CINEMASCOPE
No que concerne ao olho masculino nas visões matutinas: Quando ela acorda, aquelas marquinhas no corpo feitas pela noite, atrito de peixes que passeiam nos subterrâneos dos lençóis. Cabelos feitos algas doidas, o seu incômodo mais bonito; algum tédio diante da reabertura do mundo chato, ela se espreguiça, ossinhos que estalam sob a réstia do sol dos sérios que atravessa a cortina. Agora ouço o barulho do mijinho dela, música ao longe aqui do quarto. Paudurescência da aurora; ensaio um gozo memória, nostalgia precoce, como se a danada tivesse ido embora num teletransporte de fio terra; ela volta ainda mais manhosa, quase um gato a inventar botes câmera lenta num sashimi da véspera. O pau toca a sua bundinha sem a pressa da foda, quase como fossem feitos um para o outro e tivessem todo o tempo do mundo. As almas já se entendem, os corpos quase, ela pensa “qualé a desse cara?”. Toco fogo no café e o cheiro sobe, polvo do amor mobilizo-me entre o forno, esquentar os pães, as frutas dos impressionistas, a manteiga do primeiro tango, acorda maria bonita, que a polícia do pensamento já está de pé. Um homem nos ensaios de amor, velho J.L.Godard, carece de muitas mãos, línguas, dedos, certezas.
Escrito por xico sá às 01h45
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