A ROSA AMALDIÇOADA DO REI ROBERTO
-Depois que peguei aquela rosa no show do Roberto -ela disse, já de pé, indo ao banheiro.
Era uma desconhecida, mas daquele tipo de mulher que nos dá a impressão de ter passado uma vida inteira ao nosso lado.
-Só pode ser maldição da rosa do Roberto -a senhorita ainda anônima volta do WC resmungando. -Só pode!
Por causa da zoada no botequim, ela fala aos berros no meu ouvido esquerdo:
-Eu sou de se jogar fora?, me diga, amigo!
-Não, de forma alguma, muito pelo contrario - respondo, sem carecer mentir, o que é raro nesse gênero de interpelação avulsa.
Não é de se jogar fora mesmo.
Tem covinha no sorriso. Resistir quem há de?
-Pois acredite, moço, desde o dia em que peguei a maldita rosa do Rei a vida tem sido um desmantelo só -ela conta, buscando fôlego lá no escondidinho d´alma penada.
Escuto pacientemente como um ouvidor-geral da boemia e da noite, um paciente ombudsman das criaturas que vagam sem rumo e de tantos outros barcos bêbados da madruga.
-A vida ficou mais feia que virada de Kombi, amigo! -ela ri, escondendo o sorriso com a mão esquerda, a do lado do coração, por uns instantes. -Rio para não chorar, se é que você me entende.
Não me chama de amigo à toa. Desde que arrastou a cadeira e pediu licença para sentar na mesa, parecia que éramos velhos conhecidos. Daqueles de chorar no ombro e tudo.
Entendo, amiga.
Pegou a danada da rosa em um show do Rei no ginásio Geraldão, no Recife, há um punhado de anos, no dia do seu vigésimo quinto aniversário, um quarto de século de convívio com a humanidade.
-Ainda na mesma semana do concerto perdi meu marido -ela desfia a tragédia. -Tudo bem que não era lá essas coisas, a bem dizer era um traste, mercadoria sem nota.
-Quer beber alguma coisa quente? -indago, todo-ouvidos para a sua história verdadeira.
Certo tipo de história forte não combinava nada com as espumas flutuantes da cerveja.
-Garçom, por favor, um campari, copo longo, muito gelo.
-Como eu ia dizendo ao senhor...
-O senhor está no céu, por favor, me trate por você mesmo -interrompi, típica freada de velho contra as palavras que nos trazem mais rugas no vento.
-Como estava contando, amigo...
-Garçom, vê também um uísque, o de sempre.
-Como estava contando, amigo, perdi o desalmado do homem que dormia comigo, mas tudo bem, até contei como uma ajuda da sorte - ela zomba mais uma vez da própria desgraça. -O miserável da costela-oca me pegou sorrindo para o cachorro do cambista (do jogo do bicho) e achou que a gente estava de amancebo, vê se pode uma calúnia dessas?
Depois de mais um rosário de infortúnios amorosos e uns quatro camparis no juízo, ela continua com a saga da rosa amaldiçoada do Rei Roberto:
-Ele (Roberto) não é todo cheio de manias, só veste azul e branco, todo supersticioso, pois passou todo azar desse mundo para aquela rosa, descarregou geral o mal-assombro -- insiste. -Eu logo vi, eu que nunca tive sorte em nada, nunca peguei um bouquet de noiva, e vem aquela rosa vermelha, linda, fresquinha, e cai direto no meu colo?!
E assim vimos o sol raiar iluminando aquele copázio vermelho de Marinês em uma esquina da rua Augusta. Marinês, sim, era o nome da moça da rosa. Acabara de chegar a São Paulo, vinda de Juazeiro do Norte, para onde mudou-se do Recife, e onde igualmente nunca mais teve sorte com homem. Para não dizer que nunca mais atraiu costelas, mesmo com os seus olhos de onça e o sorriso em covas, recebeu um tempestuoso pedido de casamento na rodoviária de Teófilo Otoni, de um cigano negociante de pedras preciosas.
-Quando a gente está apagadinha para a vida, nem uma mina inteira de diamante nos ilumina -disse ela, lágrimas derramando no campari.
Escrito por xico sá às 21h15
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