DO PLONGÉ E DO CONTRA-PLONGÉ DO AMOR
[texto antigo resgatado do fundo do pote atendendo a comovente pedido de uma gazela que veio de longe]
Nada como aquela olhadinha que ela dá quando lá embaixo. Ainda e pra sempre, da série “detalhes tão pequenos de nós dois”. A vida se resume a observar, microscópio de eros, rei roberto e nelson, a mulher e o seu drama.
Nada como aquela olhadela, sobrancelhas assanhadas, mirando lá de nossos países baixos cá para cima do nosso cocuruto alumbrado.
Tão lindamente sacana, ah, que nega a minha nega, derreto-me como manteiga no último tango!
Ela quer saber se estou gostando, claro que estou mortinho ali no pré-gozo. Tem um orgulho, “vê como faço bem feito e com gosto”, ali naquela olhadinha plongé, contra-plongé, depende de quem vê.
Escrito por xico sá às 01h45
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FEIA QUE É UMA BELEZA OU TANTO FAZ, REINALDO MORAES
Peça em ato único e moto-contínuo em e sobre São Paulo. Três personagens se revezam toda-vida, mudando de sexo e de ofício. O homem do tempo, a mulher do trânsito e o tiozinho cético, que se transformam, sem explicação alguma no decorrer do período, no tiozinho místico, no travesti cínico e na taxista dos infernos ou no que der na cabeça –é teatro, amigo Bertolt, mira o distanciamento, se vira e não enche! Ao final, um rodízio-perpétuo e geral de sexo, função, Serafim Ponte Grande, droga, birita, Miramar ao longe, credo, raça, posição social, classe!
Homem do tempo: que louco, meu!!!, o tempo virou de vez!
Mulher do trânsito (com um indisfarçável orgulho do progresso, da modernidade e da riqueza): Quatro horas presa na marginal... e sabe de uma coisa, nunca vi a agência render tanto: fizemos uma baita conferência criativa via Messenger!*
Tiozinho cético (Cara de tarado-mor da existência, olha uma bela bunda de secretária bilíngüe na Paulista, hora do almoço, e esquece o tempo e o trânsito.. Não diz nada a essa altura da jornada, só estica levemente com a pica o tergal da calça de alfaiate das antigas).
Homem do tempo: Saí de casa no mó sol, agora essa garoa, que louco, meu!... Sabe qual a previsão para amanhã, amigo?
Mulher do trânsito: tem que implantar rodízio, como em Londres, coisa de Primeiro Mundo, o Kassab está certo, e tirar essas latas-velhas das ruas. Circula quem pode e fica em casa todo e qualquer loser que só dá prejuízo ao universo.
Tiozinho cético (enquanto olha outro lindo e poético rabo, agora de sestrosa balconista do centro): Toda fêmea sobre quatro rodas perde o melhor da lição anatômica: as duas bundas, é como se viessem ao mundo só dos peitos para cima -se bem que o tarado do ônibus pode ver umas belas coxas! Corta!
(CONTINUA...)
Escrito por xico sá às 02h10
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CHIFRE DE LEITE
Chifre de leite?
Sim, amigos, aquele chifre, qual o dente, que vem quase do berço, cresce, mas não representa muita vida longa, molinho, chega a sua hora e a gente arranca, quase como um chifre consentido, quase de nascença, quase.
Mas não é bem isso, é quase, como disse. Discorreremos sobre o danado.
Pense, como diria aquela estátua de Rodin, pense!
Chifre de leite é o mínimo que levamos na vida. Pior é que tem machão que mal agüenta essa “gaia ciência” inevitável, que homem é esse que não segura a onda do que já destino era?
Chifre de leite já existe faz tempo, mas quem cunhou a expressão foi o amigo Pupilo, nome de batismo Romário, Romário Menezes, batera da Nação Zumbi, a maior banda da terra.
Estávamos ali numa ressaca miserável em São Paulo, à espera de uma gravação da TV Cultura, Studio SP, tarde cervejosa de sexta, quando o mago salta com essa conversinha safada.
Pense, considere!
Donde chifre-de-leite, agora com hífen e tudo, vê a responsa no glossário, significa aquele chifre que a gente mal nota.
Como aquele dente molinho que se arranca no dedo e se joga em cima das telhas, com um dizer de antigamente, quase uma prece obrigatória:
“Mourão, mourão!/ Pegue esse dente podre/ e me dá outro são."
Chifre de leite é destino.
Chifre que dói mesmo é chifre de ciso, aquele que vem depois, na madureza da cornualha da existência.
Chifre de leite, como prenunciou o mago, é chifre de menino, ora.
Quase chifre de anjo, chifre inevitável.
Nem dá pra chamar de traído. Porque o pior é o chamado, o resto são inconfidências. O grito, ouviram lá do Ipiranga, ouviram lá de todas as galáxias, ouviram lá da Bomba do Hemetério, Recife, ouviram lá da gruta de Ubajara, ouviram lá de Ouricuri, Pernambuco, ouviram lá do Mucuripe, Varjota, Santana, Crato, Fortaleza, ouviram lá da Afonso Pena, ouviram lá da Gameleira, Nova Barroca, da Cabana do Pai Tomaz... Ouviram lá do Rio de Janeiro, terra de chifre-de-leite por excelência, ouviram às fronhas plácidas e dormiram sem sangrar ninguém, mas que beleza!
Amigos, em persistindo dúvidas sobre esse molarzinho besta de testa, o tal chifre-de-leite, é só consultar o maior especialista nessa causa, o doutor Halley-Bó, ele arranca pelo método mais indolor. Ainda implanta outro de graça no infeliz, se assim desejo for.
Eu vou nessa, que não cabe mais nada aqui na fronte cansada do artista!
Escrito por xico sá às 15h13
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DE TODAS AS GLÂNDULAS AMOROSAS
“A mulher amada/ quando mija/ é so refresquinho/ de graviola” [Marcelo Mário de Melo]
tudo é lindo na mulher amada, melhor ainda os cheiros fortes, fedores e sujeirinhas da mulher amada, o suorzinho das axilas da mulher amada, quase uma bucetinha a mais as axilas da mulher amada, meu deus, lá está a danada, sob o solzão veranico se derrete a mulher amada, todas as glândulas e buracos d´alma, tão minha e tão íntima, saló, saló, o suorzinho de todas as juntas e dobradiças, ali debaixo do joelho, eu quero, e quando a perna dobra, o salzinho sobre ozolhos quando a gente beija, o pescocinho suado, lindamente grudento, por favor, amigos do comércio, não vendam desodorantes à mulher amada, não vendam arcondicionados, não refresquem a costela amada, tudo é perfume francês na mulher amada, o mijo é licorzinho dos deuses, sob o céu que nos protege, golden shower que traz bonança, sustança, chega meu rosto sertões-vereda refloresce, os pássaros cantam na caixa torácica, derrama, derrama, derrama, amor da porra a descer pela perna esquerda, da mulher amada, lambuzamentos que encobrem as feridas doutrora, tudo lindo a escorrer, farejo todos os cheiros da danada, o olho do cuzinho, velho bataille, é lirismo só, rapaz, exala o sentido da vida e mais um pouco, resume o mundo, guarda os segredos dela inteira, mulher é metonímia, cada partezinha uma giganta de baudelaire, ali, sim, no cuzinho, again, está o silêncio mais lindo da mulher amada, donde tudo é lindo, tudo é sorte, tudo delírio, o cuzinho em flor da mulher amada, coxas, o pezinho sujo nas havaianas, poeira das ruas, marcas, cerimônia do lava-pés da mulher amada, lambendo os dedinhos, descoberta dos segredos dos seus passos, direito de ir e vir entre seus rins, como na canção, assim assim como na vida, agora o cheiro da phoda por toda a casa, a atrair os pássaros lá de fora, que encontram os pássaros da caixa torácica, que, como a capa da música do Rei, assistem a tudo e não dizem nada, tudo é lindo e belamente dramático no sexo, mecânica da carne que se enrosca, paudurescência ad infinitum, o amor é mesmo o viagra do espírito.
Escrito por xico sá às 11h53
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