OLHOS NÃO SE COMPRAM
Do cinema lindo & phoda de existir e de como uma mulher pode encantar nos detalhes de nós dois. Quando ela pede pra gente virar os olhos ou fechá-los bem fechados. Só enquanto troca a calcinha, vupt, o barulhinho do elástico, mesmo com toda intimidade desse mundo, às vezes intimidade de anos, vale, vale. Só enquanto troca o sutiã, biquíni, parte de cima, ajeita a parte de baixo, areia do doce balanço da beira dos mares, só enquanto tira uma toalha do banho, primeira viagem, só enquanto está lindamente menstruada e quer guardar-se, embora saiba que atravessamos com amor e gosto todo o seu mar vermelho e ainda mais mares aparecessem a cada mês. “Feche os olhos”, diz. “Vira o rosto”, safadeza-se, diva sob seguras telhas. Só para manter o suspense do cinesmascope debaixo do mesmo teto. “Pronto, pode olhar”. Ai ela ressurge mais linda ainda, cabelinhos molhados, com aqueles cremes todos da Lancôme ou com simples sabonetes Dove ou aqueles de nove em cada dez estrelas de Hollywood, Lux, deluxe, eu morro nesses lapsos de tempo, elipses do desejo, frações de segundo que são eternas de olhos fechados para quem meus olhos na terra, que há de comê-los inté os aros dos óculos e as safenas, mais abriram e justificaram seu brilho castanho mesmo em dias de torpor e existência de pára-brisas lusco-fusco.
Escrito por xico sá às 19h47
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ACONTECE QUE O MEU CORAÇÃO FICOU FRIO...*
Esquece o nosso amor, vê se esquece, porque tudo na vida acontece... Acabei de ver pela terceira vez o “Cartola”, e eu ainda acho é pouco, amanhã certamente volto de novo, eterno retorno imediato, precoce, na sessão de cinema das cinco, pra sujar a camisa branca na boca da menina do batom mais lúdico, batom vermelho, o batom do crime vespertino, como me recomendou o sobralense beatleamaníaco Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, el bigode mais lírico de latinoamérica, por supuesto.
Que filme, rapazes e raparigas! Coisa fina, de chorar, de sorrir, mas isso acontece, simples como na vida, como na cachaça, como manifesto de criança, como quem sabe que às vezes dá um branco na existência, como aquele da fita, o interlúdio, o entreato, a hora em que morre a fama e fica o homem, lá no seu caramujo, no ostracismo de Itapissuma, para voltar depois, mais louco ainda, ô, mais fortes são os poderes de Sísifo.
Hilton Lacerda e Lírio Ferreira, os diretores, meus amigos, amigos mesmo, detesto esse mito fraudulento da imparcialidade babaca do jornalismo, fizeram um filme lindo, que orgulho! Porque hoje em dia é quase proibido se comover as elegias afetivas, é quase proibido beijar na boca, é quase proibido dizer “eu te amo,porra!”. Tempos assépticos e indiferentes, todo mundo com vergonha da mínima baixaria possível, todo mundo falsamente casto e pecando por debaixo dos figurinos de Maria Antonieta.
“Cartola”, música para os olhos, é um documentário importantíssimo na educação sentimental dos novos machos. Vale por um madureza ginasial completo, vale por um PhD, um mestrado na Sorbonne, vale por mostrar que a vida não é tão-somente um roteirinho de triunfos e ganhos óbvios, a vida pára, a vida dá branco na projeção das coisas como minha avó Merandolina confusa da vista e a chamar o seu neto preferido para enfiar a linha no buraco da agulha, a vida engana na curva como a sombra da imagem do trem sobre o casario suburbano do filme.
A vida é um menino-sépia que salta de um quadro de uma sala à beira da linha férrea e se faz Cartola na linda fotografia do flamenguista Aloysio Raolino.Aquele menininho-sépia, retrato do artista enquanto jovem vira-lata, que pode fugir de qualquer quadro de casa de família, como aquele que vi agora na casa do meu tio Adalberto, na vila do Triunfo, Nova Olinda.
Tive sim, outro grande amor antes do seu... É assim mesmo a letra? Mas na última sessão que vi o que mais me comoveu foi o amigo Junio Barreto, o mais doloroso e lindo dos sambistas contemporâneos, cantando baixinho aquela que diz mais ou menos assim... vocês me corrijam se errei no verso, sou péssimo para cantar a palo seco: “É impossível nesta primavera, eu sei/ Impossível, pois longe estarei/ Mas pensando em nosso amor, amor sincero/ Ai! se eu tivesse autonomia/ Se eu pudesse gritaria/ Não vou, não quero/ Escravizaram assim um pobre coração/É necessário a nova abolição/ Pra trazer de volta a minha liberdade/ Se eu pudesse gritaria, amor/ Se eu pudesse brigaria, amor/ Não vou, não quero...”
*crônica publicada originalmente na coluna "modos de macho & modinhas de fêmea", q circula no Diário de Pernambuco, O Estado do Paraná, Diário do Nordeste, entre outros.
Escrito por xico sá às 13h38
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