O COMEÇO DA SANTIFICAÇÃO - parte III da nouvelle
Ela agarrou “Sexus”, o volume luxuosamente relançado agora no Brasil. Sim, esta é uma narrativa didática, que dá conta dos relançamentos do velho Henry Miller.
Lia alto e meio sem ritmo, mas com todos os sentidos:
“Deve ter sido numa noite de quinta-feira que eu a conheci _ no salão de baile. Fui trabalhar na manhã seguinte, depois de uma ou duas horas de sono, parecendo um sonâmbulo. O dia passou como um sonho. Depois do jantar, adormeci no sofá e acordei vestido por volta das seis da manhã seguinte. Sentia-me totalmente renovado, puro de coração e obcecado por uma idéia _conquistá-la a qualquer preço”.
Gosta mesmo?, perguntei.
_Ele escreve sem frescuras de escritor,né?
Carol me disse que havia estudado. Segundo grau completo mais um ano de uma faculdade qualquer que, juro, não me lembro o nome. Era na área de Humanas, claro.
Ele escrevia com o pau, digo, repetindo o próprio.
_Como assim?
Os olhinhos tristes dela brilham.
Mais conhaque?
_Sim, sempre_ assente a moça.
Com o pau, ora, uma coisa sentida, de verdade, mais ou menos o que ele vivia mesmo, entre as putas de Paris, com suas mulheres.
_Conta!
Ele, achava que só a obscenidade salvava uma alma.
_Como assim?
Só uma puta de verdade era capaz de purificar o espírito, pois gastava toda a impureza do corpo e sobrava a alma, leve,leve.
_Então pode me levar para o altar que eu já sou toda santa!
Entendeu o espírito Miller na hora.
_Amo esse cara! _ disse ela.
Esse cara quem?, perguntei.
_Você ainda não, falo dele_ ela diz e põe o “Sexus” apertado sobre os peitos, que agora já estão soltos e libertos da blusa apertadíssima.
Cuidado se não ele sai do livro e te chupa os peitos,disse.
-Por que você não chupa aqui outra coisa? (CONTINUA...)
Escrito por xico sá às 22h38
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O VELHO H.M. PASSA NO TESTE DA AUGUSTA -PARTE II DA NOUVELLE
_Lê isso ai,quero ouvir! – disse, mandona que só a porra que deve fazer jorrar dos homens.
Mais uma cerveja, enquanto ficava pronta a comida, e eu estava lendo para aquela moça de botas longas e sai tão curta, trechos do livro.
Henry Miller havia passado no teste da esquina da Augusta. Ela tomava conhaque e pedia mais. Eu lia colado ao seu ouvido.
Você precisa ler “Trópico de Câncer”, um incêndio a cada página, eu disse, assim meio caricato mesmo, panfletário milleriano, usando todos os clichês, sobre o livraço. Esse é o mais quente. Veio ao mundo em 1934, em Paris, e somente 27 anos depois, haja moralismo!, publicado na terra do autor, os EUA. Haja didatismo, pedagogia do putanheiro, praticamente um Paulo Freire do baixo meretrício.
_Quero!
Irresistível uma mulher que pronuncia “quero” com olhos tristes e como se tivesse vivido anos ao teu lado. Era a sensação. Ou seria a embriaguez? Tanto fazia àquela altura.
_Por que você não me leva para sua casa?_disse. _A noite tá tão gelada!_ dramatizou, como qualquer mulher de verdade.
Por um segundo pensei: poxa, se levo essa cria da minha costela para o meu lar doce lar... acabo não escrevendo esse frila, me fodo, nada de costura pra fora, nada de encomenda, preju à vista.
Não perguntei o preço do programa, achei uma falta de educação e civilidade com uma rapariga tão bela e de olhos marejados pela garoa das calçadas.
Lá vamos nós... Minhas pernas cansadas, Dulce, Dulce, Dulcinéia, Dulce bela, bela, 15 latas de cervejas, meia garrafa de White Horse... e alguns bifes com batatas.
_Cadê o livro que você falou?
Era a primeira puta que subia à minha casa e perguntava por um livro antes de qualquer outra coisa. Milagre de São Henry Miller, Santo Henry Miller, pensei, salve,salve.
Não achei, na bagunça do meu labirinto, o lembrado “Trópico de Câncer”. Mas pus no seu colo uma pilha de relançamentos recentes do velho escriba. Sobre aquela pilha eu escreveria o frila da dita noite, por isso que estava tudo mais ou menos arrumado aos pés da escrivaninha de fórmica setentona na qual atravesso dias e noites... E aí estava apenas começando nosso belo diálogo impertinente. [CONTINUA AMANHÃ, PROMETO!]
Escrito por xico sá às 00h06
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VIDA MODO DE USAR...OU HENRY MILLER É NOSSA ESQUINA
_Que homem mais sério, hein?
Continuo com os olhos pregados em “Big Sur e as Laranjas de Hieronymus Bosch”, um dos raros de Henry Miller que não havia lido.
_Que livro tão bom é esse que você nem me olha direito?
Apenas rio sem graça, para fugir do assédio profissional. Que homem mais sério, hahahahahahahahahaa.
_Já viu minhas coxas duras?
Finjo que não dou a mínima,embora ela tenha conseguido me chamar a atenção. Aquela voz rouca...
_A essa bundinha juro que você não resiste?!!!
Nesse exato momento eu lia a página 256 do livro laranja. Minha vista passeava justamente sobre esta frase: “Se existe uma necessidade autêntica, ela será satisfeita”.
Fechei o livro, marcando-o com a orelha do lado direito, esvaziei o copo de cerveja e dei de cara com a mais bela mulher da cidade. Naquele momento era a mulher mais linda da cidade. Era um daqueles milagres que só acontecem se você estiver protegido pelas bênçãos de São Henry Miller.
Uma típica iluminação milleriana.
Puxei a cadeira e pedi que sentasse, por favor,mademoiselle.
A esquina da rua Fernando de Albuquerque com a Augusta, no Ibotirama, boteco que reúne jovens do rock indie, meninas que beijam tranqüilamente meninas, vagabundos iluminados, vagabundos-vagabundos e notívagos como este contador de histórias, não fervia como as madrugas habituais. Era o efeito da onda de violência, depois dos choques entre o PCC, o partido do crime, e a polícia.
Ela se chama, nome de guerra, Carol.
Eu havia descido até a esquina, moro a alguns metros dali, para pegar cervejas e comida. A noite seria longa, muitas costuras para fora, textos atrasados para jornais,revistas... [CONTINUA...]
Escrito por xico sá às 05h13
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