Nada iguala mais as fêmeas do que o cotovelo. Como é feio e cinza um cotovelo. Agora mesmo prestei atenção em uns 30 pares de cotovelos em uma fila de aeroporto.
Até já vi mulheres passando um creminho nessa estranha e miserável parte da anatomia, mas nunca ouvi uma deusa orgulhosa e envaidecida por tal dobradura.
Sim, nos homens é mais feio ainda, afinal de contas tudo em nós, degradados e mal-diagramados filhos de Eva, está a léguas da beleza das moças.
Sempre entendi que mulher é metonímia, parte pelo todo. Mesmo na mais desfavorecida das crias das nossas costelas haverá uma parte de rara beleza: um pescoço, a omoplata, um queixo, um perônio, uma tíbia, um rádio, a bunda e suas Raimundas que rimam e solucionam os desejos urgentes da humanidade...
O cotovelo, porém, nunca entra nesse jogo de Polyanna, a mais otimista das meninas. Ou você, generoso tarado brasileiro, já suspirou de tesão enquanto ela levantava romanticamente a taça de vinho e exibia a extremidade pontuda?
Não, amigo, acho que ainda estar por nascer a criatura que se devote à essa área do conhecimento humano.
Tem tara para tudo, menos para cotovelo.
Beijar e cultuar uns pés, por exemplo, é comigo. Nado no seco e levo o gosto de esmalte na língua para casa. Devoção das mais fáceis e com milhões de seguidores em todo o planeta.
Um certo pendor por axilas também consta do catálogo universal de taras. Não é das mais triviais, mas existem às pencas os católicos praticantes.
Mas um cotovelo, meu Deus, o que fazer com ele?
Coitado desse acidente da geografia humana. Claro que é importantíssimo nas funções esqueléticas, não é isso o que se discute, mas cadê a poesia e o sex-apeal do pobre ossinho de cor triste e cinzenta?
A saboneteira de uma moça mereceu a loa e o lirismo do Vinícius, que cantou de tudo na mulher amada. Menos o cotovelo, repare só que a dobradiça das musas não rende mesmo sonetos.
Uma moça, na receita do poetinha, podia até não ser lá essa beldade no capítulo das nádegas, admitia-se, desde que tivesse uma bela saboneteira. Uma mulher sem saboneteira, pregava nos seus versículos, era como um rio sem ponte.
Do cotovelo, o velho cúbito, tão importante na anatomia e no apoio do balcão das esperas e das dores de amores, nem uma só rima ou poema. Ô miséria humana!
Só o cotovelo de Maria escapa dessa feiúra indiscriminada. Apenas com os óculos esverdeados e 3-D do amor, a terceira dimensão sobre todas as coisas, é possível reparar na beleza cotovelística. O do braço esquerdo, então, é uma coisa, espetáculo, oitava maravilha!
P.S. Se não rendeu poesia ou metonímia, a triste e ossuda articulação cinzenta deu origem ao gênero música de dor-de-cotovelo, que teve no gaúcho Lupícinio Rodrigues o seu mestre. Segundo o autor de “Nervos de aço”, o termo surgiu por causa das longas esperas dos amantes nos bares, cotovelos amparando a angústia nas mesas e balcões. As Carolinas, que vêem o tempo passar na janela, também sabem da importância dos cúbitos na triste arte da espera por um lance do acaso ou da sorte amorosa.