o carapuceiro



A ARTE DA CANTADA PERMANENTE

 A cantada, amigos, é como a revolução de Mao Tse-Tung, tem que ser permanente.

Existem mulheres que a gente canta no jardim da infância para dar o primeiro beijo lá pelos treze, quatorze.

Mas é necessário que a cante sempre, não aquela cantada localizada, neoliberal e objetiva, falo do flerte, do mimo, do regador que faz florescer, como numa canção brega, todos os adjetivos desse mundo.

A cantada de resultado, aquela imediata, é uma chatice, insuportável, se eu fosse mulher reagiria com um tapa de novela mexicana, daqueles que fazem plaft!

A boa cantada é a cantada permanente.

E mais importante ainda depois que rolam as coisas, depois que acontece, aí a cantada vira devoção, oração dos pobres moços a todas elas.

Porque cantar só para uma noitada de sexo é uma pobreza dos diabos, qualquer um animal o faz.

Porque cantar, à vera, é cantar todas e não cantar nenhuma ao mesmo tempo.

Explico: é espalhar pacientemente a devoção a todas as mulheres como quem espalha sementes nos campos de lírios.

Mesmo que elas digam, com aquele riso litografado na covinha do sorriso, que você diz isso para todas.

E claro que para cada uma dizemos uma loa, fazemos uma graça, não repetimos o texto, o lirismo, o floreado.

Porque amamos mesmo as mulheres.

Cantemos indiscriminadamente, e que me perdoe o velho e bom Vinícius de Moraes, mas cantemos sobretudo as ditas feias, esse conceito cruel e abstrato de beleza. Elas merecem, até porque as feias não existem, nunca conheci nenhuma até hoje.

Não por sermos generosos, piedade, ou algo do gênero... É que a dita feia, quando bem cantada, vira a superfêmea, para lembrar a bela pornochanchada com a Vera Fischer.

A cantada permanente e indiscriminada é irresistível, quando você menos espera, acontece o que você tanto sonhava.

Sim, tem que ter o cuidado para não ser simplesmente um chato que baba diante do melhor dos espetáculos, a existência das mulheres.

Ter que cantar sempre a mesma mulher e parecer que está apenas de passagem, que o estribilho é sempre novo, nada de larararás que mais parecem refrões do Sullivan e do Massadas, lembram dessa dupla de músicas chicletosas?

Ah, digamos que você cantou a Sônia Braga ainda naqueles tempos em que Gabriela subiu com aquele vestidinho no telhado –a cena mais quente da teledramaturgia brasileira até hoje- e e continuou cantando, sempre, sutil e sempre, e agora ela, passados tantos calendários, se comove e resolve recompensá-lo! Vai ser lindo do mesmo jeito, não acha? Na tela do nosso cocoruto vai passar o videotape de todos os desejos antigos e despejados no ralo pela morena cravo & canela.



Escrito por xico sá às 23h13
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O INFERNO SOBRE BOTAS

Uma mulher ainda sem nome, pernas não tão grandes pero alongadas por lindas botas, ojos cortados com navalha buñuelística...

Esta mujer está por perto, sinto que bafeja a nuca de todos os homens de la calle.

Talvez em sonho, talvez em desejo envelhecido em barris de bálsamo.

Traz marcas no corpo de agulhas de fábricas coreanas e um tatuagem mal-feita de Bolívar.

O nome de um filho também tatuado em perfeita caligrafia de um pai que se perdeu na selva escura de Cochabamba.

[Juan, eis o batismo do chico].

Não, ela não está triste, mesmo ouvindo uma canção desesperada de La Lupe com fiozinhos brancos enterrados no ouvido.

“Teatro, tu és puro teatro...”

Agora ela ouve Johnny Cash ladeira arriba.

Cry,

Cry,

Cry...

 

 Quem toca agora é Iggy Pop, Candyyyyy...

 (...)

Uma guarânia, recuerdos de Ipacaray...

 (...)

Ah, se já perdemos a noção da hora...

Ela chora, tem motivos, com Chico Buarque de Hollanda.

 (...)

Agora como se o lindo rabo fosse la rendeción da existência, rebola com arte sobre os saltos com Walk On The Wild Side...

Ela ouve, sem maiores pretensões, um cozidão da sua existência.

A vida é cafona, dolorosa, perdida e moderna como una canción de Roy Orbinson numa película:

“Non es fácil de entender/ Que ao verte outra vez/ yo estoy llorando/ yo que pense que te olvide/ pero que es verdad es la verdad...”



Escrito por xico sá às 14h49
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CANCIÓN PARA UNA CHICA DE LAS DUNAS CALIENTES

lava,enx´água, quara, ariar num é problema, enxuga, lava a calça jeans na pedra, esfrega, faz um virado de scarpin... e de noite,na madruga, ainda vira uma diva do jazz possible, pense... pense numa fêmea compreta!!! play again, coffee de coador and cigarretesssssss ao infinutum... so jim jamursh pra filmar essas titelinhas metonímicas... parte pelo todo... corazón perdido de dunas inexistentes... pense!, pense numa comoción para siempre!!! beijossss nas titelas da existência!

Escrito por xico sá às 00h21
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QUALÉ, MANÉ?

É namoro ou amizade? Rolo, cacho, ensaio de amor, romance, conto, fábula de formiguinha ou pura clandestinidade?

“Qualé  a sua, meu rapaz?!”, indaga a nobre gazela.

E o homem do tempo nem chove nem molha. Só no mormaço, só na leseira das nuvens esparsas.

No tempo do amor líquido, para lembrar o título do ótimo livro do filósofo contemporâneo Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos encontros amorosos, é difícil saber quando é namoro ou apenas um lero-lero, vida noves fora zero y bandeirosos corazones...

Cada vez mais raro o pedido formal de enlace, aquele velho clássico, o cara nervoso, se tremendo como vara verde: “Você me aceita em namoro”?

Talvez nem exista mais.

O amor e as suas mudanças. A maioria dos homens, além de não pedir em namoro, além de não pegar no tranco, ainda corre em desespero diante de uma sugestão ou proposta de casamento feitas pela moça.

O capítulo bom da história é que agora as mulheres também partem para o ataque e, diante de uns temerosos ou acanhados sujeitos, escancaram seus desejos e fazem suas apostas, seus pedidos, põem na mesa os seus desejos e as cartas de intenções.

Era bem bacana esse suspense masculino do “você quer namorar comigo?”

Havia sempre o medo do fora. Um sim, mesmo o mais previsível, era uma festa.

“Quer namorar comigo?”

No tempo do “ficar”, quase nada fica, nem o amor daquela rima antiga.

Alguns sinais, porém, continuam valendo e dizem muito. O ato das mãozinhas dadas no cinema, por exemplo, ainda é o maior dos indícios.

 Mais do que um bouquet de flores, mais do que uma carta ou um email de intenções, mais do que uma cantada nervosa, mais do que o restaurante japonês, mais do que um amasso no carro, mais do que um beijo com jeito, daqueles que tiram o gloss e a força dos membros inferiores.

“Vamos pegar uma tela, amor?”, como se dizia não muito antigamente.

Eis a senha.

Mais até do que um jantar à luz de velas, que pode guardar apenas um desejo de sexo dos dons Juans que jogam o jogo jogado e marketeiro.

O cinema, além da maior diversão, como diziam os cartazes de Severiano Ribeiro, é a maior bandeira.

Nada mais simbólico e romântico.

Os dedos dos dois se encontrando no fundo do saco das últimas pipocas...

Não carecem uma só palavra, ainda não têm assuntos de sobra.

Salve o silêncio no cinema, que evita revelações e precoces besteiras.

Ah, os silêncios iniciais, que acabam voltando depois, mas voltando sem graça, surdo e mudo, eterno retorno de Jedi. Nada mais os unia do que o silêncio, escreveu mais ou menos assim, com mais talento, claro, Murilo Mendes, poeta dos melhores e mais líricos.

Palavras, palavras,palavras...

Silêncio, Silêncio, silêncio...

Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito. Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate.



Escrito por xico sá às 02h16
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A MAÇÃ CARAMELADA DOS POETAS

El pangaré supostamente paraguayo avança e cresce a cada dia muitos metros e fica cabeça a cabeça com o roncinante de São Jorge, meu anjo, minha menina, chance de te levar para conhecer a lua, la luna caliente, por supuesto, a morada dos poetas, mi hija, mi musita precoce, já foste a la luna, hija?

Não?

Sabia, minha menina, que teu avô morreu sem acreditar que o homem foi a la luna?Com este cavalo gigante posso te levar para conhecê-la, independentemente de quaisquer sospechas!

Irás tocar la luna e chegar em casa com os dedinhos melados de tantos adjetivos que os poetas lhes dedicam, adjetivos são doces como pirulitos, filha, e derretem sobre la camada externa de la luna, la luna, hija, non passa de una maçã caramelada de parque de diversiones de los poetas e demais enamorados, mi hija, não caia nessa, quer dizer, mi hija, faças o que quiseres, mil desculpas, foi mal, ciúmes...

Domingo é um bom dia para irmos a la luna, mas tem que ir de vestido novo e lacinho no cabelo, Veridiana. Te arruma e vamos simbora que Chivas, nuestro caballo, relincha impaciente lá fuera.



Escrito por xico sá às 02h28
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