FAZ DE CONTA QUE SOU O PRIMEIRO
[Texto republicado orgulhosamente para celebrar o retorno de um dos maiores garçons do planeta -Ailton do Filial- à noite de San Pablo].
Ailton não é apenas um bom garçom. É especial. Criatura abençoada. Especialíssimo. Do tipo que cria laços de estima e consideração com os fregueses. Do tipo que ouve, aconselha, amansa os traídos, acalma as mulheres de bêbados infiéis, bota ordem na casa, devolve uma certa paz ao universo. Melhor ainda, Ailton é do tempo em que garçom sempre sabia o resultado do futebol. Do tempo em que torresmo não fazia mal, do tempo em os homens não tinham medo da sorte nem do colesterol. Toda essa “sabença”, como ele trata a soma de sabedoria com experiência, é servida de bandeja à freguesia. No boteco, ele é tudo ao mesmo tempo: sócio-proprietário, caixa, segurança e DJ _e só toca vinilzão, LP de samba antigo. Adora João Nogueira. “Oh, minha romântica senhora tentação/ não deixes que eu venha sucumbir/ neste vendaval de paixão”. Essa toca até furar o disco. Principalmente quando tem alguém chorando as pitangas amorosas. Entre tantas serventias, esse negócio de amor e dor é com ele mesmo. É mestre, rima e solução da parada. Eu mesmo já fui perdidas vezes consolado pelo cara. Dor de corno, daquelas que não passam com cachaça ou aspirina, é com ele mesmo. Vai no ponto, na veia, um neurocirurgião do amor. Primeiro o afago, a compreensão e o ouvido ao alcance do freguês. No fundo musical, põe logo o long-play com “Peito Vazio”, de Cartola _``Procuro afogar no álcool a tua lembrança/ mas noto que é ridícula a minha vingança...” Dois, três conselhos depois a gente está pronto para outra, digo, outro chifre. Numa dessas sessões “macho em crise”, Ailton me deu uma dica genial. Notou, sensível que é, a minha dificuldade em descolar uma nova costela, uma nova deusa para enfeitar o meu pobre lar doce lar em desalinho. Uma dica importantíssima. Simples, simples de tudo, até boba, mas de uma sabedoria e tanto. Uma beleza de estratégia. “Seguinte, meu amigo, chega de saudade... Senta aqui, nessa primeira cadeira do boteco, que a vida vai sorrir pra ti”, disse, arrumando uma mesa bem na calçada, quase na rua, quase no esgoto, de frente para o crime. Sem deixar a bola cair, emendou: “Ora, compadre, todo dia tem uma mulher que sai para o bar, revoltada, muito revoltada, e diz para ela mesma: ´Hoje eu vou dar pro primeiro que encontrar pela frente!” Desde então procuro sempre ser esse `primeiro´ homem estrategicamente bem localizado que pode tirar proveito, com toda delicadeza desse mundo, da fúria justa e caseira de uma mulher.
Escrito por xico sá às 19h20
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POR POUCO MUITO POUCO POUCO MESMO
Aprendi e viciei-me, pura influência e obra e graça de Gilberto Freyre, que me dava conselhos, pitacos de varejo e porres de licor de pitanga no quintal de Santo Antônio de Apipucos, Hellcife, em ler exaustivamente os anúncios classificados dos jornais. Os eróticos, então, são uma fonte inesgotável de sabedoria e novas crônicas de costume. Depois do adjetivo “indecepcionável”, neologismo usado pelas cariocas do ramo para avalizar a "decepção zero" da freguesia inzoneira, o hit do momento é o “quase mulher”. É assim que os travestis e operadas mais femininas se apresentam nos tijolinhos dos periódicos. Por pouco, muito pouco, pouco mesmo não são belas fêmeas, bonecas do barro das nuestras costelas. O desejo (assim como Deus e o gol) está nos pequenos detalhes, como diz o Fraguinha, também conhecido em terreiros como "Meu Moreno Fez Bobagem". Na mesma levada, cantarola o amigo Junio Barreto, el vingador lírico do agreste, parodiando monsuetísticas convicções de primeira: "Eu quero essa quase mulher assim mesmo”. E bendita sejam as moças de todos os sexos, meu velho Joaquim Ferreira dos Santos! Por elas desabotoamos todos os botões das nossas camisas sociais de macho à modinha antiga.
Escrito por xico sá às 16h46
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MODINHAS DE FÊMEA
E por falar em King Kong, a capa de “Época” mostra que vocês, amadas e nobres costelas, não são nada óbvias, nada fracas. São capazes de ficar excitadas até com um filme de sexo entre animais –no caso os macacos bonobos. A matéria é baseada em estudo de uma pesquisadora da Universidade Queen, no Canadá, a doutora Maredith Chivers. Nós, os ditos machos, diz a investigação, somos, noves fora alguns perversos soltos por ai, mais certinhos. Ficamos nas cenas humanas mesmo. É, amigos, é como naquela música de Caetano Veloso da trilha de “A Dama do Lotação”, filmaço com uma Sônia Braga enlouquecedora: “Quando a gente volta/ O rosto para o céu/ E diz olhos nos olhos da imensidão:/Eu não sou cachorro não!/A gente não sabe o lugar certo/De colocar o desejo”.
Escrito por xico sá às 23h12
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DAS LIÇÕES QUE TIRAMOS DE KING KONG E JOHN WAYNE
E eis que a galega linda, gostosa e bela, toda adjetivosa, a Jessica Lange, lembra?, se vira para o macacão tarado, obsessivo como um Nelson Rodrigues em flor, e conclui, minuto de candura em uma cena de pânico entre mamíferos desproporcionais e em estágios diferentes, Ilha da Caveira, exterior, pleno crepúsculo selvagem: -Você não está vendo que isso não vai dar certo?! De fato, tudo levava a crer na razoabilidade da sentença da loira, embora tal criatura, comendo as bananas da humildade na mão do mico gigante hollywoodiano, fizesse aquela cara de biscate zoofílica de última categoria. Mesmo com todos os descontos darwinistas possíveis, não podemos olvidar que a referida cena do King Kong versão 1976, que revi outro dia com a cria da minha costela, desaba como Niágara, como uma Sete Quedas de obviedades, no atoleiro de metáforas dos encontros & desencontros do macho perdido e da mulher que se acha –típicos seres que habitam hoje a face da terra. Acontece que a leseira masculina é tanta que somente décadas depois do mal-fadado investimento do símio na pequena criatura cinematográfica percebemos que o bicho estava pegando para a nossa banda. Foi necessário aparecer o David Beckham, o Falcon ludopédico, e outros representantes do novo gênero anfíbio, para que alertássemos sobre o espectro que assombra o macho roots, o macho-de-raiz de Europa, França e Bahia. Não, amigo, não somos destes apocalípticos precoces que assistiram ao enterro da última quimera com o filme “Quando um homem é um homem” (1963), com o glorioso John Wayne na pele de um fazendeiro playboy que enfrenta algo mais ameaçador do que fazendeiros invejosos ou ladrões de gado: a teimosia de uma fêmea. Ele enfrenta a esposa, a evoluída K., que não abre mão do divórcio. McLintock, digo, o personagem do nosso irmão John, diz não e não e não. Deseja reconquistá-la com ganas nem que seja obrigado a sujar as botas no atoleiro do amor e da sorte. E é justamente na lama uma das pelejas mais corajosas e bonitas de um homem e de uma mulher desde que o Criador resolveu usar o barro para fazer algo à sua imagem e semelhança. Ali começou nossa provação, nosso calvário... Da lama para a luta no gel, velho John Wayne, foi um pulo. Que falta você nos faz, meu caubói amigo!
Escrito por xico sá às 19h25
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