SÓ A LAMA CURA -SEGREDOS DA AUTO-AJUDA PUNK-BREGA (I)
[Dedicado e a pedido dos amigos que no momento chupam o frio chicabon da dor amorosa... e não são poucos]
O mantra é esse, pombinhos desgarrados e estraçalhados pelas agruras do amor: “Só o caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria”. Assina que é o verso é teu, velho William Blake.. Ou seja, numa livre tradução para a nossa baixaria de vida de hoje: SÓ A LAMA CURA!
Seu guarda, eu não sou vagabundo, sou um cara carente, estirado aqui na praça Roosevelt, com o meu próprio teatro do absurdo no bolso, pensando nela!
Seu guarda, acabei de chorar lágrimas caubói _não os da montanha, mas os vaqueiros do asfalto_ no porão com Wander Wildner, que cantava as suas dores de trovador punk brega.
SÓ A LAMA CURA!
Leve a sua dor para as ruas, seus bares/seus mares, nade com ela no seco por debaixo das mesas, exponha-se, seja a vitrine de suas próprias escoriações, não se envergonhe, molhe o ombro do garçom amigo, derrame uma para o santo e entorne a próxima bagaceira com gosto de sangue e luto.
Se a vida dói, drinque caubói.
Wander Wildner, o que nossa dor idiota vai ser quando crescer? Rato de porão, rato de porão.
Cubra-se do negro do luto e qual um espadachim caricato leve a sua dor para um rolê nos subterrâneos da cidade. Quando estiver bem torto, ria da sua dor como um bêbado se diverte com a sua própria sombra em farrapos.
Auto-ajuda punk: não glamourize tanto a sua dor, tire onda, o amor é assim mesmo, como me disse um dia, num botequim imginário, um escriba italiano cheio das grapas: um beijo,dois beijos, três beijos, quatro beijos, cinco beijos... cinco beijos, quatro beijos, três beijos, dois beijos, um beijo... e FIM e pronto.
Escrito por xico sá às 01h53
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DA SONECA E DOS SEUS PEZINHOS GRUDADOSSSSSSS
Como é bom tirar uma sesta, abaixar a cortina e dar um risinho safado para o capital que se esborracha lá fora; como é bom, mesmo para um falido, ajeitar os travesseiros –de palha ou de pena de ganso- e cerrar os olhos para sonhos pequenos. Uma sesta à sombra da toda-poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, aqui perto do meu esconderijo; uma sesta com as janelas abertas na rua da Aurora, a rua mais linda do mundo, de onde avista-se Beberibes, Capibaribes, Áfricas, Tongas e Polinésias...
A minha sesta ibérica, como na origem do costume, lá no Juazeiro e Crato. Como é bom tirar uma sesta com uma nega enroscada aos pés, sono leve de conchinha, colherzinha e quetais. Mas os dois precisam estar no espírito da sesta. Uma alma em desassosego acaba com qualquer sesta, sesta-de-favor não vale, sesta, siesta, carece de savoir faire... Um gato ali pelas nossas costelas –opa!, um felino de carne e osso, um bichano- que delícia.
Numa sesta não vale sonhos épicos, apenas sonhos pequenos, daqueles que a gente realiza num piscar de olhos. Ou simplesmente deixa para lá. Ridículo correr desembestadamente atrás de sonhos. Sonhos são filmes grátis, que vemos deitadinhos, sem o barulho ridículo de pipoca ou de gente.
“Ei, morena linda que passa, vamos ao cinema?” Ai trago ela para a sesta. Cinema é travesseiro e pezinho colado.
Os sonhos são feitos pelos cineastas mortos, jeito de ocupar-lhes no purgatório. Coisa da aliança espúria de Deus e do Diabo.
Sesta: modo de usar. Quanto dura uma sesta? O ideal é que não se faça o uso do despertador, que não seja um curta-metragem, que seja um filme que se durma nele inteirinho, que se beije o olho de quem dormir primeiro, como sempre guardo as minhas mulheres, até com uma rezinha baixinho para nunca acorda-las e sempre protege-las, ô Deus guarde essa costela colada à minha e que esse suorzinho seja o superbonder possível, a resina mais grudenta, que nos livre do fim, amém. Mas o amor acaba, meu filho, sopra um anjo pousado no ombro de Paulo Mendes Campos, que me diz baixinho, sossega, menino, esse coração.
A sesta com a bênção das mulheres e da minha mãe. “Meu filho, durma pelo menos uma meia horinha depois do almoço”. Minha mãe chorava, no dia em que fui embora, mas nada dizia além da receita da sesta. Mulher de coragem: deixar aquele graveto, só o couro e o osso, ganhar a estrada apenas com uma rede que ela botou no fundo da mala...
Como eu queria achar de novo essa rede e tirar a maior das sestas, mas troquei por alguma coisa, vício, comida, sei lá, entre uns desalmados de um cortiço do Recife, num sótão ali na Barão de São Borja. Até quando a usei, era uma rede que balançava lágrimas e meus chinelos sempre acordavam boiando de manhã.
Escrito por xico sá às 01h49
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ELOGIO DA MAQUIAGEM
Há muito tempo, muito tempo mesmo, muito antes dos nossos avós, já havia a polêmica: a mulher deveria recorrer ou não aos recursos artificiais para embelezar-se, livrar-se dos pés de galinha e travar a peleja contra a foice do tempo, como já dizia Shakespeare?.
É deveras uma das questões mais enrugadas da humanidade, que agora alcança o seu momento máximo, em tempos de Botox e até transplante de rosto, em episódios extremados. Em meados do século XIX, o poeta Charles Baudelaire, gênio dos gênios, já fazia um chamado para que as fêmeas superassem as “imposições” da natureza.
“A mulher tem o direito, aliás, ela está até mesmo cumprindo uma espécie de dever, quando se dedica a parecer mágica e sobrenatural”, pregava no seu breve ensaio “Elogio à maquiagem”. Segundo o francês, um dos inventores do que chamamos hoje de modernidade, não importava qual fosse o truque feminino, o que valia era o seu efeito irresistível.
Ovídio, mais das antigas ainda, como sempre me lembra Miss Soledad, também gastou o latim com a polêmica da cosmética.
Estariam o velho Charles e o escriba romano mortos de felizes nos tempos que correm?
E vocês, meus amores, que acham? Opiniões serão bem-vindas. E fica ai em BG, Marina morena, um plá direto da rede do glorioso Caymmi, com barulhinho das ondas ao fundo...
E para complicar mais ainda as coisas por estas bandas, sampleio um velho catecismo de devoções, adonde se lê, crônica de costumbres:
Nada de acreditar nessa historinha de “você já é bonita com o que Deus lhe deu!” Dorival, saravá meu pai!, é uma beleza de homem, sábio, mas esse verso, aqui neste momento, não soa bem aos ouvidos. Pinte esse rosto que eu gosto e que é só seu. Com todos aqueles lápis que lhe fazem uma criança brincando de colorir o desejo tenha ou não tenha um belo cavaleiro no seu horizonte.
Escrito por xico sá às 02h24
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