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ANOTAÇÕES NO GUARDANADO PARA ALMOÇO DOS PAIS
Eu queria ser Bill Murray. Em Flores Partidas do Jim Jarmusch. Indo em busca do filho que talvez não tenha tido. Bill Murray parado. Não diga que silêncio; diga “não ouço nada”. Bill Murray on the road, no sossego, na moral e na elipse. A máquina de escrever cor de rosa, a motocicleta cor de rosa, flor de obsessão, rosa. Bill Murray dom Juan em fim de feira _a festa acabou, José, para onde?_ e a carta anônima, o vizinho Sherlock com ácido, a busca do rebento que não teve, teve?, não importa. Eu queria ser Bill Murray diante daquele gato, nem carecia a Sharon Stone, o gato feito à imagem e semelhança de Bill Murray, felino metafísico da porra. Ali, dizendo, o gato: “Você veio aqui, velho Bill, com segundas intenções, não, não sou teu filho, hombre”. Eu queria ser Bill Murray naqueles sonhos, a reprise. A lolita na vitrine, Lola, bundinha americana, mas safada, é o que vale. Bill Murray vaga pela América, ô, mas num me venha com essa de metáfora da América, apenas uma história sem final, como todo enredo de busca, como a própria cara de Bill Murray que se procura. Eu queria ser Bill Murray emparedado na quarta parede, sem foco.
Escrito por xico sá às 13h13
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QUANDO O LUSCO-FUSCO TE ROUBAVA
<da série contos fatais>
Um buraco vazio sem nome tinha-se instalado na parte posterior do meu cérebro depois de um estranho sonho com Antonin Artaud. Artaud estava sem ópio e blasfemava. Por que o mundo deixa um homem como Antonin Artaud sem ópio se bem sabe, como havia alertado o próprio, que o autêntico toxicômano não se abastece na farmácia muito menos no trafica. Sentia que o buraco se alargava numa erosão pontualíssima: sempre que o relógio batia seis da noite. Era quando o lusco-fusco te roubava dos meus olhos, eu chutava o velho rádio que tocava a ave Maria de Schubert ali em cima dos sacos de estrume, e aquela idéia fixa dependurada na ponte de safena bombeava o sangue encorpado que corre nas veias dos perdedores. Tentava te apagar como naquele filme que havíamos visto juntos de mãos atadas, “Brilho de uma mente sem lembranças”, tentava ficar parado num canto, imóvel, fixo, naquela inércia que só um louco à vera é capaz. Fazia força, os dentes rangiam, tanta força que as botas rasgavam o chão, cratera por todos os cantos da casa e ruínas que não nasciam apenas do delírio, lá mesmo estavam, trouxe aqui esses pedaços, doutora, como prova definitiva. Esta é a foto dela, doutora, sim, polaroid, ela cometeu a maior das traições. Quebrou o nosso trato. Tínhamos lugar marcado e tudo, e não seria no crepúsculo. O acerto, repare aqui nesse caderno que lindo o nosso acordo por escrito, assinado com o sangue dos polegares durante uma bela viagem ao redor da nossa própria casa. Como a gente ria olhando aquelas vaquinhas alteradas pela nossa consciência. Sim, esse era o nosso sítio, onde nos exilamos depois da descoberta que não carecíamos mais das rodas sociais da cidade. Teríamos que nos esconder para gastar o nosso amor que não era nada pouco. Em noites de vagalumes apagávamos todas as luzes, acendíamos um e chorávamos, chorávamos... Repare nosso trato:“(...)E quando sentirmos que nada é mais intenso do que o nosso amor nesse mundo(...)” Ela quebrou nosso trato e agora nem mais a morte faz sentido, só esse buraco enorme que Artaud, na miséria da abstinência, me mostrou em sonho. Ela quebrou nosso acordo de morrermos juntos com uma dose de algum hipnótico não-barbitúrico, conforme deixou pistas no livro marcado à página 244*, uma edição que havíamos comprado em Lisboa em viagem de lua de mel, no ano de 1995.
*Guillon, Claude; Le Bonniec, Yves. Suicídio – Modo de Usar, história, técnica, notícia. Edições Antígona, Lisboa, 1990.
Escrito por xico sá às 23h34
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DOENÇA CRÔNICA -VIDE BULA (I)
Algumas saem fáceis, como aparentam aquelas de Rubem Braga, como uma polaroid, uma pose digital, olha o passarinho, diga xis, um sabiá teimando contra o barulho da metrópole, fáceis como beijos roubados de mulheres difíceis, na dança, na pista, uma moleza, como empurrar bêbado em ladeira, como Vinícius no elogio de uma saboneteira, como descer para um café ou uma cerveja aqui na esquina da Augusta, como quem costura para fora, mesmo sabendo quanto custa a mais-valia da musa da encomenda, mesmo sabendo que na vida não tem almoço de graça, muito menos sobremesa, mesmo sabendo que a vida não é café pequeno, mesmo sabendo que no fundo da xícara, na borra mais árabe, o desenho do futuro, Etelvina, é obscuro, o jogo do bicho, Etelvina, ainda não permite o teu luxo, a vida, minha menina, é cronicamente inviável.
Escrito por xico sá às 12h04
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UMA VIDA DE SEGUNDA OU CRUZANDO O PARAÍSO
Ainda na cama, morphine toca “buena”, aquela, faço as promessas da semana e os três desejos de segunda.
Saio do escuro e mendigo um naco de sol, bem-aventurados os lagartos que nadam no seco.
Esta semana eu te quero, eis o primeiro e talvez único desejo. Não vale dizer “eu não tenho roupas”, daqui vejo o desespero diante do armário lotado, que venhas só de botas mesmo que serás um presente para todos os vagabundos da noite.
A tira do Laerte antes do horóscopo. Esse cara tá foda, uma fase que nunca acaba.
Dois bules de café amargo, cream cracker, manteiga Marlon Brando, de lata, duas ou três coisas que nunca saberemos de nós dois sobre todas as outras coisas sem importância.
Os caras morreram, agora nos demos conta, inclusive Antonioni, mas nós estamos apenas de ressaca, amor, essa dengue sartriana da moléstia, calma ai, calma ai, sem desespero, ao lusco-fusco estaremos tinindo de novo.
Nuestros horóscopos para agosto, mas como agosto se agosto, Bárbara Abramo, caiu em julho este ano?
Ao sair não bata a porta, deixa aberta para que o vento devolva o teu cheiro e eu goze mais uma vez antes que dobres a esquina do Paraíso.
Escrito por xico sá às 10h57
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