o carapuceiro



COMO ELIMINAR UM AMANTE

O leitor aflito me escreve. Quer ajuda, conselhos, alguma filosofia de consolação, ombro, ouvidos... Qualquer adjutório serve. Uma alma penada. Ainda mais no apagar das luzes do ano velho, quando a vida veste os seus bicos e babados mais bregas e sentimentalóides.

Havia aposentado a Miss Corações Solitários que acode as vítimas dos infortúnios e tsunamis do amor. Diante do apelo do amigo, não há como deixá-lo a mascar o jiló do abandono neste “já vai tarde” de 2006.

Está desconsolado, como o Sizenando de Rubem Braga, que viu a amada cair nos braços de um playboy. Um idiota que não sabia sequer uma palavra de esperanto.

A vida é triste, Sizenando, como soprou-lhe o cronista.

Com Amaro, chamemos assim o nosso ensaio de Bentinho, não foi diferente.

Quis o destino parafusar-lhe objetos pontiagudos à testa.

Sim, ela tem um amante. Daqueles amantes que se encontram à tarde, num intervalo qualquer, no recreio da vida chata.

Nem foi preciso contratar o detive particular, conta-me o nosso Amaro. Ele mesmo fez as vezes de cão farejador de sua própria desgraça.

Que fazer?, indaga, num email no qual até a arroba bóia em poças de lágrimas.

 Mato o desgraçado?

Tiro a vida da desalmada?

 Vou-me embora pra Tegucigalpa?

 Salto mortal da ponte Buarque de Macedo?

Um trágico, esse rapaz. Como os de antigamente. Amaro é do tempo em que os homens coravam. Ainda tenho vergonha na cara, envaidece-se o próprio.

Sossega, Amaro.

O melhor que fazes, respondi ao marido em fúria, é sumir por uns dias, inventar uma viagem, e dar todo tempo do mundo ao infeliz desse amante.

Banalizar o amante, meu caro e bom Amaro.

Entendeste?

Deixar que eles durmam e acordem juntos. Que tenham seus problemas, que percam o luxo dos encontros fortuitos e vespertinos.

É necessário deixar a Bovary sentir o bafo matinal da rotina.

A vida dos amantes dura porque eles só vivem as surpresas e valorizam cada minuto do relógio que põem sobre a cabeceira daquele motel barato.

Nada mais cruel para o amante da tua mulher que presenteá-lo com o pão-com-manteiga do dia-a-dia. A rotina é o cavalo de tróia do amor.

Amaro, nada de violência ou besteiras desse naipe.

 Ao amante, todas as chances do mundo. Ao amante aquela D.R., a famosa discussão de relação, em plena TPM.

Um amante nunca sabe o que venha ser uma mulher sob o domínio da TPM. Ela faz questão de reservar todos os direitos desse ciclo ao pobre marido.

Ao amante, Amaro, a tapioca fria e sem recheio da rotina do calendário.

Ao amante, Amaro, a falta de assunto.

Ao amante, os cabelos revoltos da mulher, naqueles dias em que nem mesmo ela se agüenta ou encara o espelho. Naqueles dias em que os cabelos brigam com as leis do cosmo e não há pente ou diabo que dê jeito.

Some, Amaro, depois me conta.

 



Escrito por xico sá às 23h59
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MISS CORAÇÕES SOLITÁRIOS RESPONDE

Diante de apelos e mais apelos de almas penadas, rapazes sensíveis, raparigas sadomasoquistas, boyzinhas no viço e balzacas de todos os caritós, está de volta Miss Corações Solitários.

Para quem não lembra, M.C. Solitários é uma é uma cigana da Andaluzia que hoje habita um quintal do Capibaribe e, com a sua poderosa entidade, socorre machos & fêmeas à beira de um ataque de nervos... ou simplesmente portadores do inapagável (sic) fogo nas entranhas, como diria aquele menino de nome Pedro Caballero Almodóvar.

Às cartas, pois, que as almas estão aflitas:

 

***

 

Mui amada e necessária M.C. Solitários, eu ganhei de presente de uma amiga um singelo livro chamado o “O kama sutra do sexo oral”  e gostaria imensamente de aplicar umas lições em um rapaz que estou conhecendo melhor. Como dar um “beijo negro” nele sem o guri me interpretar mal? Como “preparar o terreno”, se é que tu me entendes? Como proceder? Socuerra-me justiceira, ô meu analgésico genérico de todas as horas. Ass. Eu profundo e ou outros eus, Alto do Boqueirão, Curitiba.

 

Resposta: Ora, ora, tolinha, a lição que pedes, como quase tudo nessa vida, está numa canção do Roberto, a grande educação sentimental de nosotros. Repare direitinho, está tudo lá, em Cavalgada, escuta só: “Usar meus beijos como açoite/ E a minha mão mais atrevida”.  Mas vai com delicadeza, que é mais gostoso, como diz o mantra das Virgens de Olinda. Cariño, tua M.C. Solitários  

 

**

 

Privilegiada e abençoada M.C. Solitários, serei breve, pois o meu problema é um pouco pesado para me expor assim em público. Acontece que meu marido se recusa a bater em mim, por mais que peça, clame, rogue aos céus, chore aos seus pés, implore. E sem apanhar, normal que sou, não faço amor direito, não faço amor que preste. Que fazer para despertá-lo? Tem jeito, sábia cigana? Ass. Justine, Consolação, São Paulo (SP).

  

    Resposta: Minha criança, esse camarada se “androginou”, como diz o lírico samba de Luiz Ayrão. Esses homens estão perdidos, a tal da crise do macho, já ouviste algo sobre? Não servem nem mais para nos esquentar as faces com os estalidos de uns bons e sugestivos tapas. Pra mulher apanhar hoje em dia só freqüentando aulas de boxe como sparring. Na alcova, jamais. Uma lástima. Nem pagando a gente consegue. Ficou tudo tão metrossexual, tudo tão politicamente correto que nem mesmo no sertão a gente encontra mais um Virgulino para nos dar uns tabefes no toitiço. Filha minha, te aconselho: largue esse traste. Se homem que não bate em mulher fosse bom eu tinha me casado com Mahatma Ghandi. Si, numa mulher não se bate nem com uma flor, como dizia Florbela Espanca, mas ai estamos a falar da violência física, totalmente condenada por esta que vos sopra as chagas da existência.Cariño, M.C. Solitários.

[Escreva você também para nuestra cigana!]



Escrito por xico sá às 14h55
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SESTA: MODO DE USAR*

Como é bom tirar uma sesta, abaixar a cortina e dar um risinho safado para o capital que se esborracha lá fora; como é bom, mesmo para um falido, ajeitar os travesseiros –de palha ou de pena de ganso- e cerrar os olhos para sonhos pequenos. Uma sesta à sombra da toda-poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, aqui perto do meu esconderijo; uma sesta com as janelas abertas na rua da Aurora, a rua mais linda do mundo, de onde avista-se Beberibes, Capibaribes, Áfricas, Tongas e Polinésias...

 

A minha siesta ibérica, como na origem do costume, lá no Juazeiro e Crato. Como é bom tirar uma sesta com uma nega enroscada aos pés, sono leve de conchinha, colherzinha e quetais. Mas os dois precisam estar no espírito da sesta. Uma alma em desassosego acaba com qualquer sesta, sesta-de-favor não vale, sesta carece de savoir faire... Um gato ali pelas nossas costelas –opa!, um felino de carne e osso, um bichano- que delícia.

 

Numa sesta não vale sonhos épicos, apenas sonhos pequenos, daqueles que a gente realiza num piscar de olhos. Ou simplesmente deixa para lá. Ridículo correr desembestadamente atrás de sonhos. Sonhos são filmes grátis, que vemos deitadinhos, sem o barulho ridículo de pipoca ou de gente.

 

 “Ei, morena linda que passa, vamos ao cinema?” Ai trago ela para a sesta. Cinema é travesseiro e pezinho colado.

 

Os sonhos são feitos pelos cineastas mortos, jeito de ocupar-lhes no purgatório. Coisa da aliança espúria de Deus e do Diabo.

 

Sesta: modo de usar. Quanto dura uma sesta? O ideal é que não se faça o uso do despertador,  que não seja um curta-metragem, que seja um filme que se durma nele inteirinho, que se beije o olho de quem dormir primeiro, como sempre guardo as mulheres, até com uma rezinha baixinho para nunca acorda-las e sempre protege-las, ô Deus guarde essa costela colada à minha e que esse suorzinho seja o superbonder possível, a resina mais grudenta, que nos livre do fim, amém. Mas o amor acaba, meu filho, sopra um anjo pousado no ombro de Paulo Mendes Campos, que me diz baixinho, sossega, menino, esse coração.

 

A sesta com a bênção das mulheres e da minha mãe. “Meu filho, durma pelo menos uma meia horinha depois do almoço”. Minha mãe chorava, no dia em que fui embora, mas nada dizia além da receita da sesta. Mulher de coragem: deixar aquele graveto, só o couro e o osso, ganhar a estrada apenas com uma rede que ela botou no fundo da mala...

 

Como eu queria achar de novo essa rede e tirar a maior das sestas, mas troquei por alguma coisa, vício, comida,  sei lá, entre uns desalmados de um cortiço do Recife, num sótão ali na Barão de São Borja. Até quando a usei, era uma rede que balançava lágrimas e meus chinelos sempre acordavam boiando de manhã.

 

[texto republicado a pedidos, dois anos depois da sua postagem original. uma versão do mesmo faz parte da antologia de crônicas "Boa Companhia", 2005, SP, ed. Companhia das Letras]



Escrito por xico sá às 11h34
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