PSICANÁLISE DE POBRE II E/OU UM CANALHA À PROVA DO MESTRE LACAN
Minha gente e a minha não-gente, não se trata de um libelo contra a psicanálise (falo do falo do último post), muito menos contra os psicanalistas, tudo não passou de uma defesa dos que escutam os outros, daí os vira-latas como heróis da crônica. Chegou a hora de exaltar, na contramão do jogo, como os bichos escutam mais os homens do que o contrário. Apenas isso, o que não é nada pouco. Se os analistas, inclusive os bons lacanianos, também escutam, lindo. A diferença, e isso não passa de um chiste, é que os cães não cobram e jamais viverão da miséria humana. É pouco? Sim, com os vira-latas podemos pegar algumas pulgas e isso não é desconsiderável para quem já tem tantas coceiras no juízo, mas que diferença faz para quem já tem broncas-cachorras na existência? Minha gata Déli, por exemplo, sabe quando estou ás vésperas do choro. Fica ali por perto e prepara o anti-bote, o pulo no colo para dar o abrigo a um homenzarrão que vai desabar daqui a pouco, desabou, fudeu, lá vem o cara a gastar as dores do mundo. “E olhe que ele bebe, amigas,” conta a gata para las gatitas colegas no dia seguinte, olhe que é um homem protegido sob o escudo de um vício, porque um homem virtuoso de tudo é um fraco, só serve ao Kapital, a mais nada. “E mire que ama uma mina incrível”, completa a moça de quatro patas, “mas chorar não tem nada a ver com suposta felicidade”, completa o tanque das incompreensões gasolinosas. Chorar é mais lá para dentro do mato e de todas as veredas possíveis, mas chorar para os céus não tem graça, daí ai pouco já estaremos lembrando de Deus e dos homens, não era isso o combinado, chorar é focinho, chorar é cachorro, no máximo um lobo de Jack London que estica a língua para la luna caliente em uma adivinhação do suposto divino e do fracasso.
Escrito por xico sá às 02h33
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PSICANÁLISE DE POBRE
Foi numa prosa molhada com a melhor bagaceira de Salinas, aquela que entorta as pernas e endireita a alma, que discorremos, este cronista vira-lata e o menino bom Cláudio Assis, sobre a capacidade que os cães têm de ouvir os homens. Já reparou, meu caro, como tem sempre um miserável se queixando da vida para o seu cachorrinho magro debaixo do viaduto, dentro do seu barril à Diogenes ou debaixo da marquise da esquina? Sim, doutor Freud, psicanálise de pobre é blasfemar para o cão amigo. O danado não fala nada, mas nos ouve que é uma beleza, presta mais atenção do que uma sábia coruja. Falamos por horas, infinitas sessões pelo custo de um osso, o mesmo da sopa, aquele clássico osso que desce e sobe na cordinha gasta da rotina em molambos. A mulherzinha, também só o fiapo de gente, foi embora com outro vagabundo mais lascado ainda? É com o cachorro que desabafamos, não com um semelhante, que ainda é capaz de espalhar e fazer chacota do nosso humaníssimo chifre. Tirávamos a onda e Assis, que é do ramo do tal cinema, já pensava na cena. Corta para um cabra macho chorando diante do seu humilde cãozinho sem plumas lá no Mercado do Pirajá, em Juazeiro, o maior ajuntamento de cachorro magro do universo. Mas claro, meu velho, que o vira-lata também um dia nos dá alta, enche o saco, finge que estamos curadíssimos, saudáveis até os miolos, não suporta mais as repetidas malices. O cão, assim como Diógenes, o filósofo grego envelhecido no mais cínico dos barris de carvalho, como me contou o amigo Duda Fonseca, não suporta algumas frescuras humanas, como a ressaca moral, por exemplo. O bicho detesta. Ora, ressaca somente a física, aquela capaz de aniquilar um homem depois dos seus 40 janeiros, aquele estadão das coisas que mais parece uma dengue sartreana, aquela falta das cortinas matinais da existência. No mais, o cachorro é mais paciente do que qualquer figurão da nossa sociedade psicanalítica. Melhor até do que os grandes garçons, também exímios na arte de deixar as nossas dores virarem cera nas suas generosas oiças. O mestre Reginaldo Rossi que o diga. Não, amiga, os poodles não servem, tampouco os cães treinados para a segurança patrimonial da empresa ou da família. Para efeitos terapêuticos, quanto mais vagabundo mais eficiente no divã canino. Pedigree só atrapalha, é o que concluímos naquela prosa movida pela água na qual nem os passarinhos de Salinas ou Januária arriscariam molhar o bico.
Escrito por xico sá às 22h08
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