CIGANA DE RODOVIÁRIA
Entre as velhas e novíssimas profissões, o que mais encanta são aqueles ofícios joãogrilescos, entre a esperteza e a teimosia com a vida, um quase desmamar pedras, vaqueiros de fazendas aéreas, malasartes da sobrevivência, mungangas para manter-se no jogo e resistir à inevitabilidade do sol seguinte a queimar as pestanas e cozinhar o juízo.
O cara que vive de rolo é um destes heróis. Transita ali quase na linha de sombra da ilegalidade, não pega no alheio, mas bota para frente um bode meio suspeitoso, uma bicicleta, uma sucata qualquer da feira do troca-troca. O escambo, aliás, é a sua grande arte: é capaz de fazer de um moinho enferrujado uma nova vida, é capaz de vender na folha as próximas duzentas safras. Vender na folha é uma espécie de mercado futuro da roça, quando o matuto vende seu milho ainda em bonecas.
Outro admirável ofício era o de fiscal de safadezas de forró, mais conhecido como fiscal de pica, a criatura que ficava ali de um canto a outro do salão, com uma varinha de marmeleiro em riste, pronto para flagrar e advertir os cabras safados que dançavam na paudurescência, digo, em riste.
E assim a modernidade, para o bem ou para o mal vai ceifando muitos ofícios das antigas. O menino de recado, por exemplo, foi extinto pela telefonia móvel. E o jegue, amigo, não tem mais emprego depois da febre das motos. Graças a Deus, porque os bichinhos eram muito maltratados pelos donos mais toscos.
Em compensação, meu caro, temos uma profissão historicamente novinha da silva. Soube da sua existência pelo amigo Otto, sim, o viking do Agreste, o galego mesmo. Trata-se da cigana de rodoviária, uma profissa e tanto.
O ramo é simples. A cigana chega para um viajante, o coitado ainda cheio das confusões de São Paulo na cabeça, e desanda a acertar tudo sobre as suas desilusões recentes, suas contrariedades do juízo, as dívidas, seus amores deixados na poeira da estrada.
Otto descobriu porque tentaram lhe fazer de besta, em Aracaju, numa viagem ainda com a banda Mundo Livre S/A, nos idos dos anos 90. O viajante se espanta, inclusive porque a madame vai na mosca e repete frases inteiras que ele acabara de dizer ao telefone daquela rodoviária. E você sabe, amigo, o cabra lascado se ilude com o vento. O joãogrilismo aí é fácil, fácil: a cigana mantém uma menina, daquelas sonsas do cabelo escorrido, ao pé de cada orelhão, além de outras que acompanham os passageiros que falam nos seus celulares.
Resultado: a cigana escolhe justamente as pessoas que contaram histórias mais tristes, mais trágicas, ao telefone. Aí é só chegar e, pimba, é loa de tiro certeiro no ouvido do camarada ou da senhorita. Se tiver dor de amor no meio, entonce, danou-se, a desgraça está feita!
Escrito por xico sá às 16h43
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SONHOS DE UMA SIESTA*
Como é bom tirar uma sesta, abaixar a cortina e dar um risinho safado para o capital que se esborracha lá fora; como é bom, mesmo para um falido, ajeitar os travesseiros –de palha ou de pena de ganso- e cerrar os olhos para sonhos pequenos. Uma sesta à sombra da toda-poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, aqui perto do meu esconderijo; uma sesta com os macaquinhos lá fora nos fios, como a minha sesta carioca; uma sesta com as janelas abertas na rua da Aurora, a rua mais linda do mundo, de onde avista-se Beberibes, Capibaribes, Áfricas, Tongas e Polinésias...
A minha sesta ibérica, como na origem do costume, lá no Juazeiro e Crato. Como é bom tirar uma sesta com uma nega enroscada aos pés, sono leve de conchinha, colherzinha e quetais. Mas os dois precisam estar no espírito da sesta. Uma alma em desassosego acaba com qualquer sesta, sesta-de-favor não vale, cesta carece de savoir faire... Um gato ali pelas nossas costelas –opa!, um felino de carne e osso, um bichano- que delícia.
Numa sesta não vale sonhos épicos, apenas sonhos pequenos, daqueles que a gente realiza num piscar de olhos. Ou simplesmente deixa para lá. Ridículo correr desembestadamente atrás de sonhos. Sonhos são filmes grátis, que vemos deitadinhos, sem o barulho ridículo de pipoca ou de gente.
“Ei, morena linda que passa, vamos ao cinema?” Ai trago ela para a sesta. Cinema é travesseiro e pezinho colado.
Os sonhos são feitos pelos cineastas mortos, jeito de ocupar-lhes no purgatório. Coisa da aliança espúria de Deus e do Diabo.
Sesta: modo de usar. Quanto dura uma sesta? O ideal é que não se faça o uso do despertador, que não seja um curta-metragem, que seja um filme que se durma nele inteirinho, que se beije o olho de quem dormir primeiro e que se faça uma oração baixinho para nunca acorda-las e sempre protege-las, ô Deus guarde essa costela colada à minha e que esse suorzinho seja o superbonder possível, a resina mais grudenta, que nos livre do fim, amém. Mas o amor acaba, meu filho, sopra um anjo pousado no ombro de Paulo Mendes Campos, que me diz baixinho, sossega, menino, esse coração.
A sesta com a bênção das mulheres e da minha mãe. “Meu filho, durma pelo menos uma meia horinha depois do almoço”. Minha mãe chorava, no dia em que fui embora, mas nada dizia além da receita da sesta. Mulher de coragem: deixar aquele graveto, só o couro e o osso, ganhar a estrada apenas com uma rede que ela botou no fundo da mala...
Como eu queria achar de novo essa rede e tirar a maior das sestas, mas troquei por alguma coisa, vício, comida, sei lá, entre uns desalmados de um cortiço do Recife, num sótão ali na Barão de São Borja. Até quando a usei, era uma rede que balançava lágrimas e meus chinelos sempre acordavam boiando de manhã.
(*Da coletânea "Boa Compahia -crônicas", ed. Cia. das Letras)
Escrito por xico sá às 21h56
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PARA REABRIR O APETITE DAS MOÇAS
Nada mais bonito do que uma mulher que come bem, com gosto, paladar nas alturas, lindamente derramada sobre um prato de comida, comida com sustança. Os olhinhos brilham, a prosa desliza entre a língua, os dentes, sonhos, o céu da boca. Ela toma uma caipirinha, a gente desce mais uma, sábado à tarde, nossa doce vida, nossos planos, mesmo na velha medida do possível.
Pior é que não é mais tão fácil assim encontrar esse tipo de criatura. Como ficou chato esse mundo em que a maioria das mulheres não come mais com gosto, talher firme entre os dedos finos, mãos feitas sob medida para um banquete nada platônico.
Época chata essa. As mulheres não comem mais, ou, no mínimo, dão um trabalho desgraçado para engolir, na nossa companhia, alguma folhinha pálida de alface ou rúcula.
A gente não sabe mais o que vem a ser o prazer de observar a amada degustando, quase de forma desesperada, uma massa, um cuscuz marroquino/nordestino, um cabrito, um ossobuco, um barreado, um bife à milanesa, um chambaril, um torresmo decente, uma costela no bafo.
Foi embora aquela felicidade demonstrada por Clark Gable no filme ''Os Desajustados'', quando ele observa, morto de feliz, Marilyn Monroe devorando um prato. E elogia a atitude da moça, loa bem merecida, abafa o caso.
Toda preocupação feminina agora está voltada para a estatística das calorias, as quatro operações da magreza absoluta, ditadura da tabuada, lero lero, vida noves fora zero. É como se todas fossem posar para a ''The Face'' do dia para a noite, fazer bonito nos editoriais de moda, vôte! Mal sabem que isso não tem, para homem que é homem, quase nenhuma importância.
François Truffaut, o francês cineasta, padrinho sentimental deste cronista, já alertava, em depoimentos registrados em suas biografias, o valor insuperável das mulheres normais e o seu belo mundo de pequenas imperfeições. Tudo sob medida das nossas taras sem réguas, sem balanças, sem trenas.
Além do prazer de vê-las comendo, coisa mais linda, pesquisas recentes mostram que as mulheres com taxas baixíssimas de colesterol costumam ser mais nervosas, cricris, chatas, dão mais trabalho na rua, em casa, no bar, pense no barraco!
Nada mais oportuno para convencê-las a voltar a comer, reiniciá-las nesse crime perfeito.
Às fogazzas, aos pastéis, aos cabritos, ao sanduíche de mortadela, ao lombo, de lamber os lábios, ao churrasco de domingo para orgulho do cunhado, que capricha na carne e incentiva os seus pecados todos. E aquela fava, meu Deus, com charque, enquanto derrete a manteiga de garrafa, último tango do agreste... O importante é reabrir o apetite das moças, pois homem que é homem, como diz meu velhíssimo mantra, não sabe sequer _nem procura saber_ a diferença entre estria e celulite.
Escrito por xico sá às 21h46
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