SOBRE HOMENS & BUSÕES
Amigos e amigas, vai saber lá o porquê das somas completas dos inconscientes, mas num encontro outro dia com Fred 04, no clube Clash, em São Paulo, falamos de tudo, principalmente da importância ou da desimportância do ônibus, o velho busao, o busão-blues de todas as esperas e bacuraus perdidos madrugas adentro.
Até criamos, na utopia mais avexada, um movimento cuja milhagem é a narrativa, o homem e a mulher em pé na parada. Pense. Tem gente que gamou, casou e fez filhos a partir dessa hora, né? Mãozinhas dadas no mesmo assento, zolhinhos gastos com a mesma paisagem a caminho de casa, ela descendo e a gente, cavalheiros no último, beijando a mão e a recebendo na rua, PRINCESA de todos os meios-fios e calçamentos!
Só vale na vida o que se conta de pé, o resto é alcova e fuleragem... Fuleragem enquanto vingança do Nordeste, o melhor dos mundos, a nossa sabedoria particular de rir no nirvana ou na desgraça, a nossa linda lição de existência tão grande quanto a sabedoria de Nietszche.
Pense numa peleja, pense num clássico da filosofia a perder a neve ou a miragem de Canindé de vista.
O que dizer, que balãozinho sobre nossas cabeças de eternos gibis e quadrinhos?!
O que se diz nessa hora, amigo?
Já passou o CDU/Várzea?
E o Radial/CDU? Donde CDU vem a ser Cidade Universitária, sigla e destino da minha amada e querida CEU, a residência da UFPE, donde habitei o quarto 101 com meus amigos de Carpina e outras zonas de matas e sertões afora.
A gente lá de pé cubando o movimento.
Pense num suspense.
Nada mais hitcockiano do que um ônibus dobrando uma esquina.
Pense numa espera!
Às vezes deitado e bêbado no cimento do Bar Savoy, sem um centavo no bolso e com o azul desbotado sem poder sequer apertar a mão do poeta Carlos Pena Filho, o maior simbolista brasileiro de todos os tempos, que já havia partido desta noutra linha da mão e da vida.
Sorte era a generosidade 24 horas de Jaci Bezerra, Tarcísio 7 e Alberto da Cunha Melo, que me tiravam da fome e ainda me davam o delírio da poesia e da comida.
Jaci, 7 e Alberto, além de grandes por si mesmos, vixe, são os T.S. Eliots, melhor, são os Walt Whitmans do meu estômago quente na chegada ao Hellcife, linha Crato via Princesa do Agreste, salve salve, Deus inapalpável, estes homens de carne, amor e osso.
Estes, entre outros, me revelaram a certeza do poema como sustância da humanidade.
Assim aprendi sobre poesia e homens, mas, como eu ia falando, ja passou o CDU/Várzea?
Pense numa espera de madrugas tantas. Pense até o pescoço entortar, pense enquanto passa boi, passa boiada e nada pra Caxangá, miséria humana, vida de gado, e quando dobrava da Madalena rumo ao Cordeiro o cheiro de galeto a me encher de fome de tudo, como reza a poética de Jorge du Peixe, meu ídolo.
CDU/Várzea, o destino, era o que este cronista, eterno pedestre, graças a Deus, indagava, ali dormindo no batente do cimento frio do bar Savoy, avenida Guararapes, Recife, anos um, nove, oito, zero, 1.980.
Uma forma de contar a vida e a possível luta de classes por intermédio das histórias aquém e além da catraca. Passa boi, passa boiada...
Escrito por xico sá às 19h25
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MODINHAS DE FÊMEA
Vocês viram qual a nova modinha entre as mulheres espanholas? Uma romaria de madrilenas corre aos consultórios especializados para recuperar a virgindade perdida. É a chamada himenoplastia. Pá-pum. Uma cirurgia rapidíssima e lá esta a Iracema, com seus lábios de mel, como veio ao mundo, virgem, virgem. Só dói no bolso: custa uma bagatela de 2 mil euros.
A loucura é tanta que as prostitutas já enxergaram na técnica uma mina de pessetas. Deu no "El País": "M., prostituta de 25 anos, passou oito vezes pelo consultório para comprar sua inocência fictícia. Oito homens pagaram 6 mil euros cada um para ser o primeiro. Ela ganhou 48 mil. A cirurgiã que a operou conta que existem ofertas de virgens, leilões realizados em despedidas de solteiro nas quais o melhor licitante deflora a garota".
Mas esse é um caso raro, relata a reportagem. O mais comum são muçulmanas e ciganas, entre 20 e 25 anos, prestes a se casar, com medo que seus maridos as abandonem ou castiguem por causa dos seus passados. Isso é que é machismo, não aquelas besteirinhas que vocês sempre reclamam, pois pois!
Escrito por xico sá às 04h47
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COM OU SEM FUNDO DE GARANTIA
-O que dói mais, amigo, uma demissão ou um pé-na-bunda?
Reflita comigo!
O pé-na-bunda não tem sequer fundo de garantia, você diria; uma demissão põe em risco a integridade, o padrão de vida, a auto-estima, argumentaria o advogado mais ligado às coisas materiais. E por ai segue a peleja, o debate.
De tantos congas, bambas, kichutes e chiques sandalinhas pradas no traseiro, havia me feito a tal pergunta em um libreto, do gênero idílio, que escrevi com o nome de "Um cão-vadio aos pés de uma mulher-abismo" (editora fina flor, SP,2003).
Agora quem trata com mais fineza e competência o mesmo mote universalíssimo, em uma matéria da revista da Livraria da Vila, é o amigo Marcelo Rubens Paiva, que acaba de publicar um ótimo livro sobre o tema, mira só o belíssimo nome do volume, chica:"A Segunda Vez que Te conheci" (ed.Objetiva).
-O que mais afeta um homem? Perder o emprego ou perder a mulher? -indagou a repórter.
Marcelo, cabra bueno, disse: "É um páreo duro, mas acho que é perder a mulher. O homem pensa que o que afeta mais é perder o emprego; mas ele se corrói mais por dentro, com a tristeza e a frustração de ter o casamento terminado, de perder a esperança no casamento. Porque todo mundo acha que o casamento é para sempre, que vai envelhecer com a pessoa, ter filhos, netos, casa na praia e que será uma parceria eterna, no entanto se descobre que não e não será assim, a tristeza é mais corrosiva. Perder o emprego é uma coisa chata, mas depois de arruma outro."
Ora, quando escrevi meu livrinho que tratava liricamente sobre o tema, ainda tinha a última das minhas azuladas carteiras assinadas e não vivíamos a clandestinidade de hoje, quando voltamos, em termos de conquistas aos anos pré-Getúlio, mas o que fazer, velho Lênin, se o pé na bunda é o de sempre desde Cleópatra?
Donde fecho com o Paiva: perder a mulher é sempre um "sifu" a mais, para resgatar um termo que falamos nas ruas desde os anos 70, termo popularíssimo, o mesmo que causou estranheza dos puritianos da moral e dos bons costumes ao ser pronunciado por sua Excelência o Presidente da República.
Um pé-na-bunda para um homem, amigo, mesmo quando fazemos por onde, mesmo quando a causa já é perdida, é um inferno. Eita irrecuperável ego de macho!
Sim, Paiva, o amor acaba, como na mais linda crônica sobre o assunto de todos os tempos, aquela homônima de Paulo Mendes Campos, que vamos morrer repetindo, amando e correndo, com todos os gerúndios, para os braços da próxima que nos vai carimbar o traseiro de novo: "O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado..."
Escrito por xico sá às 21h15
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