LIBELO CONTRA A EXTINÇÃO DAS DENTUCINHAS *
Denúncia urgente: estão acabando com as dentuncinhas. Sim, não é de hoje, faz tempo, mas agora beiramos realmente a extinção da espécie. Essa moda de encher de arames os dentes das moças. Essa modinha de desentortar os lindos dentinhos das raparigas em flor ainda cheirando a leite. Sim, os mancebos também são vítimas da ortodentia moderna, mas os moços, pobres moços, que se virem, que se defendam. Este panfleto lírico e sentimental se preocupa tão-somente com as meninas, como um tardio e lesado Lewis Carroll sertanejo. No início do modismo, era mania apenas dos mais aquinhoados; depois alastrou-se de vez, como as cirurgias plásticas. Estão acabando com o charme das dentucinhas. Toda sala de aula tinha sua dentucinha, toda repartição, toda rua, todo bairro, todo clube, todo cabaré, toda casa de tolerância que se prezasse... Já já eliminam de vez o charme das estrias, e todas as mulheres ficam iguais, bundas iguais, peitos do mesmo tamanho, lábios de branquinhas com recheios artificiais para imitar a lindeza da mestiçagem... Reparem os cabelos, por exemplo, onde andam os caracóis, os cachos, os black-powers? Está tudo dominado, tudo esticado, a chapinha, modinha que nasceu em pleno apagão da energia elétrica, veio para ficar de vez, para sempre, fudeus. Já já escrevem na bandeira nacional: ordem e escova progressiva! Mas o que está em jogo agora, camaradas, é o fim das dentucinhas. Uma lástima, uma tragédia dos nossos dias. Vocês lembram como eram especiais os beijos das dentucinhas? E os dengos orais das dentucinhas? Céus, o nirvana com direito a uma sinfonia de Iggy Pop com Goran Bregovic! *publicado originalmente em 2002, no livro "modos de macho & modinhas de fêmea" -ed.Record, 4a edição
Escrito por xico sá às 18h14
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DA ARTE DE ESPIAR AS MULHERES
Tem alguma coisa que não bate nessa pesquisa inglesa, compadre. Ora, como assim, só gastamos, em média, 43 minutos por dia mirando las chicas, olhando para as mulheres?! É o que revelou o estudo feito pela Kodak Lens Vision Centres, uma firma evidentemente interessada no que se passa na nossa vista, afinal de contas é do ramo e vive disso. Menos de um tempo de jogo de futebol por dia de tocaia? Não, compadre, mesmo os entrevistados sendo todos ingleses, rapazes mais tranqüilos, mais “cool”, como eles se acham, não é possível. O pior: na terra da Rainha ainda ficaram espantados com os números. Acharam que era tempo demais, tempo perdido, como se gastar as retinas com as fêmeas fosse coisa d´outro mundo, mal-assombro que balança as cortinas mesmo quando o vento está parado. Tudo bem, as britânicas não possuem os belos latifúndios dorsais das nossas mulheres, mas 43 minutos a gente atinge nos trópicos assim que deixa o lar doce lar e pisa na calçada, caso dos pedestres inegociáveis como este bípede cronista. Aliás, gasto bem antes, pois adoro aquele momento em que a cria da minha costela escolhe as vestes, ah, quanta angústia, que lindo. E quando ela diz, dramática, como uma atriz de tragédia grega, “saco, não tenho roupa!” Mesmo com o armário repleto. Eu entendo. Aliás, ela nem diz mais, só pensa, e eu já adivinho. Você, ai, macho sobre quatro rodas, também bate essa cota inglesa em dez minutos no trânsito ou em meia hora na firma, não acha? Se estou errado, me corrija, faz de conta que a sua amada não lê essa coluna porco-chauvinista, não quero provocar cizânia nos lares doces lares, só desejo que os pombinhos arrulhem em paz. (Falar nesse verbo, um dos melhores da nossa língua, um parêntesis para citar o justo momento em que ele, o verbo, se tornou inesquecível em minha pobre vida, sim, em uma passagem de “Ubirajara”, de José de Alencar, ê, coisa linda, velha ficha de leitura do grupo Virgílio Távora, em Juazeiro: “A juriti arrulhou docemente na mata..." Sim, mas como ia dizendo, tem alguma coisa que não bate nessa enquete inglesa. Pelas suas contas, entre os 18 e os 50 anos, o homem perde um ano olhando para mulheres. Como assim, filhos da mãe? Perde? Não seria o contrário? Ora, até nos grandes faroestes sabe-se da importância de mirar uma dama. Na fita “Era uma vez no Oeste”, do Sergio Leone, em um certo momento crucial, um velho caubói diz para a mocinha: “Vai lá fora e leva uma xícara de café para eles, os homens mudam de assunto ou calam quando vêem uma mulher bonita”. Era a forma de evitar que os dois se matassem. Infelizmente, ela, Claudia Cardinale, tesouro, não obedeceu, quer dizer, não chegou a tempo. Acontece. & MODINHAS DE FÊMEA E o que pensam as gazelas sobre o mesmo tema? Apenas 16% disseram se sentir nas nuvens quando são devoradas pelas retinas dos mancebos. Pouco, não? E sabe quanto tempo elas gastam olhando os boyzinhos ingleses? Apenas 20 míseros minutinhos diários. A maioria mira nos olhos, romanticamente, ao contrário da baixaria masculina que vai direto às lições de anatomia e abundâncias.
Escrito por xico sá às 15h55
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