VAMOS ESTRAGAR ESSA AMIZADE?
Num traveling maluco da paudurescência matinal minha câmera fixou-se em você. Você mesma, sim, você ai de vermelho, sua orelha não coçou, menina?, se liga! Num traveling havia percorrido, câmera velozzzzzz da porra, o bairro, a dama do cachorrinho, as coxas das noites anteriores, o olhar vesgo de Laika perdida no espaço, miss Soledad suada numa pista, os peitos naquele táxi, as pegadas depois dos conhaques, a musa do expresso Oriente... Até que a câmera fixou o obscuro objeto de desejo, você dizia “somos muito amigos, seu maluco”, eu dizia, na minha pose de ator treinado no Actor´s Stúdios, que nada, isso não é problema: vamos estragar essa nossa linda amizade!?
Escrito por xico sá às 10h50
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ASSOMBRAÇÕES DE UM MACHO-BREXÓ
Definitivamente não é do mundo dos vivos tal criatura. Veste-se com charme, claro, essa é a idéia estratégica. Mas o problema é outro: o defunto, como dizia minha mãe, era sempre maior que o novo dono. Sempre sobra pano na ponta dos dedos ou tergal na boca das calças, mesmo as nostálgicas bocas-de-sino.
Mas o que derrota mesmo é o mal-assombro. Você, nobre gazela, lá com o mancebo, no bem-bom do mundo horizontal, e a assombração no cabide. A sorrir, caso os pertences tenham sido de um defunto cínico qualquer – um leitor de Sêneca e amante da brevidade da vida, pois, pois.
A calça pendurada assistia tudo e, ao contrário do que canta Roberto, dizia muito. A camisa listradinha, preto e branco de tanta elegância, também falava pelos cotovelos puídos, sovacos eruditos de tanto carregar livros, livros de sebo, pois o camarada aprecia mesmo artigos de segunda mão, detesta produtos novinhos em folha.
A quem terá pertencido tal roupa? Ao padeiro, ao sapateiro, ao dono da marcenaria, ao relojoeiro, ao amolador de facas, ao Bolinha (lembram as camisas psicodélicas do apresentador de auditório?), ao homem normal do 308 – os homens normais moram sempre no terceiro andar, já repararam?
O homem-brechó, este tipo urbano que sempre compra suas roupas de segunda mão, leva, irremediavelmente, o ex-dono dos pertences para a cabeceira da cama. Os vivos e os mortos. Os sapatos passeiam pela casa das moças na madrugada. Juris esperneandi.
É tudo muito Cherteston, aquilo escriba mal-assombrado cujo detetive Padre Brown examinava os mistérios das vestes do além. É um colete de um viúvo tarado – só os tarados anormais usam coletes. É o casaco de um franco-atirador a nos meter encorajados pra o amor?
Ora, ora, se um algodão novinho em folha, que ontem lá no campo ainda era flor, como na canção, já nos chega com os fantasmas e espantalhos das dores da roça e do mundo, imaginem, amigos, um velho e puído veludo azul, golas do desmantelo, como em “Blue Velvet”.
Confesso, mancebos e gazelas, esse relato é uma missa de corpo presente: até anteontem eu era um autêntico macho-brechó. Depois do que presenciei na madrugada, nunca mais, ajudado pelos delírios da abstinência alcoólica, vade retro belzebu. Aquele par de sapato lustrado, bico fino, clássico, a bailar sozinho um tango, coreografia mais trágica, deus mio, ainda arrepio só de lembrar a dança macabra. Não, meu amigo, pelo menos naquela assombração, o tango argentino não me caía bem melhor que um velho blues.
Escrito por xico sá às 10h11
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