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CARENÇOLÂNDIA -BREVE VISITA SEM GUIA
Bravas fêmeas expulsas do paraíso por um deus misógino fundaram um reino nada encantado. Deram a este pueblo o nome de Carençolândia. Embora tenha sido criado pelas mulheres no tempo em que só existia o fogo e o verbo, foram os machos que se impuseram, muitos séculos depois, como os mais legítimos cidadãos carençolandeses. Cuidado, frágeis!, eles estão perdidos, sejam metrossexuais, übersexuais ou brechossexuais [aqueles que só usam roupas com encosto de brechó]. Fracos, não agüentam o tranco das mulheres mais destemidas. Arrotam macheza nos botecos, mas logo que põem as patas em casa uivam para a lua minguante e sonham com uma chuva de coleiras. O macho carançolandês não passa meia hora separado, não vive sequer o luto amoroso da resoluta que aplicou-lhe um conga no meio da bunda - a padoca mole e farta que dantes já prescrevia o chute. Ele vai lá e agarra a primeira que passa, nem que seja um manequim de gesso, como ocorreu ao meu amigo Sizenando, aquele mesmo que trabalhava como galhudo-mor nas crônicas de Rubem Braga. Enquanto o manequim era levado de um lado a outro da rua, para uma troca de vitrines, ele abofelou-se com a loira gessificada e a entope de gala até hoje. Bem-vindos ao reino da Carençolândia, esse golfo inevitável da existência. Sim, na Carençolândia ninguém vem a passeio e o turismo é proibido. A Carençolândia é uma espécie de Mali, de Níger, de Burkina Fasso, de Guiné Bissau, de Chade... d´alma. A Carençolândia é o vale do Jequitinhonha metafísico que chia como catarro em nossos pulmões e tórax _diga 33!!! Carençolândia não tem sequer feriado.Um programa populista e eleitoreiro de saúde pública agora trouxe Prozac, Lexotan, Frontal e zilhões de remédios tarjas pretas para este reino. Os compromidos foram postos em toda a rede de água de Carençolândia... Adicionados ao sal, ao açúcar... Mesmo assim não houve um sorriso sequer, nem mesmo do gato lisérgico de Alice.
Escrito por xico sá às 12h58
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A ARTE DE PEDIR EM NAMORO -REEDIÇÃO REVISTA E AMPLIADA
É namoro ou amizade? Rolo, cacho, ensaio de amor, romance ou pura clandestinidade? “Qualé a sua, meu rapaz?!”, indaga a nobre gazela. E o homem do tempo nem chove nem molha. Só no mormaço, só na leseira das nuvens esparsas. No tempo do amor líquido, para lembrar o título do ótimo livro de Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos encontros amorosos, é difícil saber quando é namoro ou apenas um lero-lero, vida noves fora zero... Cada vez mais raro o pedido formal de enlace, aquele velho clássico, o cara nervoso, se tremendo como vara verde: “Você me aceita em namoro”? O tempo passava e vinha mais um pedido clássico e igualmente tenso. O pedido de noivado. Mais adiante, a hora fatal, mais uma tremelica do jovem mancebo: Você me aceita em casamento? E pedir a mão,aos pais, meu Deus, haja nervosismo, melhor tomar um conhaque na esquina para encorajar-me. São raros, raríssimos hoje esses nobres pedidos. Em alguns setores mais modernos e urbanos, digamos assim, talvez nem exista mais. O amor e as suas mudanças. A maioria dos homens, além de não pedir em namoro, além de não pegar no tranco, ainda corre em desespero diante de uma sugestão ou proposta de casamento feita pela moça. O capítulo bom da história é que agora as mulheres também partem para o ataque e, diante de uns temerosos ou acanhados sujeitos, escancaram suas vontades, suas paixões, e fazem suas apostas, seus pedidos, põem na mesa os seus desejos e as cartas de intenções. Voltando ao mundo dos homens, lembro que era bem bacana esse suspense masculino do “você quer namorar comigo?” Havia sempre o medo do fora. Um sim, mesmo o mais previsível, era uma festa. “Quer namorar comigo?” No tempo do “ficar”, quase nada fica, nem o amor daquela rima antiga. Alguns sinais, porém, continuam valendo e dizem muito. O ato das mãozinhas dadas no cinema, por exemplo, ainda é o maior dos indícios. Tanto quanto um bouquet de flores, mais do que uma carta ou um email de intenções, mais do que uma cantada nervosa, mais do que o restaurante japonês, mais do que um amasso no carro, mais do que um beijo com jeito, daqueles que tiram o gloss e a força dos membros inferiores. “Vamos pegar uma tela, amor?”, como se dizia não muito antigamente. Eis a senha. Mais até do que um jantar à luz de velas, que pode guardar apenas um desejo de sexo dos dons Juans que jogam o jogo jogado e marketeiro. O cinema, além da maior diversão, como diziam os cartazes de Severiano Ribeiro, é a maior bandeira. Nada mais simbólico e romântico. Os dedos dos dois se encontrando no fundo do saco das últimas pipocas... Não carecem uma só palavra, ainda não têm assuntos de sobra. Salve o silêncio no cinema, que evita revelações e precoces besteiras. Ah, os silêncios iniciais, que acabam voltando depois, mas voltando sem graça, surdo e mudo, eterno retorno de Jedi. Nada mais os unia do que o silêncio, escreveu mais ou menos assim, com mais talento, claro, Murilo Mendes, poeta dos melhores e mais líricos. Palavras, palavras,palavras... Silêncio, Silêncio, silêncio... Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito. Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate.
Escrito por xico sá às 09h22
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TRATADO GERAL DOS CHATOS -O REMAKE
Sem nenhuma pretensão de atualizar a brochura “Tratado Geral dos Chatos”, que o homem de teatro _sim, existem, habemus homens de teatro!_ Guilherme Figueiredo pôs no mundo há mais de meio século, cá estamos com uma nova lista destas criaturas capazes de nos subtrair a paciência e nos deixar tão inquietos quanto as vítimas do Pediculus púbis, como são conhecidos cientificamente os insetos homônimos que atacam as partes mais baixas e indefesas de um cristão de fé. Bons e inocentes tempos aqueles em que os chatos se resumiam aos tipos agrícolas, como o chato-pra-chuchu, ou às criaturas crentes na meteorologia, como os chatos-de-galocha, que já saíam de casa prevenidos contra qualquer enchente, vento ou maré. Haviam ainda os menos ofensivos, como os da espécime aforismática _sempre com uma filosofia de pára-choque na ponta da língua para importunar a vida alheia. O certo é que eles se multiplicaram como os invertebrados homônimos e hoje dominam o país, os lares, as repartições, os logradouros públicos, as salas de espera... Estão em todas as partes. Existem os chatos-24 horas, estes vampiros da paciência alheia, como diria o bruxo do Cosme Velho _só para citar outro tipo fenomenal de chato, que é aquele que sempre inicia uma conversa com a inseparável locução “como diria...” Enfim, só nos resta ser mais chatos ainda, o que tenho buscado nestas linhas, afinal de contas ainda não nasceu o ser humano capaz de chatear um chato sem que portasse a mesma peçonha. Como perdemos, nesses tempos corretos, o gosto pelo assassínio e maltratos do gênero, sobra a este cabeça-chata que vos impacienta mapear os maçantes mais visíveis e contemporâneos. Ei-los: Mega-super-ultra-hype – O chato mais veloz do Oeste. Trata-se da criatura atualizadérrima nas últimas tendências e apostas do mundinho dos modernos da noite e da mundanidade em geral. Sabe a nova gíria dos clubes de Londres e já baixou no computador a última faixa do DJ paquistanês pós-electro-cool-de-cu-é-rola que será a sensação no inverno novaiorquino. Na hora de falar, apresenta-se como um Guimarães Rosa clubber, ninguém compreende um só vocábulo. Fêmea sitcom – Aquele tipo metropolitano metido a chique que acha que a vida é um seriado americano, um Sex and City sem fim, século seculorum. Nos salões, principalmente nas bocas-livres, está sempre com um prosseco à mão. Adora vernissages. Chatos de época - Rabugentos, inconsoláveis, sempre a resmungar pelo borogodó que se foi. Não é uma questão de idade, ataca também raparigas em flor, como as gazelas que fazem um tipo “virgens suicidas” e ouvem Renato Russo e Smiths como se fossem mademoiselles do século XIX. Garçonete-cabeça – Aqui encarno um rápido chato de época para lembrar o tempo em que garçom vestia preto e branco, com gravatinha borboleta, o chopp chegava gelado, ele sabia o resultado do futebol e ainda nos servia de ombro para uma dor amorosa de ponta. Hoje, nos bares de moda, as garçonetes são lindas, descoladas, podem passar a noite a discorrer sobre cinema coreano, mas o serviço que é bom... nécaras, como diz o meu amigo Sabião Bestunes, o monstro de Sabará y alhures. Mario de Andrades digitais – Pessoas que escrevem e-mails enormes, como as famosas cartas do modernista paulistano. Esse homem matou muitos pobres e desnutridos carteiros de tanto fazê-los gastar sola de sapato, pois se correspondia com o país inteiro... Embora desse a impressão a cada interlocutor que aquela troca de cartas embutia uma linda e única afinidade eletiva. Todos os anos vem à tona um novo carregamento de missivas do gênero. Escreveu para tocadores de coco do Nordeste, índios, mitos amazônicos, gorilas...
Escrito por xico sá às 02h08
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SOB O DOMÍNIO DO SOL DE BOLSO
ah, vamos esquecer por uma semana nosso sol de bolso, como João Cabral chamava a aspirina, como Paulo Henriques Britto batizou o milagroso antidepressivo, remate de males do cocoruto, vamos esquecer por uma semana as cartelas, as receitas, as tarjas negras, vamos ver o que acontece, vamos dar um bom dia tristeza, vamos nos tornar lindamente melancólicos ao lusco-fusco, vamos deixar q a espessa neblina encubra o pára-brisa, vamos tentar..., e se der merda, e se a gente não segurar a onda, a gente enche a cara, noite na taverna, a gente volta correndo pra casa e faz dos lençóis uma cabana, uma barraca de praia no escuro, a gente se agarra como se fosse mesmo o fim do mundo, e daí?, posso querer os seus zolhinhos com aquele velho spleen?!
Escrito por xico sá às 22h58
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A GENTE SE VÊ (O REMIX)
Em uma megalópole como SP e outras tantas grandes cidades, haja encontros e desencontros, Sophia querida, alguns não tão graves, acontece, outros infinitamente dolorosos, que nos perturbam os sentidos, que fazem a gente maldizer os céus, os astros, o destino. Fica tudo na base do “a gente se vê”... E fudeus, adeus! Não que fosse acontecer um casamento ou algo do gênero a partir daquele encontro, nada disso, mas foram encontros bonitos, fortes, que se acabam ali mesmo, na poeira da estrada, numa tarde fria, em um café da manhã, numa simples despedida sob a neblina na Dutra ou Anchieta. “A gente se vê.” Pronto, eis a senha para o terror, o “never more”, o nunca mais do corvo do escritor Edgar A. Poe. A gente se vê. Corta para uma multidão no viaduto do Chá. A gente se vê. Corta para uma saída de estádio lotado em dia de decisão do campeonato. A gente se vê. Corta para “onde está Wally”. Nada mais detestável de ouvir do que essa maldita frase. Logo depois a porta bate e nem por milagre. Jovens mancebos, evitem essa sentença mais sem graça. Raparigas em flor, esqueçam, esqueçam. Melhor dizer logo que vai comprar cigarro, o velho king size filtro do abandono. Melhor dizer que vai pra nunca mais. Melhor o silêncio, o telefone na caixa postal, o telefone desligado, o fora da área, a clandestinidade amorosa, o desprezo on the rock´s. A gente se vê uma ova. Seja homem, troque de palavras, use o código do bom-tom e da decência. A gente se vê é a mãe, ora, ora. Como canta o Rei, use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só... Esse “a gente se vê” deveria ser proibido por lei. Constar nos artigos constitucionais, ser crime inafiançável no Código Penal. A gente se vê é pior do que a gente se esbarra por ai. Pior do que deixar ao acaso, que jamais abolirá a saudade, que vira uma questão de azar e sorte. Melhor dizer logo “foi bom, meu bem, mas não te quero mais”. YO NO TE QUIERO MÁS, como na camiseta mexicana que ganhei de una hermosa chica. Dizer foi bom meu bem e pronto, ficamos por aqui, assim é a vida, sempre mais para curta do que longa-metragem. A gente se vê é a bobeira-mor dos tempos do amor líquido e do sexo sem compromisso. A gente se vê é a vovozinha, foda-se! Seja homem, seja mulher, diga na lata. Não engane a moça, que a moça é fino trato, que não merece desdém. A fila anda, jogue limpo. A gente se vê. Corta para uma multidão no show do Morumbi. A gente se vê. A gente se vê. Corta para a multidão no Campo de Marte. A gente se vê. Corta para o formigueiro do Maracanã. A gente se vê. Corta para a São João com a Ipiranga. Corta para a 25 de Março em véspera natalina. A gente se vê. Corta para um engarrafamento gigante na marginal do Tietê... A gente se vê. Então aproveita e vai olhar se eu estou na esquina!
Escrito por xico sá às 00h14
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ORAÇÃO À NOSSA SENHORA DOS QUE AMAM SOZINHOS
Nossa Sra. dos que Amam Sozinho, perdoa-me pela insistência, nem mais é por tanto quere-la, é por deixar claro, nega que sopra das intimidades dessa oração, que só ela me faz passar da conta, perversa, cair no abismo mais lindo do gozo sem volta, como naquele encosto de beira de estrada, como na rodovia estrangeira de Sam Shepard, crônicas de motel, simbora! Nossa Sra. dos que só pensam nela, cotovelos lanhados de tanta espera, tantos sustos nas ruas, nos bares, “é ela!!!”, Nossa Sra. Dos Cotovelos da Surpresa e das janelas, tão gastos, cinzas, peles, dobras, e tanta fome de viver aqui dentro, megalomaníaco, épico, terá sido a força do desprezo??? Não creio, sr. Albero Moravia. É mesmo a paudurescência, nostalgia precoce das grandes histórias, o tempo inteiro, pensando, pensando, pensando, mas no fundo gostas! Os joelhos lanhados pela romaria, devoção e insistência. Nossa Sra. da Vida Alongada que consegue, nos seus exercícios de Kama Sutra, me levar à coisa mais sagrada. Nossa Senhora!!! Amor demorado, anjo exterminador da alcova sem pílulas milagrosas. Amor por tê-la, rara. Beijá-la delicadamente, como um cristão que dissolve na boca uma hóstia. Amar por horas, riachinhos d´águas que não se sabem donde, cada cantinho dum mapa que se inventou só pra se perder depois, sentimento é a verdadeira bússola dum homem, perdido docemente lá embaixo, lá embaixo, daquelas tuas vestes modernas que nunca te escondem. Lua cheia, vida crescente. Escuto Lê Déserteus, Boris Vian, ouviste?. Nossa Senhora dos que sentem muito e amam sozinho, rogai por nós que recorremos a vós!
Escrito por xico sá às 00h40
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CINEMASCOPE, PARTE II
Do cinema lindo & phoda de existir e de como uma mulher pode encantar nos detalhes e cortes de nós dois. Quando ela pede pra gente virar os olhos ou fechá-los bem fechados. Só enquanto troca a calcinha, vupt, mesmo com toda intimidade desse mundo, às vezes intimidade de anos. Só enquanto troca o sutiã, biquíni, parte de cima, ajeita a parte de baixo, areia do doce balanço da beira dos mares, só enquanto tira uma toalha do banho, viagem de fim de ano, só enquanto está lindamente menstruada e quer guardar-se, embora saiba que atravessamos com amor e gosto todo o seu mar vermelho e ainda mais mares houvesse a cada mês. “Feche os olhos”, diz. “Vira o rosto”, safadeza-se, diva sob seguras telhas. Só para manter o suspense do cinesmascope debaixo do mesmo teto. “Pronto, pode olhar”. Ai ela ressurge mais linda ainda, cabelinhos molhados, com aqueles cremes todos da Lancôme ou com simples sabonetes Dove ou aqueles de nove em cada dez estrelas de Hollyood, Lux, deluxe, eu morro nesses lapsos de tempo, elipses do desejo, frações de segundo que são eternas de olhos fechados para quem meus olhos na terra, que há de comê-los inté os aros dos óculos, mais abriram e justificaram seu brilho castanho mesmo em dias de torpor e existência lusco-fusco.
Escrito por xico sá às 01h19
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QUANDO ELAS DIZEM ESTOU CONFUSA...
Amigos machos, amigas fêmeas, como berram nas suas manchetes as revistas de modas & modinhas, o homem é mesmo a nova mulher e vice-versa. O que impressiona o cronista não é nem o troca-troca de sexos, tampouco a confusão dos gêneros e suas modernidades. O que mais chama a atenção é o discurso amoroso de mãos trocadas: cada vez mais a mulher fala como homem e o homem, por seu modo, cada vez mais afina a voz e choraminga como uma mulher leitora de romances do tipo Sabrina, saca? Óbvio que resguardamos, nessas pás-viradas todas, os cafundós à prova de redemoinhos nos costumes e outras acontecências ditas civilizatórias, como nos sertões profundos, por exemplo, onde homem continua sendo homem, mulher segue mulher e é dito homossexual apenas a passiva criatura, jamais a que faz o agrado de fato e de direito no fiofó do seu semelhante. Mas paremos nosso jegue metafísico por aqui, na questão dos discursos. Sim, a apropriação da fala desculposa e masculina por parte das mulheres, já notaram? Não chega a ser bem um plágio histórico, mas é uma beleza, quase, quase! E nos interessa sobretudo a enganação-mor, o clássico dos clássicos da nossa principal mentira. Aquela usada desde priscas eras, lembra? Então dois pontos para acochambrar os parafusos da memória: “Estou confuso, não é culpa sua, você é ótima, mas acho que não vou lhe fazer bem nesse momento, bla-bla-bla-bla”. Haja enganação, nove horas, truque, fraude... Já ouviram esse fragmento do discurso nada amoroso, né? Pra completar: “Você merece algo melhor!!!” Repito, era um clássico das desculpas dos machos. A nossa maior falta de vergonha na cara. Agora ouvimos a mesma ladainha da boca das moças, que onda! Já faz tempo que essa desculpa _ “ESTOU CONFUSA...”_ só sai da boca delas. Não faz mal, quantas vezes não usamos do mesmo artifício, da mesma falta de argumento, tá legal, eu aceito o fingimento... Mas por favor, crias das nossas costelas, devolvam o meu caô, o meu 171, o meu agá, a minha enganação-mor, a minha forma de me livrar mais fácil e, de preferência, de forma indolor. Encanta-me o avanço das mulheres em todos os campos e engrenagens pesadas, rebimbocas & parafusetas, só é desnecessário o quase plágio dos nossos discursos, ora, ora. Vocês não carecem disso, vocês são mais sofisticadas, mais inteligentes, mais lindas e labirínticas. “Estou confusa...” (Me veio até, do sótão do cocoruto, a velha imagem de Didi Mocó no seu clássico “Estou cafuso, estou cafuso!”) Estou confuso. Isso era apenas coisa de macho frouxo, não de elegantes mademoiselles. Tudo bem que vocês, belas raparigas, avancem em tudo, mas não careciam furtar logo o pior dos nossos defeitos. Somente nesta última semana, deparei-me com quatro amigos sorumbáticos e macambúzios. Todos vítimas do “eu estou confusa, não é culpa sua etc...” Devolvam o nosso discurso picareta, façam-me favor! Nosso 171 exclusivo de volta! Sim, outro clássico, o “não é nada disso que vocês estão pensando”, já mudou de boca também faz tempo. Agora derrete o batom e o gloss das lindas filhas de Eva. É, amigos, toda vez que ouço um diplomático “estou confusa” saco logo meu velho serrote de galhas e chifres para poder, ao menos, entrar, humildemente, na porta de casa.
Escrito por xico sá às 03h08
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CINEMASCOPE
No que concerne ao olho masculino nas visões matutinas: Quando ela acorda, aquelas marquinhas no corpo feitas pela noite, atrito de peixes que passeiam nos subterrâneos dos lençóis. Cabelos feitos algas doidas, o seu incômodo mais bonito; algum tédio diante da reabertura do mundo chato, ela se espreguiça, ossinhos que estalam sob a réstia do sol dos sérios que atravessa a cortina. Agora ouço o barulho do mijinho dela, música ao longe aqui do quarto. Paudurescência da aurora; ensaio um gozo memória, nostalgia precoce, como se a danada tivesse ido embora num teletransporte de fio terra; ela volta ainda mais manhosa, quase um gato a inventar botes câmera lenta num sashimi da véspera. O pau toca a sua bundinha sem a pressa da foda, quase como fossem feitos um para o outro e tivessem todo o tempo do mundo. As almas já se entendem, os corpos quase, ela pensa “qualé a desse cara?”. Toco fogo no café e o cheiro sobe, polvo do amor mobilizo-me entre o forno, esquentar os pães, as frutas dos impressionistas, a manteiga do primeiro tango, acorda maria bonita, que a polícia do pensamento já está de pé. Um homem nos ensaios de amor, velho J.L.Godard, carece de muitas mãos, línguas, dedos, certezas.
Escrito por xico sá às 01h45
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NADA COMO AQUELA OLHADINHA SAFADA
Nada como aquela olhadinha que ela dá quando lá embaixo. Ainda e pra sempre, da série “detalhes tão pequenos de nós dois”. A vida se resume a observar, microscópio de eros, tio Nelson, a mulher e o seu drama. Nada como aquela olhadela, sobrancelhas assanhadas, mirando lá de nossos países baixos cá para cima do nosso cocuruto alumbrado. Tão lindamente sacana, ah, que nega a minha nega, derreto-me como manteiga! Ela quer saber se estou gostando, claro que estou mortinho ali no pré-gozo. Tem um orgulho, “vê como faço bem feito e com gosto”, ali naquela olhadinha plongé, contra-plongé, depende de quem vê... Como eu gosto, ela diz, posso? Aperto com força os seus cabelos, resvalando numa fração de segundo para um carinho no rosto, lado esquerdo, com o lado B da mão e dedos, quiromancia e mistérios. Ela desce lá naquele cantinho fronteiriço, desenha a história do olho com riscos da língua em círculos, lambe a última costura da minha pobre existência, nirvaniza-me, petite mort, e assina nossos batismos lindos com lambidas góticas, assim como quem escreve inocentemente na areia, coraçãozinho flechado, e o nome de quem aposta, como se o amor fosse um jogo do bicho. Não resisto a olhadinha lá de baixo, vem cá, estou longe e perto, meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo, como na canção do 2 e 2 são cinco. Como nosso universo é tão perfeito aqui na cama, só na cama, lá embaixo, na cama zen, japão do amor, horizontalizo-me, para sempre, viro réptil, nunca mais me levanto, nunca mais me levanto e ando, odeio meus Lázaros internos, agora eu quero mais é nadar no seco, melhor jeito de navegar aos teus pés, e de vez em quando, quer saber?, afundo as mãos nos arrecifes e te dou um peixinho, como aquele do conto de Virgílio Piñera, que aprisiono nas profundezas sujas das nossas existências.
Escrito por xico sá às 14h01
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A MOÇA QUE CHORAVA NO METRÔ
Uma das grandes vantagens das mulheres sobre nós é a coragem, o destemor, de chorar em público. Se o choro vem, as mulheres não congelam as lágrimas, como os moços,pobres moços... Não guardam as lágrimas para depois, como sempre adiamos, não levam as lágrimas para chorar escondidos em casa. Pior ainda é o homem que não chora nunca. Além de fazer mal ao coração, esse tipo não merece muita confiança. As mulheres não, falo da maioria das moças, desabam em qualquer canto e hora. Se estão mal de amor, choram na firma, no escritório mesmo, na fábrica, choram no trânsito, choram no metrô, simplesmente choram. Como invejo as lágrimas sinceras das fêmeas. Quantas vezes a gente não se preserva, por fraqueza, enquanto as lágrimas, em cachoeira, batem forte no peito machista e viram apenas pedras do gelo do uísque. Como invejo as mulheres que misturam sim o trabalho com o drama heavy metal da existência. Desconfio da frieza profissional, das icebergs de tailleur, que imitam os piores homens e guardam tudo para molhar o travesseiro solitário numa noite de inverno. Ora, as mulheres podem ser infinitamente poderosas, administrarem plataformas de petróleo nos mares... e chorarem um atlântico diante de uma alma perra, de uma alma cachorra, de alma vira-lata e sem cuidados, essa é a grandeza. Lindas e comoventes as mulheres que choram em público, nas ruas, nos bares, nos restaurantes, nos busões, nas malocas, no táxi. São antes de tudo umas fortes. Tristes dos que estranham ou ficam envergonhados com o mais verdadeiro dos choros. O medinho do macho diante do pênalti que vale uma vaga no torneio da dignidade. Triste dos que acham que não levam a sério, que tratam como sintomas da TPM e chiliques do gênero, que fracasso. Ora, até mesmo os choros de varejo, não importam as causas, são comoventes. Chorar engrandece. Fazer amor depois de lágrimas, então, é sentir o sal da vida sobre os olhos, romanticamente, sem medo de ser ridículo, brega, cafona, São Waldick nos proteja, amém. Coitados dos que escondem suas lágrimas Acabei de testemunhar uma dessas lindas e corajosas moças, chorava no metrô da avenida Paulista, aqui entre a Consolação e o Paraíso, as estações que nos separam. Por que chorava aquela moça? Sempre acho que todo choro é ou deveria ser por amor, que me perdoem a pobre rima antiga com a dor. Uma grande dívida nunca nos põe a chorar de verdade. Por um familiar, choramos diferente. Desemprego? Não. Se não teríamos um Tietê, um Capibaribe, um Paraíba, um São Francisco a cada segunda-feira, cada esquina, lágrimas que manchariam a tinta dos classificados e seus quadradinhos lógicos, portas na cara, quem sabe da próxima, projeto ilusões perdidas... A moça não escondia os soluços do choro. Terá discutido a relação, a velha D.R., à boca da estação Paraíso? Veste roupa de trabalho sério, e chora. Daqui a pouco estará sentada na sua cadeira de secretária, exímia, bilíngüe, a serviço da grana “que ergue e destrói coisas belas”. Teria levado um pé-na-bunda, um fora? Teria visto o casamento pelo binóculo do sr. Nelson Rodrigues? Perdoa-me por me traíres? A moça que chorava no metrô sabia que o amor é como as estações da avenida Paulista, começa no Paraíso e termina na Consolação.
Escrito por xico sá às 21h33
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TESTOSTERONA FUTEBOL CLUBE
Recentes pesquisas revelaram um dado que sempre pareceu bastante óbvio, mas precisava da aura científica para se eternizar: a quantidade de testosterona produzida por um homem fanático aumenta quando o seu time do coração é vitorioso, mesmo que seja contra o Íbis, considerado historicamente como o pior time profissional do mundo. Ora, sendo a testosterona um hormônio ligado diretamente aos estímulos sexuais, é claro que um homem de bem com o seu time será um animal pelo menos 27,6% mais desenvolto nos trapézios e bambuais do Kama-Sutra. O percentual acima representa a quantidade do hormônio produzida a mais no corpo de um homem nos dias de vitórias do seu clube. A pesquisa foi feita pela Universidade da Georgia (EUA). As mulheres devem tirar proveito desta pesquisa e aprender com os seus parceiros tudo que sempre quiseram saber sobre tiros de meta, meia ofensivos, escanteios e, queira Deus, até mesmo os mistérios da lei do impedimento _uma das coisas mais enigmáticas para as mulheres normais. Mais um dado interessante da pesquisa, aterrorizante para quem torce por times tipo "B", é o seguinte: nas seguidas derrotas, o "homo-fanaticus" perde um tanto da sua capacidade de produzir hormônios e apresenta-se inapetente para o amor ou o sexo propriamente dito. Agora, as mulheres, que jamais compreenderam o banzo sartreano dos machos derrotados no futebol, podem entender aqueles domingões tristes e monossilábicos. O pior é que não adianta nada pedir para um sujeito mudar de time e tornar-se mais vencedor. Mesmo com a promessa de 27,6% de testosterona-plus, é mais fácil um homem-que-é-homem mudar de sexo do que de clube.
Escrito por xico sá às 12h31
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HOMEM-TUPPERWARE
Minha amiga M.Y. se especializou em pegar aquele tipo de homem noturno e boêmio que não economiza nos tragos e, invariavelmente, retorna para o rancho sem condições técnicas para a conjunção carnal ou qualquer abofelamento que possa se chamar de sexo. São os melhores, ela prega: a excelência, o suprassumo, o filé em matéria de abate e diversão em tempos modernos. A este ser avulso, clandestino e simpático, que à noite ronda a cidade, batizamos de homem-tupperware. A desalmada M.Y., típica predadora do ciclo do macho perdido, nos explica a terminologia adotada no folclore baladeiro: trata-se do sujeito que a gente guarda no final da noite para comer na manhã seguinte. O homem-tupperware, ela diz, com toda a sinceridade desse mundo, é o novissimo Casanova, um monstro na cama, um demônio, desde que seja respeitado no seu intocável estado de porre. Ele desperta com a fúria dos grandes e imbatíveis amantes, relata a moça, ainda com os lábios febris a derreter o gloss da tara e do desejo. O macho desse gênero é uma dócil criatura que não dá quase trabalho, prossegue a bela afilhada de Balzac, um mulherão para 300 talheres. Segundo M.Y., esse tipinho de homem se encontra ali na faixa dos 40 ou mais, já foi casado ou se trata de um solteiro convicto e não vai grudar na barra da sua saia como faria um imaturo homem mais jovem. O sujeito que se guarda como a um bom fiambre no tupperware, reforça a amiga, é um homem quase perfeito: apaga assim que deita na cama, portanto não corre o risco de desfiar besteiras ou tecer falsas promessas. É praticamente um homem sem mentiras, o que se torna um épico em se tratando da raça, diz M.Y., com mais uma demão nas suas peculiares tintas do exagero. A criatura do gênero nem sempre percebe a sua condição de presa guardada para o abate matinal. A não ser os profissionais do ramo, figuras menos machistas que flanam pela noite com o desapego e o lirismo de um poeta do século XIX. Estes adoram e ainda fazem sonetos, com odes ao acaso, enquanto a predadora ingere sua inocente tigelinha de iogurte com cereais. Para M.Y., é bom que se frise, pouco importa se o tal sujeito tem pendores românticos ou não passa de um tosco que usa apenas 10 por cento da cabeça animal. O que vale é a serventia da presa, ri a desgraçada, enquanto mapeia a geografia boêmia para os próximos ataques como um tubarão recifense que mira as canelas dos surfistas mais cevadinhos de Boa Viagem. Sim, a amiga especialista reconhece: com a lei seca no volante diminuiu um pouquinho, um pouquinho de nada mesmo, o número de homem-tupperware dando sopa nos bares e botecos. Esse tipo de macho, além de prevenido, tem uma confiança danada no próprio taco –já sai de casa dando como certa a carona do bonde chamado desejo.
Escrito por xico sá às 22h19
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COMO ELIMINAR O AMANTE -SEM GASTAR UMA BALA DA AGULHA
O leitor aflito me escreve. Quer ajuda, conselhos, alguma filosofia de consolação, ombro, ouvidos... Invoco a Miss Corações Solitários que costuma fazer morada nesta pobre caveira envelhecida em barris de bálsamo. Não posso deixá-lo a mascar o jiló do abandono. Está desconsolado, como o Sizenando de Rubem Braga, que viu a amada cair nos braços de um playboy. Um idiota que não sabia sequer uma palavra de esperanto. A vida é triste, Sizenando, como soprou-lhe o cronista. Com Amaro, chamemos assim o nosso ensaio de Bentinho, não foi diferente. Quis o destino parafusar-lhe objetos pontiagudos à testa, como diria o amigo Marçal Aquino. Sim, ela tem um amante. Daqueles amantes que se encontram à tarde, num intervalo qualquer, no recreio da vida chata. Nem foi preciso contratar o detive particular, conta-me o nosso Amaro. Ele mesmo fez as vezes de cão farejador de sua própria desgraça. Que fazer?, indaga, num email no qual até a arroba bóia em poças de lágrimas. Mato o desgraçado? Tiro a vida da desalmada? Vou-me embora pra Tegucigalpa? Salto mortal da ponte Buarque de Macedo? Um trágico, esse rapaz. Como os de antigamente. Amaro é do tempo em que os homens coravam. Ainda tenho vergonha na cara, envaidece-se o próprio. Sossega, Amaro. O melhor que fazes, respondi ao marido em fúria, é sumir por uns dias, inventar uma viagem, e dar todo tempo do mundo ao infeliz desse amante. Banalizar o amante, meu caro e bom Amaro. Entendeste? Deixar que eles durmam e acordem juntos. Que tenham seus problemas, que percam o luxo dos encontros fortuitos e vespertinos, que se esbaldem. É necessário deixar a Bovary sentir o bafo matinal da rotina. A vida dos amantes dura porque eles só vivem as surpresas e valorizam cada minuto do relógio que põem sobre a cabeceira daquele motel barato. Nada mais cruel para o amante da tua mulher que presenteá-lo com o pão-com-manteiga do dia-a-dia. A rotina é o cavalo de tróia do amor. Amaro, nada de violência ou besteiras desse naipe. Ao amante, todas as chances do mundo. Ao amante aquela D.R., a famosa discussão de relação, em plena TPM. Um amante nunca sabe o que venha ser uma mulher sob o domínio da TPM. Ela faz questão de reservar todos os direitos desse ciclo ao pobre marido. Ao amante, Amaro, a tapioca fria e sem recheio da rotina do calendário. Ao amante, Amaro, a falta de assunto. Ao amante, os cabelos revoltos da mulher, naqueles dias em que nem mesmo ela se agüenta ou encara o espelho. Naqueles dias em que os cabelos brigam com as leis do cosmo e não há pente ou diabo que dê jeito. Ao amante tudo, Amaro, depois me conta se deu certo ou não. Eu aposto.
Escrito por xico sá às 01h13
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CÃO DE GUARDA DO SONO DA AMADA
“Amar, além de muitas outras coisas, quer dizer deleitar-se na contemplação e na observação da pessoa amada”, sopra o velho escritor Alberto Moravia, sempre aqui na cabeceira.Uma das melhores coisas da vida é observar a pessoa amada que dorme,entregue, para além dos pesadelos diários. Como bem disse Antônio Maria, o grande cronista que aparece com ciúmes até da própria sombra no livro da Danuza , um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta. Experimente você também, sensível leitora, vê o seu homem quando dorme. Há uma beleza nessa vigília que os tempos corridos de hoje não percebem. Amar é... vê-lo(a) dormindo. Cada mexidinha, cada gesto. O que sonha nesse exato momento? Tomara que seja comigo, você pensa, pois o amor também é egoísmo. Gaste pelo menos meia hora por semana nesse privilegiado observatório. Psiuuuuu! Ela dorme. Mãozinha no ar, como se apanhasse pássaros, que coisa mais linda. Uns 23 minutos assim, mirei no rádio-relógio. A mão desce ao colchão, quase dormente, formigamentos. Coça o nariz. Põe a mãozinha direita entre as coxas. Agora vira de lado, como os antigos LPs quando gastavam as seis músicas do A. E me abraça como nunca fosse partir, corpos viciados, almas em busca de um acerto. Dorme, meu anjo. Ela obedece. Vigio o sono dela como um soldado zapatista. Como um cão zela o sangue do dono. Como se fosse um homem-exército e pronto. Amar, no início era o verbo intransitivo da alemã professora de amor de Mario de Andrade. O idílio tem sobrevida, não como gênero, mas como vício, vício de amar. Amar de muito. A mão desce agora sobre o meu peito, como se medisse meus batimentos. A mão direita volta para a arte de apanhar pássaros, que beleza, que diabos! O ideal é que você, amiga leitora, durma do lado esquerdo da cama, o do coração, sempre. Mãozinha no ar catando pássaros. Até se acalmar de vez. Calmaria danada de horas, sem coreografias ou narrativas. Sonha, sonha, sonha, minha menina. Como é lindo a vigília ao sono dela. Coça o nariz. Sussurra umas onomatopeiazinhas lindas de sonhos de besouros. Ela arruma os cabelos como algas, entorpeço num mergulho. Observar o sono do(a) amado(a) é a melhor maneira de mapear a sua beleza. É a melhor maneira de conhecer o homem ou a mulher com quem dormimos. E como são lindas aquelas marquinhas deixadas pelos lençóis no corpo dela. Um mapa de delírios! Melhor é lê-las como quem adivinha os sonhos e o futuro no fundo da xícara árabe ou nas cartas.
Escrito por xico sá às 16h22
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