COMO FAZER UM DISCURSO DE CASAMENTO *
Já escrevi de tudo nesse mundão perdido e sem porteira, cujo prazo é sempre ontem e a musa inspiradora é, na maioria das vezes, a dona Encomenda. Haja costuras para fora, bicos, rendas e babados. Nunca, porém, estivera às voltas com a confecção de um discurso de casamento.
Não um enlace qualquer da praça. Um casório de dois amigos especiais, daqueles para sempre, do fundo do fundo do pote de barro adonde só se alcança com a caneca amassada de alumínio das fortes emoções que nos escampam.
Como se o rapaz andasse com um tubo de Araldite ou Superbonder no bolso do lado esquerdo do peito e grudasse no coração por debaixo daquele vestido.
Ele vindo de Cuiabá, curva de um rio sujo, Mato Grosso; ela, do Crato, via Fortaleza e Paris. Os belos encontros das gentes múltiplas de São Paulo, na Mercearia São Pedro, taberna lítero-boêmia, o verdadeiro e único caminho dos jardins que se bifurcam.
Para ampliar ainda mais o grau de cosmopolitismo destes inacreditáveis cosmonautas na autopista do amor e da sorte, eles quase se casam no Egito, por ocasião de uma viagem literária do moço e da musa. A egípcia do Crato, como o mancebo a chama, resistiu bravamente.
Uma plantação de flores dos pais da distinta criatura, no Sítio Santa Fé, no município cearense de Maranguape, exalou mais forte o perfume que roubara de Belzita, como a tratamos carinhosamente. Pronto, é lá mesmo que se dará o enlace, neste final de semana.
Não poderia ser em outro canto ou galáxia. As rosas não falam, mas não são bobas: obedecem ao que há de mais sagrado na agricultura celeste inventada pelos poetas alquimistas. Assim foram plantadas, assim estarão abertas aos noivos que desafiam os tempos de homens frouxos, tempos em que os rapazes não pedem mais gazelas em namoro, tempos de amores líquidos que funcionam como bombeiros de todos os fogos, el fuego.
Sim, já escrevi até conselhos sentimentais antes mesmo de conhecer uma fêmea, ainda na Rádio Vale do Cariri, Juazeiro, no programa Temas de Amor, do seresteiro e mestre Jevan Siqueira, mas que diabos direi aos noivos nessa bela hora?
Não queria improvisar, já cometi esse pecado para os dois nos últimos tempos. O desejo é escrever uma peça lírico-pombilínea à guisa de ´viva os noivos´. Será que consigo? Viva Isabel & Joca e o resto é jazz de um escriba, seu uísque e sua velha Remington, que soa a essa altura da noite como um banjo para os gatos no telhado.
& MODINHAS DE FÊMEA
Se tudo falhar no discurso, moças, aplicarei uma velha fórmula de um libreto luso das antigas: ´Começa por agradecer ao noivo pelo facto de o ter convidado para padrinho; conta alguma história engraçada sobre o noivo, poderá contar alguma anedota - sendo bastante cauteloso com o que diz para não ferir susceptibilidades a ninguém. Se quiser, poderá propor um brinde aos noivos desejando-lhes toda a felicidade na sua vida conjunta; deve fazer um brinde aos pais dos noivos, afinal de contas como trabalharam para que tudo saísse uma beleza enquanto os pombinhos arrulhavam suas promessas amorosas. da coluna "modos de macho & modinhas de fêmea",publicada semanalmente nos jornais O Tempo (BH), Diário do Nordeste e Diário de Pernambuco.
Escrito por xico sá às 16h21
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