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TEATRO, TU ÉS PURO TEATRO
D´onde tratamos do ator intenso, da atriz intensa, intensíssima. Do tipo que diz, durante o nhoque-permuta no restaurante, depois de mais um Rei Lear: “Eu respiro teatro”. Ao avistar um conhecido, alardeia, quebrando o sossego do recinto: “Ah, você ainda não foi me ver?!” O ator/atriz intensos não acreditam que uma só criatura possa deixar de vê-los em cena, embora a bilheteria muitas vezes teime em desapontá-los. Como ousam deixar de nos ver? Como irão passar sem aquela montagem imperdível de um Eurípedes, de um Ibsen, de um Tchecov, de um Shakespeare?...
Clássico é clássico e vice-versa
É, o artista intenso, esse animal dramático por excelência, não se envolve com qualquer comediazinha caça-níquel da praça. Nécaras. Para este tipo de gênio, só vale uma lei: “Clássico é clássico e vice-versa”, como na boutade ludopédica do atacante Jardel. O ator/atriz intensos guardam sempre um ar solene, um conteúdo na linha “vidas passadas”. São sempre uns elisabetanos do século XV, estão sempre em Corinto, há milhões de anos atrás, vivem sempre na Grécia, zilhões de séculos a.C. –antes da “Caras”.
A fêmea trágica e intensa
A atriz intensa costuma ser mais intensa ainda que o ator intenso. Queda que as fêmeas têm para a tragédia, especula-se. Em compensação, o macho-dramaticus é mais histérico na sua intensidade. Tudo o perturba, desconcentra –principalmente o ronco emitido pelo convidado VIP que sofre de apnéia na primeira fila. O macho é mais estressadinho, cheio de nove-horas e não-me-toques. Carrega essa tensão para o palco mesmo quando na pele de um patafisico Ubu Rei. É incapaz de compreender o paradoxo do comediante, como debocharia o camarada Diderot.
O macho intenso e a estética do cachecol
O macho enquanto ator intenso vive de cachecol em todos os lugares por anda. Sempre com o pescoço envolto por aquela estranha rodilha. E, reparem, ele sempre está ajustando o cachecol ao gogó, impaciente e bufando queixas contra os seus semelhantes mais intensos ainda, contra o público despreparado para a sua grande arte, contra a política de incentivos fiscais, contra o sucesso fácil dos outros...
Dramaturgia sem botox
A fêmea intensa, com suas encantadoras olheiras, veste-se muito bem. Com um rápido pendor para o gótico simplificado, além dos adereços, anéis e brincos, agressivos no ponto certo. Jamais fará botox, para não matar a crueldade da Medéia que mora nos arredores dos seus olhos.
100% Hamlet
Todos os atores intensos e de cachecol querem mesmo é ser Hamlet. Assim como as fêmeas na pele de atrizes intensas serão todas intensíssimas Medéias.
Mas como não tem vaga de Hamlet ou de Medéias para todo mundo, certamente muitos acabarão na novela das 8, quando estarão muito mais simpáticos e trocarão, finalmente, o “conteúdo vidas passadas” por belas cenas de merchandising –todas sob rigorosa marcação brechtiana. Bravos, bravíssimos! Melhor que o Irajá... E com a vantagem de trocar a porca miséria do obrigatório jantar-permuta na cantina decadente por um Gero, um Carlota, um noite à champanhota no Spot...
Desce o pano!
Escrito por xico sá às 15h12
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PARA BEIJAR A LONA DO AMOR E DA SORTE
-Só não vou te perguntar se vens sempre aqui porque a casa inaugurou hoje.
Acreditem, com esta abordagem lindamente ingênua, uma rápida e metalinguística variação do infrutífero clichechão “vens sempre aqui?”, mr. Abelha, um amigo que flana na noite de SP, despertou na gazela um daqueles sorrisos que muitos bacanas só conseguem em troca de um diamante, um presente da Tyffani´s ou 12 trabalhos de Hércules.
Mr. Abelha não tem bala na agulha para bancar uma bonequinha de luxo, também não é um típico “maníaco do trechinho”, como chamamos aqueles supostos intelectuais que disparam duzentas citações e frases de efeito por minuto. Ele tem apenas a manha de fazer sorrir a mais existencialista das afilhadas de Jean-Paul Sartre. E isso é o que conta no primeiro momento, seja qual for o estilo do cavalheiro.
Se o camarada não for lá, digamos assim, um gato, vai carecer ainda mais do poder da simpatia e do algo mais. Sim, um mal-diagramado, caso deste cronista que vos aborda, sabe muito bem que a sua luta é quase sempre por pontos, ali na corda do discurso amoroso, minando a resistência da moça no ringue mais lírico, riso a riso, drinque a drinque, gesto a gesto.
O contrário do bonitão, do galã, sempre confiante, pois está acostumado a vencer por nocaute –embora muitíssimas vezes quebre a cara e volte para casa mascando o jiló do desprezo.
Sim, os desprovidos, como se diz, da beleza padrão, carecem ganhar sempre por pontos; os bonitões guardam na caixa torácica a soberba do triunfo por nocaute.
O melhor de tudo, para sorte nossa, é que a beleza é passageira e a feiúra só acaba no túmulo, como dizia o doce canalha fancês Serge Gainsbourg. Com essa conversinha mole, e muito charme, óbvio, o autor da clássica "Je t'aime moi non plus", a chanson mais tocada nos motéis do mundo inteiro, teve belas e quentíssimas histórias de amor com Jane Birkin e Brigitte Bardot, entre outras tantas fraquinhas da época.
Para fechar o boteco, duas dicas de livros que caem bem como saideira e post scriptum dessa crônica: “Por um punhado de Gitanes” (ed.Barracuda), biografia de Gainsbourg escrita pela jornalista inglesa Sylvie Simmons, e “Por um bife e outras histórias de boxeadores” (ed. Artes & Ofícios), do velho lobo da selva Jack London. Beijo para quem é de beijo, abraço para quem é de abraço, e até a próxima.
Escrito por xico sá às 16h01
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TURNÊ DOS CABALLEROS CHEGA A VITÓRIA
NESTA TERÇA, 30/09, LANÇO AQUI EM VITÓRIA DO GLORIOSO ESPIRITO SANTO, ÀS 19H30, O LIVRO "CABALLEROS SOLITÁRIOS RUMO AO SOL POENTE''. É COM MUCHO PRAZER QUE ABRO O PROJETO (HOMEM-PROJETO CES'T MOI!) "A LETRA DO AUTOR'', UMA INICIATIVA DE ELIANA JALLES E MÁRCIA DOMINGUES. ANTES DOS AUTÓGRAFOS, UM BATE-PAPO COM OS ESCRITORES CAÊ GUIMARAES E MARA CORADELLO. VAMOS FALAR DE JORNALISMO, LITERATURA E AS DUAS COISAS JUNTAS. TUDO LA NO CENTRO CULTURAL MAJESTIC. ESPERO OS AMIGOS PARA O BANQUETE. INTE LÁ, BESOS.
Escrito por xico sá às 21h11
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PÍLULAS CONTRA A DISFUNÇÃO CEREBRAL
Alvíssaras, camaradas, as famosas pílulas contra a disfunção erétil agora têm a sua versão para os membros superiores. Espécie de Viagra para o intelecto, velho sonho de blefadores cansados, intelectuais gastos pelo tempo e inseguros de todos os naipes. Esqueceu, no calor de uma contenda retórica, aquela frase fatal para um jab no adversário? Seus problemas acabaram. Com as novas e milagrosas pílulas erísticas, tudo que menos precisas para levar o inimigo à lona é do oxigênio da razão.
Ih, esqueceste a autoria daquela frase lapidar no momento de uma cantada genial na futura patroa? Eis outro problema superado. Uma só cápsula meia hora antes do encontro e estará com o dicionário Ronai de citações na ponta da língua. Mais de mil frases, de Adão, o picareta-matriz, a Zelig (Woody Allen), que, aliás, virou Zelig por ter blefado um dia sobre a leitura de Moby Dick. Sabe dizer que leu um livro sem nunca ter passado da sua orelha?
As mulheres que apreciam homens inteligentes e de repertório afortunado não têm mais do que se queixar. Chega de banquetes que não levam a nada. Com as pílulas azuladas dos membros superiores, o amor platônico, como diz o poeta, acabará sempre com uma transa homérica.
Adeus disfunção dos neurônios. Chega de gaguejar e puxar pela memória em público. Tome agora mesmo as pílulas azuladas contra a disfunção erística e seja um flaneur à moda de Paris século XIX. Brilhe nos salões e mesas como um Baudelaire enfeitiçado pelo melhor dos ópios –mesmo que você não passe de um cachaceiro feio sujo e malvado.
Exiba desavergonhadamente o seu arco e sua lira, tome agora mesmo as pílulas contra a disfunção dos membros superiores e ande de cabeça erguida. Não passe ridículo, as gazelas, mesmo as mais antigas –as que ainda acreditam no Regulador Xavier- estão cada vez mais exigentes, metidas, cansaram de ser loiras e todas agora lêem, mesmo com o atraso das idéias e das regras, Simone de Beauvoir.
Ninguém me ama, ninguém me quer? Tome agora mesmo as pílulas milagrosas e todas te chamarão de “meu Baudelaire”.
Escrito por xico sá às 19h59
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