MANIFESTO CONTRA A DITADURA DO VERÃO
Amiga chica, amigo cabrón, devagarzinho, na maciota, sem pressa, vamos derrubando o grande consenso internacional da ditadura da magreza,a magreza absoluta. Sou Quixote até a última queda, a última peleja, até que todas as Dulcinéias malucas ganhem uns quilinhos a mais e se materializem em minha frente, como me cutuca aqui o velho Pancho, com a sua vara de cutucar miragens no imenso deserto de Carençolândia.
E é justamente de Espanha que vem uma boa notícia. A Semana de Moda de Madri, dia desses, vetou 18 gazelas esqueléticas, só couro e osso como as vaquinhas da seca, dos seus desfiles. Certíssimo. Além de incentivar a bulimia e a anorexia [olha o merchan social ai, gente!], esses pasteizinhos-de-vento, sem sustança alguma, meu Deus, incentivam as outras meninas a ficarem mais esquálidas ainda,patéticas, alimentando-se como se fossem pintassilgos, canários da terra, patativas, meninas que comem só alpiste e duas folhinhas de alface, vilgi!, acabei de soltar uma aqui da gaiola.
Nada como essas boas novas madrilenas, justo agora, quando o sol, na banca de revistas, anuncia as tristes e repetitivas manchetes das revistas femininas. A louca ditadura de sempre da magreza, dietas e mais dietas, os novos cremes, os novos plastificadores de pés-de-galinha, os novos milagres, frescura da porra, tudo para que las chicas fiquem publicitariamente gostosas no verão dos tristes trópicos.
Para homem que aprecia mesmo a espécie, já sabemos, isso não tem a menor importância. Claro que é bom se cuidar, mas ai estamos falando de saúde, uma caminhada aqui, um remo no Capibaribe, um timbungo na piscina, num poço, uma fodinha salgada e anônima nos mares nunca dantes, uma cerveja antes do almoço falando sobre livro novo... e uma sesta depois que ninguém é de ferro.
Como já alertou esta tribuna, homem que é homem não sabe a diferença entre estria e celulite. Também não aceita rebocos e milagres de última hora _emplastro milagroso e aceito em nossos mocós-salós só mesmo aquele do Brás Cubas, o machadiano, digo. Mais vale uma boterinha com sex appeal, tomando uma cerveja com moqueca, sarapatel [lua de mel em Salvador ôôô!], canapés universais, fogazzas de San Pablo, mais vale uma cheinha gostosa numa adega carioca, mais vale uma gaúcha tocando o terror, na costela, no bafo,no bolicho... Mais vale uma mulher na qual se tenha o que pegar, além muito além do rádio,tíbia e perônio que nos mostram os esqueletos dos nossos velhos livros de ciência do primário.
Mais vale uma cheinha criada da costela do deus Robert Crumb do que uma caminhão de ossos do São Paulo Fashion Week.
Escrito por xico sá às 16h00
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O DIREITO DE IR E VIR NA MESMA PALAVRA
a nova tatuagem vingada no lençol como xilogravura de nódoas, o sanguinho novo, Arnaldo Baptista na dor carnaúba do vinil na agulha, a linda poça no taco, brincamos mas no fundo marcas... isso é arte, la fura dels baus, catalúnias & arrecifes & cratos, la fúria dels baus... e o futuro é a casca de banana de sempre no escuro do quarto do amor que é sempre cego mesmo no mó-claro, amo teus erres rrrrrrrrrrrr que roem como um rato a roupa que encobre o desejo do rei de roma e de todos os nossos palíndromos, bifrentes e anacíclicos, socorram-me que já estou em Marrocos!
Escrito por xico sá às 03h05
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REVELOU-SE A SUA ENORME INGRATIDÃO
Um perigo para os adúlteros, traidores ou simples e bissextos puladores de cerca essa coqueluche das maquininhas de fotos digitais. Elas estão por toda parte, festas, restaurantes, bares, eventos... Como estão embutidas também nos celulares, a brigada moralista, que também é onipresente, pode muito bem enviar na hora, na bucha, para o email da suposta vítima do chifre, o flagrante delito. O horror, o horror, o horror moralista.
Isso é o que se pode chamar, à vera, de tecnologia de ponta.Muito melhor e eficiente do que as velhas cartas anônimas por meio das quais os Bovarys e as Bovarys de antigamente eram denunciadas. As missivas, aliás, hoje foram substituídas pelos hotmails anônimos da vida.
Mas nada como a fotinha, embora possa dar em muita confusão sem sentido ou lastro de verdade. Dependendo da malícia e do enquadramento do componente da brigada vitoriana, por exemplo, um simples beijo mais perto da boca pode render um rebuceteio dos diabos. Um olhinho fechado _às vezes por descuido ou fadiga do trabalho e os dias_ pode ser o fim do mundo. Uma tragédia amorosa sem precedentes nas páginas policiais. Cenas de sangue no bar...
Pior é que, além dos delatores de plantão _velhos calabares do amor_, há ainda o efeito Blow Up. Lembram do filme de Antonioni? Na fita, um fotógrafo revela, sem querer, um crime que estava rolando no exato momento em que disparava sua câmera para tirar o retrato de pessoas em um parque. O crime estava por trás do beijo de um casal, se a memória carcomida pela maresia não me trai Os fotologs, estes álbuns pendurados na internet, são mestres no efeito Blow Up. Você vai ver as fotos de uma festa e, pimba, lá está o(a) amado(a) em caliente fuça-fuça ou, pior, nos braços de um(a) outro(a) qualquer, como na lírica de nervos de aço de Lupicínio.
É, acontece. Infelizmente as maquininhas estão soltas por ai, sempre revelando, como na canção bossanovista, enormes ingratidões. Antes os bons tempos da filosofia de pára-choque, como leio agora naquele caminhão que passa aqui na minha frente: “O que os olhos não vêem o coração não sente”.
Escrito por xico sá às 13h24
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