XÍCARA
- Você toma com ou sem açúcar? Era tudo que tinham para conversar naquela manhã. - Com açúcar. Como ele tomava sem açúcar, açúcar não tinha. Nem adoçante. Ela pegou a xícara na mão, com gosto, reclamou que logo naquele dia estava com a pior das suas calcinhas _é bege!, não gosto, mas tive que usar essa por causa do vestido semi-transparente_, algo assim ela disse. -É ótimo sem açúcar! Os dois haviam dançado e beijado na pista na boate. Ou no clube, como chamam. Não haviam trocado uma só palavra, não careciam, não são poetas, não se ouve o que se fala nestes lugares, melhor ainda. -Saco esse tal de minimal techno – ela, viciada no gênero, disse também para agradá-lo. –Plip-plop,plip-plop a noite inteira. Nunca mais se viram. Ela nunca mais tomou café com açúcar, mas só lembrou do cara anteontem porque estava se achando um tanto quanto dadeira demais da conta e foi passar a régua na coivara de homens para saber com quantos ficara naquele semestre letivo. Todos com camisinha, ufa, que alívio, duas brochadas fenomenais, petite mort que é bom apenas uma que valesse ser lembrada. Na oportunidade de tal contagem, ela também lembrou da falta mínima de gentileza dos mancebos: apenas 33,3% deles lhe ofereceram café-com-ou-sem-açúcar. 66% deles disseram “A GENTE SE VÊ!”, como se ela se importasse com isso. Os que foram na sua casa e ficaram até de manhã saíram de banho tomado e sorrisos do sucrilhos dos campeões. E ela disse a todos, civilizadamente, como o corvo do tio Edgar A. Poe: “NEVER MORE”.
Escrito por xico sá às 02h04
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NÃO HÁ DIAMANTES QUE COMPREM UMA ALMA PERRA *
Tudo que sei é que esta é uma história em primeira pessoa. Blow-up. Quando dei fé, cão vadio, aos teus pés lá embaixo estava, mulher-abismo. Enfiei-me entre os dedos lambi como um lazarento... pulgas passionais ainda tentaram me avisar, epa!, durante a queda, em vão. Uma mulher muito grande, alma desenhada por R. Crumb. Pulgas mais avexadas, sado-camonianas, escreveram no meu couro, em caligrafia-coceira, “o amor é fogo que arde e não se sente”, ah, se eu pego esse caolho eu furo o outro. Lambi os dedinhos, um a um, mas não com ritmo, queria que você visse o desassossego desse pobre cardisplicente sob a forte chuva de granizo. Não há guarda-chuvas para o amor, Catherine. Nem mesmo quando se tem 20 anos. Não há diamantes que comprem uma alma perra, Catherine, não há barcos, salva-vidas, só perdição e enchentes. Não à-toa os sofás bóiam nos aguaceiros. Sofás dormidos por homens que erraram, homens que já partiram. “As mulheres são todas diferentes. Quando se perde um homem, há outro igual ao virar da esquina. Quando se perde uma mulher, é uma vida”. Desde o dia em que cai aos seus pés não sabia se estava a ganhá-la ou perde-la. O AMOR É FODIDO, do amigo ultramarinho Miguel Esteves Cardoso, me ensina coisas. Ao contrário das pulgas sado-camonianas, este gajo, certa noite das antigas, na cidade de São Paulo, boate Love Story, dizia que as lágrimas das raparigas são coquetéis sem álcool. Dizer “não chores” funciona sempre, porque só mencionar o verbo “chorar” emociona-as e liberta-as, dando-lhes carta branca para chorar ainda mais. As raparigas, depois de chorar, soprou-me o gajo, lirismo-Morrisey, ficam com vontade de fazer amor. *do livro "Cão vadio aos pés de uma mulher-abismo" (editora Fina Flor, esgotado).
Escrito por xico sá às 16h16
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CÓDIGO DE BOM-TOM DOS TEMPOS MODERNOS
CAP. I -§ 1º Se beber não passe email. As chances de dar merda, ora, são enormes. Pedir alguém que você mal viu em casamento, desmanchar o namoro dos sonhos, sabotar os projetos em andamento, escrever pornografia para a madre superiora do Colégio das Damas, xingar o amigo, zoar o freguês, desonrar o(a) parceiro (a), desmerecer os carinhos, atordoar os sentidos, desmascarar os ímpios, passar óleo de peroba na cara dos eventuais incorruptíveis, desmoralizar o ombudsman, entregar as Bovarys e os dons Juans com farta distribuição na rede de fotinhas digitais... Ao sair para beber, deixe o computador desligado, travado, imploda as tomadas, faça uma barreira na porta do escritório, ponha um rastro de cascas de bananas para que você desabe no chão antes de alcançar a máquina de alta periculosidade. Faça tudo, amigo(a), que dificulte a volta [do boteco] direito para o outlook da insensatez, o gmail das perdições, a pororoca de um spam cardíaco, a irrecuperável ressaca moral dos itens enviados.
Escrito por xico sá às 14h11
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