ESPERANZA SOBE A AUGUSTA
Uma mulher ainda sem nome, pernas não tão grandes pero alongadas por lindas botas em couro de lagartos vulcânicos, ojos cortados com navalha de cão andaluz...
Esta mujer está por perto e é capaz de fazer boiar na travessia melancólica dos seus zolhinhos até mesmo o mais babilonizado dos cavaleiros deste pueblo.
Se o desejo envelhecido dos kabrones por esta chica destilasse de uma hora para outra... daria no melhor uísque cowboy do fim dos mundos.
Ela traz marcas de agulhas, fabriquetas coreanas de confecções, e uma tatuagem de Bolívar na costas.
O nome de um filho também tatuado pelo próprio pai que se perdeu na selva escura de Cochabamba.
Juan, eis o batismo do chico.
Não, ela não está triste, mesmo ouvindo uma canción desesperada de La Lupe.
“Teatro, tu és puro teatro... falsidade ensaiada, estudiado simulacro”.
Agora ela ouve Johnny Cash ladeira acima, como num trote de uma bela égua que foge do barulho dos fogos de artifício:
“Cry,Cry,Cry...”
(...)
Benvenido Granda, um bolero:
“Eu vengo a la barra a tomar un trago
A ver si con eso puedo disipar
La angustia que llevo dentro de mi alma
a ver se consigo tu amor olvidar...”
Uma guarânia...
O relato desde o manicômio do grupo Querembas, rock pesado da sua Bolívia natalícia.
(...)
Chavela Vargas canta “Luz de luna”, ela não imaginava que esta faixa estava na lista, não pode ouvi-la sem machucar-se um pouco mais.
Os céus minguam por alguns minutos, “Saturno em virgem”, ela especula com os astros.
Su horóscopo naquele dia, Sagitário, segundo astrólogo peronista de su confiança:
“Amor: Auspicioso. Deja atrás el rancor y expone sus necesidades sin perder la confianza. El amor fluye con naturalidad. Despejar dudas logra suavizar tensiones y ayudará a los reencuentros que permiten abandonar la soledad. Busque encuentros sin mucha exigência. Salud: Haga ejercicios de elongación. Sopresa: Com um cambio de actitud supera escollos.”
Escrito por xico sá às 11h20
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MOCÓ DE HOMEM SOLTEIRO
Noves fora o “homem de predinho antigo”, aquela criatura que adora um pé-direito alto, um sofá de época e uma luz indireta, o macho solteiro é um desastre no capítulo decoração. Tem lá o seu sofá velho, a sua tv, uma cama barulhenta, três ou quatro panelas _sem cabo_ encarvoadas pelo tempo, e copos de requeijão, muitos copos de requeijão, alguns deles ainda com um pedaço do papel do rótulo. Se brincar, o cara coleciona também os velhos copos de geléia de mocotó, um primor de utensílio vintage.
E quando a fofa, toda fina e fresca, nova costela, chega lá no muquifo com a sua garrafa de champanhe?! Procura, procura as taças, para fazer uma graça com o seu mancebo... e nada. O jeito é beber Veuve Cliquot em copo de extrato de tomate. Quem mandou apaixonar-se por um macho-jurubeba autêntico, que vem a ser justamente o avesso do metrossexual, aquele mancebo da moda que se lambuza de creminhos da Lancôme e decora o loft, sim, ele mora num loft, de acordo com as tendências da revista Wallpaper.
Pior é quando ela tenta mudar tudo. E põe aquele quadro caríssimo –artista contemporâneo, tendêeencia!- numa sala que não tem nem mesmo um sofá que preste?!
Um desastre.
A fofa, toda metida a besta, não desiste nunca. Ai presenteia o bofe _sim, ela está doida e perdidinha_ com uma batedeira prateada ultramoderna com 600 funções, que nunca será usada. Ai fica aquela batedeira high-tech fazendo companhia aos três pratos chinfrins e aos garfos tortos _como se o Uri Geller, aquele parapsicólogo que aparecia no Fantástico das antigas, tivesse jantado por lá ou feito faxina na área.
Ela começa a revirar geral, um deus-nos-acuda, numa casa onde ninguém havia mudado sequer uma planta de lugar. O reino vegetal, aliás, é outro ponto fraco do macho solteiro. Jarros, flores? Nem de plástico.
Na casa do homem solteiro típico, a utilidade triunfa sobre a estética. O cúmulo do utilitarismo. Sofá da tia-avó vira cama, como diz a minha amiga D., co-autora dessa crônica. A cama vira sofá, a rede vira sofá e cobertor, o cobertor vira cortina preso à persiana...
A falta de cortina é outra marca registrada do desmantelo do cavaleiro solitário. Quando muito, papel filme.
Abajur? De jeito maneira. Tosco no último, ele não tem cultura de luz indireta, nem nunca terá, esqueça.
Outro traço de personalidade do macho solteiro: tudo que chega até a cozinha vira tupperware _aquelas embalagens plásticas de lasanha comprada pronta, caixinha de entrega de comida chinesa ou japonesa, potes de sorvete...
Melhor assim do que as frescuras do ex da minha amiga D., a mesma rapariga acima citada. Ela entrou na casa dele e logo ouviu a advertência, em altos brados: “Não pisa de salto no meu carpete de madeira!”
“Nooooosssssa!,” arreganharia a bocarra o velho Costinha, se vivo fosse.
Escrito por xico sá às 12h30
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