COMO ELIMINAR O AMANTE -SEM GASTAR UMA BALA DA AGULHA
O leitor aflito me escreve. Quer ajuda, conselhos, alguma filosofia de consolação, ombro, ouvidos... Invoco a Miss Corações Solitários que costuma fazer morada nesta pobre caveira envelhecida em barris de bálsamo. Não posso deixá-lo a mascar o jiló do abandono. Está desconsolado, como o Sizenando de Rubem Braga, que viu a amada cair nos braços de um playboy. Um idiota que não sabia sequer uma palavra de esperanto. A vida é triste, Sizenando, como soprou-lhe o cronista. Com Amaro, chamemos assim o nosso ensaio de Bentinho, não foi diferente. Quis o destino parafusar-lhe objetos pontiagudos à testa, como diria o amigo Marçal Aquino. Sim, ela tem um amante. Daqueles amantes que se encontram à tarde, num intervalo qualquer, no recreio da vida chata. Nem foi preciso contratar o detive particular, conta-me o nosso Amaro. Ele mesmo fez as vezes de cão farejador de sua própria desgraça. Que fazer?, indaga, num email no qual até a arroba bóia em poças de lágrimas. Mato o desgraçado? Tiro a vida da desalmada? Vou-me embora pra Tegucigalpa? Salto mortal da ponte Buarque de Macedo? Um trágico, esse rapaz. Como os de antigamente. Amaro é do tempo em que os homens coravam. Ainda tenho vergonha na cara, envaidece-se o próprio. Sossega, Amaro. O melhor que fazes, respondi ao marido em fúria, é sumir por uns dias, inventar uma viagem, e dar todo tempo do mundo ao infeliz desse amante. Banalizar o amante, meu caro e bom Amaro. Entendeste? Deixar que eles durmam e acordem juntos. Que tenham seus problemas, que percam o luxo dos encontros fortuitos e vespertinos, que se esbaldem. É necessário deixar a Bovary sentir o bafo matinal da rotina. A vida dos amantes dura porque eles só vivem as surpresas e valorizam cada minuto do relógio que põem sobre a cabeceira daquele motel barato. Nada mais cruel para o amante da tua mulher que presenteá-lo com o pão-com-manteiga do dia-a-dia. A rotina é o cavalo de tróia do amor. Amaro, nada de violência ou besteiras desse naipe. Ao amante, todas as chances do mundo. Ao amante aquela D.R., a famosa discussão de relação, em plena TPM. Um amante nunca sabe o que venha ser uma mulher sob o domínio da TPM. Ela faz questão de reservar todos os direitos desse ciclo ao pobre marido. Ao amante, Amaro, a tapioca fria e sem recheio da rotina do calendário. Ao amante, Amaro, a falta de assunto. Ao amante, os cabelos revoltos da mulher, naqueles dias em que nem mesmo ela se agüenta ou encara o espelho. Naqueles dias em que os cabelos brigam com as leis do cosmo e não há pente ou diabo que dê jeito. Ao amante tudo, Amaro, depois me conta se deu certo ou não. Eu aposto.
Escrito por xico sá às 01h13
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|