DA SÉRIE SUPER-HERÓIS SENSÍVEIS E MODERNOS
Episódio de hoje: O HOMEM-LAXANTE Na saúde, na doença, na TPM... E muito mais ainda na prisão de ventre. Prova de devoção maior não há. Do que viver de perto este drama, seguir todos os passos da costela amada, na pista, na vida, no WC. O carinho, o cafuné, o chamego, o homem-laxante com a nega onde a nega estiver. Existem mulheres de todos os naipes, mas elas se dividem basicamente em duas classes: as que fazem bem e as que têm certas dificuldades. Os machos também assim se organizam, segundo Garcia Márquez, os que evacuam fácil e os que se enfezam ao extremo. O escriba mesmo, em conversa sobre o tema com o psicanalista Helio Pellegrino, declarou-se ruim de serviço, um enfezado nato. O temor feminino diante do trono exige atenção redobrada do macho. Melhor, valiosa leitora, não esconder essa pequena agonia diária. Ponha o tema na roda. Melhor ainda, meu rapaz, é você antecipar-se, assim que notar, pelos sinais exteriores de enfezamento _aquele riso sem graça e a sobrancelha com medo da vida_ que a amada carece de maiores dengos, cuidados, delicadezas. Ou sinais vindos das prateleiras das farmácias: Cascara sagrada, Ducolax, Tamarine... “Ameixas, ame-as ou deixe-as”, como no hai-kai de Leminski, também são bons indícios para despertar nossos trabalhos de Hércules. Vale todo esforço. E ainda fica um lembrete sábio, que parece indiano, mas foi me ensinado pela minha vó Merandolina, brava filha de índios de Águas Belas, Pernambuco: quem mira as próprias fezes, dizia ela, cria-se sem o menor pecado da inveja. Lição mais sábia. Outro bom conselho, que deixamos aqui de graça, é o da voz da experiência de “Tia Julia e o Escrevinhador”, melhor livro de Vargas Llosa: “Para dores de amor, nada melhor do que leite de magnésia(...). Na maior parte das vezes, os chamados males de amor, etcétera, são distúrbios digestivos, feijões duros que não digerem, peixe estragado, entupimento. Um bom purgante fulmina a loucura do amor.” [De mi libro “Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias”, editora do Bispo[
Escrito por xico sá às 14h24
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CARTA ABERTA A GILBERTO FREYRE *
Caro mestre de Santo Antônio de Apipucos, o motivo desta é tão-somente te dar notícias sobre os modos de homem e, principalmente, sobre a involução das modas de mulher. Amigo, se já temias o avanço da modinha europeizante no madrugador 1986, não te darei uma boa-nova, muito pelo contrário: a fêmea brasileira se tornou a maior consumidora de tinta loira do planeta. Sei que não és de espanto, viste de tudo nesse mundo –aqui incluído as assombrações como os pernambucaníssimos papa-figos-, mas a nossa morenidade sofre um golpe atrás do outro. Sim, ainda vemos grandes bundas, ótimos latifúndios dorsais, mas na maioria dos casos contra a vontade das suas angustiadas proprietárias. Elas perseguem um outro corpo, um outro ideal de belezura,sonham com Giseles e outros fetiches ao melhor estilo vara-pau, bunda-seca, bundinhas que não rendem um pastel de feira. Estás sentado, amigo? Então escutas mais esta: os cabelos encaracolados que enfeitavam as cumeeiras das nossas Sônias Bragas, lembras?, eita, estes sumiram de vez da nossa paisagem. Alisaram o mundo todo, amigo. A humanidade das fêmeas virou Vera Fischer por estas plagas. A chapinha esquentou em todos os cocorutos, mesmo nos mais melanizados. Temos um salão de beleza a cada esquina, nos sobrados e nos mocambos, na casa-grande e na senzala. O clareamento é a tônica. E não tão-somente nos quesitos capilares, meu velho G.F.. Do teu livro "Modos de Homem & Modas de Mulher" (1986) para cá, tem sido uma reviravolta, um sururu na área a cada instante. Sabes a maciez da mulher brasileira, as carnes de se apalpar em safadezas tantas? Pois bem, meu caro, todas correm a perdê-las na primeira fórmula milagrosa que encontram. Não existem mais os corpos para os quais fomos sentimentalmente educados. Os colos macios de moças são cada vez mais raros. Tudo músculo endurecido de traveco ou de zagueiro. Não é mais nem aquela coisa assim Roberta Close, por quem nutrias uma admiração pela fartura da bunda, É só dureza. E pronto. As cheinhas ou desapareceram ou estão meio desgostosas, isso é trágico, meu velho. Claro que molho a pena no tinteiro do exagero, mas precisamos ser panfletários para evitar a catástrofe definitiva. Aqui me despeço, atenciosamente, mirando uma bela bunda, essa sim uma rara morena, uma jambo-girl, como diríamos em tempos de aldeias globais, uma legítima afilhada dos trópicos que passa sob a luz do final da tarde da vila Pompéia, a melhor iluminação natural, sem filtro, para se ver a cor morena. crônica escrita originalmente para a revista Continente.
Escrito por xico sá às 11h10
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ABECEDÁRIO DE FÊMEAS *
Homem lá conhece mulher, meu amigo. Homem morre menino nesse aspecto do saber humano. Homem mata outro, promove estripolias no mundo, joga bola, vai à guerra, planta batatas, fabrica robôs, desenha videogames, mas não sabe da missa um terço sobre as Angélicas ou Zenaides, para ficarmos apenas na primeira e na última costela do abecedário de fêmeas que tratarei mais adiante. Homem lá sabe do que está falando quando se trata desse quesito. Poucos, raríssimos, seriam aprovados em um Enem do gênero, em um vestibular da área. Somos analfabetos funcionais, somos quase todos do Mobral quando o assunto é o feminino à vera. Ficamos muito no raso, na beira do açude, rosto no espelho d´água da cacimba, medrosos, covardes, uma preguiça sentimental da gota serena, uns Macunaímas do amor e da sorte. As Angélicas e Zenaides, estimado amigo macho, estão em um livro de chapar o quengo, um livro capaz de bulir com as nossas ignorâncias, remexê-las, e nos tornar mais cúmplices e interessados por completo nestes seres colossais que guardam mais mistérios do que a Santíssima Trindade e o bicho da seda. O livro, sem mais nove-horas, desembucha seu cronista enrolado:”As filhas de Lilith” (ed.Caliban, Rio, 2009), da poeta Cida Pedrosa, com ilustrações de Tereza Costa Rego. Leia se for homem e volte das suas páginas com um outro encaibramento do mundo. Não tema, “o pênis de Angélica, era de plástico/ passou a vida a esfregar-se no espelho”. Berenice, animal de quatro patas, está exposta ao pássaro. Cecília, você já viu muitas, mas nunca conheceu mais de perto; ela lava a calçada, diz a autora, como quem lava o mundo. Tem coisa mais bonita? Coitada de Diana. Coitada nada. Faz as loucuras de dietas porque bem quer: “A sopa a lua o brócolis a proteína o shake/ a balança a fita métrica o manequim”.Elisa tem olhos quase infantis e se perde naquele teto da igreja povoado de ovelhas próximas ao cajado do pastor. Alma atada aos cânticos, menino! São biografias de mulheres de todos os tipos e quereres. Lirismos a doer no juízo & bofetadas no gosto besta e mediano. Dona Fátima, por exemplo, vende goiaba na feira, participa da associação comunitária e espera o dia em que a agência de modelo convide Priscilla para desfilar no shopping center e que Wesley termine o curso de informática para pilotar o caixa do supermercado Carrefour. Tem ainda Grace e o seu café coado na hora; Hilda e o sexo de manhã antes do ônibus Rio Doce-Piedade; Ívis que fumou, riu e comeu; Juanita tem uma dor grande que não cabe no confessionário; Khady, ah, Khady; Luíza no jogo de buraco; Melissa nasceu loiríssimo e com olhos azuis, era o bibelô das tias e foi criado à luz dos ensinamentos do doutor Rinaldo Delamare... Coube a Nely entender desde criança que o corpo era a morada dos loucos, desvão dos homens e ganha-pão dos pobres. Eis o cascudo poético de Cida Pedrosa na moleira do mundo. Só podia ser de Bodocó (PE), só podia ser do sertão do Araripe, só podia ser libriana, porque outubro naquelas plagas é o mês mais quente do universo inteiro. Deixei outras mulheres e letras pelo caminho e aqui arriado os quatro pneus e o estepe encosto em Rosana. Porque em um dia de junho, agora mesmo, ela resolveu diminuir as horas: secou seu homem a tarde toda, prendeu-o entre as pernas e ao som de Bob Dylan diluiu-o na boca. & Modinhas de Fêmea Nem deu pra falar de Tereza no IML e de outras musas do abecedário de Cida. Úrsula, porém, era por causa da xará e atriz Andress mesmo: sapato só arezzo, bolsa victor hugo, relógio rolex, calcinha mourisco, perfume chanel, jeans m. officer, caneta mont blanc, creme lancôme, camisinha, infelizmente, a que tiver no motel. Pense numa mulher de grife! Coitada de Zenaide, coitada nada, dividiu em 12 suaves prestações, aos 60 de idade, a aplicação de botox. da coluna "modos de macho & modinhas de fêmea", semanalmente no Diario de Pernambuco, Diario do Nordeste e O Tempo (BH).
Escrito por xico sá às 17h55
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