada quintal, em cada meia-água, em cada beco, em cada província.

Sim, traço o meu torresmo populista em público e cobro com o megafone das dores mais antigas: por que ninguém ampara mais o epilético que se debate na Conde da Boa Vista, na Afonso Penna, na Praça do Ferreira, na avenida Ipiranga, na beira do Guaíba, na praia de Iracema, no calçadão de Copacabana?

Todo mundo chora e se comove com as vítimas de bem longe e dá bananas, na República apropriada, para as Susan Boyles locais. Assim é fácil, amigo, quero ver sentir e amparar as dores a 50 metros de casa.

Sim, os personagens das dores mais próximas são todos picaretas, enganadores, querem apenas o seu dinheiro, são ladrões travestidos, gatunos em trapos, não prestam etc etc. Você, amigo, adora se comover mesmo é com as lágrimas expostas nas correntes do youtube ou no Fantástico.

Nunca foi tão fácil o choro. Quero ver é chorar pelo pai-de-família perdido no álcool debaixo do viaduto, que conta apenas com o vira-lata como divã das dores de todos os infernos possíveis. Tudo bem, tranque o vidro do carro e vá chorar em casa pela Susan Boyle, até entendo, é bem mais cômodo. Você tem que chorar por alguma dor nesse mundo e a senhorinha inglesa, explorada até o tutano pelo show de horrores, é apenas a vítima da hora.

Nunca foi tão fácil, com ou sem tragédias, comover-se pelas coisas ou personagens de bem longe. Isso não é feio, é bonito, nunca as nossas glândulas foram tão globalizadas. Seria mais lindo ainda se não estivéssemos, como jamais nessa vida, tão frios e anestesiados para os que desmaiam ou morrem na nossa frente. Nunca estivemos tão fracos no nosso próprio terreiro. Com licença da palavra, estamos uns merdas para os que sofrem ao nosso lado.



Escrito por xico sá às 10h14
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TALENtO PASSADO EM CARTÓRIO *

Nestas plagas, amigo, mesmo quando o filho é adotivo, o talento é hereditário. O sucesso aqui é como um latifúndio, um imóvel, passa-se em cartório. Claro que se a tua cria levar jeito para as artes, mesmo as ludopédicas, melhor ainda. Futuro asseguradíssimo.

Seja no Eixo midiático das modas e imposturas -a ponte Rio-São Paulo-, no Recife assombrado de Gilberto Freyre, na Fortaleza de Nossa Senhora de todas as Assunções ou na Belo Horizonte dos velhos arraiais, currais D´El Rei e dos novos mandatários.

Como um Pêro Lopes, um Duarte Coelho ou um Martim Afonso das velhas Capitanias, vale o brasão heráldico no frontispício ou na fachada. Nada como um século atrás do outro para reafirmar a nossa gloriosa tradição de um batismo bem composto.

Sabes com quem está falando?

Um bom sobrenome, amigo, acende automaticamente o foguetório da glória e da fama.   Disso já sabia o velho Pestana, músico frustrado, ainda no século XIX, protagonista do conto “Um homem célebre”, de Machado de Assis. Faltou-lhe uma marca sanguínea mais decente, o que levaria aos píncaros –seu sonho era ser um Schumann, um Mozart. Jamais, porém, para o seu desgosto-mor, o artista passou de um festejado autor de polcas e outras chulas modinhas da praça.

Coitado!

Do mundo de Machadão às telenovelas, com um bom batismo vai-se ao longe, avança-se sempre umas seis casas sem carecer da sorte no jogo de dados ou nos lances cruéis do destino e do acaso.

A não ser que o amigo se contente em ser apenas uma celebridade-miojo, daquelas que fervem e viram gases de três a cinco minutos. 

Seja qual for o ramo de atuação, recomendo um mantra sagrado nos Tristes Trópicos: eu tramo, tu conspiras e nós assinamos embaixo.

Faça você um biscoito fino ou um pão bolorento para as massas.

Na falta total de um bom sobrenome, colar, grudar mesmo em quem ostenta uma marca sanguínea impoluta pode ser uma ótima idéia. Ser da “turma”, de alguma forma, é adquirir, sob módica bajulação diária, um parentesco distante.

Eu tramo, tu conspiras e nós assinamos todos embaixo. Feito! Aí é só mandar o motoboy reconher a firma em cartório.

Mais fácil do que empurrar bêbado ladeira abaixo.

“Se liga”, amigo, nas técnicas modernas de alpinismo social e cultural da nova era. “Fazes por ti que eu te ajudarei”, eis o eco bíblico que bafeja o teu cangote montanha arriba.

Só não caia nessa lorota de que as coisas mudaram, tão-somente porque temos um Silva na cumeeira do poder da República.

Nas artes é diferente. Entre agora mesmo naqueles sites que pesquisam árvores genealógicas e descubra o caminho das pedras, uma boa ligação sanguínea com a elite cultural moderna. O que conta é a sua defesa, a sua narrativa, afinal de contas todos fomos filhos do mesmo casal de macacos um dia. Se Darwin é por nós, quem será contra nós nestas hereditárias e bravíssimas capitanias?

* versão compacta de um ensaio-crônica publicado na revista Continuum.



Escrito por xico sá às 15h53
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