A MULHER GIRA SOBRE O HOMEM QUE A SEGURA PELA MÃO
Tu cabes direitinha nesta nesta manhã, nem carece dizer “que dia lindo, meu bem”, foste feita para esta manhã, de vestido, pois sol já tem, Elvis voltou para Acapulco e canta à beira da piscina antes do teu mergulho, maiô azul marinho, tu cabes todinha na manhã, mas não na terra, nos ares, como naquele quadro russo, a mulher girando nas nuvens enquanto um homem a segura destemido pelo braço, ela gira sobre a cabeça dele, que está coberta do algodão vermelho que tece as redes que protegem, mas não das quedas, não das quedas precoces do amor, tu cabes girando na agulha dos meus cha-cha-chás matinais enquanto come sucrilhos e sorri com o tigre da caixa dos sucrilhos dos campeões, juro que releio Kurt Vonnegut depois da primeira cerveja, meio dia, então pára de besteira, pára de caprichos e pantins, me liga, tchau e beijo.
Escrito por xico sá às 12h16
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O AMOR É UMA PULGA QUE NÃO TE DEIXA ESQUECER A PRÓPRIA PELE
Vicente ou Vincent, de Vincent Gallo, o vira-lata que apareceu na luz daqueles seus olhos, deu mais sorte, chegou do nada, na sombra de um inverno em que nada mais sonhava além duma briga de rua, arranhões avulsos e ração barata, sentou praça, foi aceito inclusive pelo outro gato que já corria pelo mesmo taco, colo, cama, mesa, banho e almofadas, uma espécie de Jules & Jim felina do acaso, que felicidad, chica, que fartura de pêlos metafísicos. Aqui tá fueda, velho Vincent, mesmo dentro de casa é como se a garoa gelada penetrasse o teto e a nuca. Rain Dogs. Tom Waits me diz coisas nada confortáveis. O jeito é atender ao chamado das selvas. Meu pangaré paraguayo relincha e pede rastros, quer gastar cascos en la calle para aliviar el corazón de seu dono, clama por uma viagem ao fim da noche, meu cavalo que fala portunhol salbaje como el cantante Wander Wildner, como o poeta da fronteira Douglas Diegues. Tomo um uísque com a mesma índole del pangaré e bamos cortando o frio como os cães dos trenós siberianos. La calle sempre confuerta el corazón de um cabron,nem que ele tenga que nadar no seco, beber a lua na sarjeta, deslizar em cacos de vidro, devotar-se provisoriamente às lindas vagabundas de botas de todas as pistas, mesmo sabendo que nada supera depois, mas que naquele instante, pelo menos esta noche, trata-se de um bálsamo, um belo e possível exílio do reino da Carençolândia.
Escrito por xico sá às 03h42
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ORAÇÃO À NOSSA SRA. DOS QUE AMAM SOZINHO
Nossa Sra. dos que Amam Sozinho, perdoa-me pela insistência, nem mais é por tanto quere-la, é por deixar claro, nega que sopra das intimidades dessa oração, que só ela me faz passar da conta, perversa, cair no abismo mais lindo do gozo sem volta, como naquele encosto de beira de estrada, como na rodovia estrangeira de Sam Shepard, crônicas de motel, simbora
Nossa Sra. dos que só pensam Nela, cotovelos lanhados de tanta espera, tantos sustos nas ruas, nos bares, “é ela!!!”, Nossa Sra. Dos Cotovelos da Surpresa e das Janelas, cotovelos tão gastos, cinzas, peles, dobras, e tanta fome de viver aqui dentro, megalomaníaco, épico, terá sido a força dos indiferentes, meu velho Alberto Moravia?
É mesmo a paudurescência, nostalgia precoce das grandes histórias, o tempo inteiro, pensando, pensando, pensando, mas no fundo gostas!
Os joelhos lanhados pela romaria, devoção e insistência.
Nossa Sra. da Vida Alongada que consegue, nos seus exercícios de Kama Sutra, me levar à coisa mais sagrada.
Amor demorado, anjo exterminador da alcova!
Beijá-la demoradamente,como um cristão que dissolve na boca uma hóstia.
Homem-bomba que troca as 70 virgens de Alá somente por uma costela.
Lua cheia, vida crescente.
Escuto Le Déserteus, Boris Vian, leste?.
Nossa Senhora dos que sentem muito e amam sozinho, rogai por nós que recorremos a vós!
Escrito por xico sá às 19h45
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