DA CARNE E DE OUTROS PECADOS
A melhor coisa da Semana Santa, além de não ter aula de segunda até sexta, era a proibição de tomar banho de quarta-feira por diante. Uma bênção dos céus. E ai de quem teimasse contra as leis divinas. Ficava aleijado, óbvio, como nos milhares de relatos ouvidos a cada ano. Quarta-feira de Trevas. A folhinha do calendário já deixava o veto ao banho mais do que explícito. Não podia mesmo. Só os desnaturados pecadores, e eles estão em toda parte, desdenhavam dos costumes, mesmo sob o risco de ficarem tronchos e empenados. A pequena gente, a meninada, sempre arisca ao banho naquelas terras de pouca água, pedia a Deus que a lei cristã fosse perpétua. Parecíamos aquele garoto que faz o Woody Allen criança no filme “A Era do Rádio”. O pirraia, fina ironia, chega à conclusão de que há uma grande vantagem em ter nascido em uma família pobre naqueles anos 1940, arredores de Nova York: não ser obrigado a escovar os dentes com o mesmo rigor que os filhos dos mais abastados. Os católicos mais tementes ainda guardam os preceitos antigos da Semana Santa, mas, pelo que sabemos, esse capítulo da higiene pessoal não é mais tão ortodoxo. Nem mesmo a distância da carne vermelha é questão de vida ou morte. A própria igreja relaxou o expediente. Digamos que a carestia na venda do bacalhau e do peixe tenha contribuído, ano a ano, para esta reforma do cânone. O que os mais fervorosos não arriscam de jeito algum é a conjunção carnal. Continua um tabu nos grotões e vilas. Até os pequenos cabarés, os velhos bregas e lupanares, fecham suas portas. É mesmo uma tristeza a vida de rapariga na Semana Santa, mas elas sempre fizeram questão, justiça histórica seja feita, de suspender as atividades. É hora de jejum e penitência. Ao macho que comete o tresloucado gesto sobra um impiedoso e cruel destino: a impotência para todo o sempre, como prega a crendice. Um amigo do Cariri, o Clóvis, ex-coroinha, católico à vera, papa-hóstia juramentado, vivia a paranóia de que as moças só lhe davam bola durante a Semana Santa. Era um daqueles donzelos que estampavam nas feições os vincos da estiagem e da carência. Um queijudo mesmo, coitado. Tempos depois ficamos sabendo que se tratava de pura perversidade feminina. Só para testar a resistência católica e apostólica do garoto que ajudava delicadamente o padre nos rituais da missa.
Escrito por xico sá às 15h16
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TEM GENTE!
Esta crônica é para aqueles que um dia acordaram com a macaca, que choraram as pitangas, que não entregaram a rapadura, que fizeram das tripas coração, que fundiram a cuca, que não deixaram a vaca ir pro brejo, que ficaram numa sinuca de bico, que um dia se estreparam, que jogaram aquele plá, que subiram nas tamancas, que ficaram em maus lençóis e que, enfim, puseram as barbas de molho. E também para vocês, nobres gazelas e pobres moços, ah esses moços, que não sabem patavinas sobre tais expressões das antigas. Não sabem mas agora ficarão amarradões, pois um dia já ouviram da Pampulha, ouviram do Capibaribe, ouviram do Cocó e ouviram do Ipiranga, música ao longe, na boca dos seus titios e vovôs coisas bem parecidas. Esta crônica é sobre um certo “Admirável Mundo Velho!”, com exclamação e tudo, como nos títulos dos jornais do tempo do onça. E antes que o distinto leitor me mande chupar prego ou pentear macaco, depois de todo esse lero-lero vida noves fora zero, é bom que se frise: trata-se de um livro (editora Globo) muitíssimo bem bolado pelo jornalista e escritor Alberto Villas, moço de Belo Horizonte que sentou praça na capital bandeirantes depois de estudar no estrangeiro. E cá com os meus botões, amigo, este cronista que vos bafeja, este cabeça-chata que não passa de um José dos Anzóis Carapuça, ficou com tanta inveja, a boa inveja dos achados lítero-afetivos da vida, que acabou plagiando até a dedicatória do sr. Alberto que abre esse texto. Uma pouca vergonha, coisa de boco moco, mas que nem me deixou assim tão encafifado, afinal de contas, desde menino, lá na Chapada do Araripe e seus arredores, não faço outra coisa senão remedar os outros. Já imitei até Camões, mais conhecido no interior do Nordeste como um anti-herói à moda João Grilo e Pedro Malasartes -nada de poeta épico do orgulho português. Aliás, naquele nosso mundinho, o velho caolho era chamado de ”Comonge”. Talvez, quem sabe, uma mistura com Bocage, pois era atribuído ao cabra dos Lusíadas toda uma sorte de versos fesceninos ou de sacanagem. Eita que agora deu vontade, com o livro do Villas debaixo do braço, de voltar para casa de mãe, lá em Juazeiro, e repassar com ela esse mundão de expressões. Certamente iria retornar com o embornal repleto de outras. Na última visita, aliás, no final do ano, quando ela chamou o neto Felipe de “crânio”, que realmente é um menino sabido da gota, melhor do que Malba Tahan -o homem que calculava-, foi um assombro. A família inteira chorou às gargalhadas com o termo aplicado por dona Maria do Socorro. Havia também um outro modo genial de dizer que alguém era um Rui Barbosa, ou seja, um crânio, como no “Admirável Mundo Velho”: Fulano de tal é “ginasi”. Claro, era uma corruptela e o jeito da fala nordestina para dizer ginásio, um alto grau escolar da época para nós, como lembrei outro dia com o irmão Evardo Costa. E quando tinha alguém no banheiro, mesmo o de casa, você chegava apertado e ouvia sempre um apocalíptico “tem gente!” Pense no desespero! & MODINHAS DE FEMEA Fulaninha ficou para titia. “Ficar para titia era chegar aos 20, 22, 25 anos –e nada de casar”, como consta do livro do Alberto Villas. Nessa mesma faixa etária, no costume do interiorzão do Brasil, quando a moça não contraía núpcias dizia-se que “deu o primeiro tiro na macaca”. O segundo tiro seria aos 35; o terceiro e derradeiro tiro pipocaria uma década depois. Ai, adeus, sem cura ou jeito, o destino seria mesmo o caritó, jamais a sujeita casaria, como rezava a crendice da época. * da coluna "modos de macho & modinhas de fêmea", publicada pelos jornais Diário de Pernambuco, Diário do Nordeste (Fortaleza) e O Tempo (BH). a crônica é distribuída pela agência BR Press.
Escrito por xico sá às 13h32
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