FABULÁRIO GERAL DA DESIGUALDADE
Que saudade do Walter Hugo Khouri e o seu pornô-cabeçoso, tratado geral das taras burguesas. Salve nosso Antonioni da Móoca. Os ricos todos perversos e tristemente podres por dentro.
Está na hora de voltar a filmar a burguesia e seus arredores.
Como disse o próprio Fernando Meireles, na ressaca das ilusões perdidas do Oscar, “chega de Cidade de Deus.” Chega dessa síndrome de Victor Hugo a promover a invasão da privacidade da vida dos miseráveis. A favela tem que cobrar royalties, bufunfa, cacau, grana, desses urubus, tem que taxá-los mesmo.
É fácil e covarde entrar com as quatro patas nos barracos, sobrados & mocambos, como fazem as rondas policiais, os açougueiros da tevê e os cineastas modernos.
Chegou a hora de trocar o Capão Redondo por Alphaville, o Jardim Ângela pelo Jardim Europa, o Beco da Facada por Casa Forte, o Conjunto Ceará pela Aldeota –sim, aqui entra apenas como símbolo, pois estão batendo na porta, pra te aperrear, pra te aperrear, como canta o bravo profeta Ednardo.
Apontar a câmera para o 1% mais rico e fazer a nossa comédia Forbes de erros. Quem seriam os grandes narradores desse “dogma”? A senzala que desce o morro para trabalhar na Casa-Grande. Contaria, como fábula de classes para ninar meninos e criar cuervos, as historinhas de como vivem os ricos. O Christian Saghaard, Jéferson De, Paulo Sacramento ou Cláudio Assis fariam fitas de entortar o cabeçote, para citar apenas alguns chegados.
Quem se habilita a filmar o esnobismo da Casa-Grande da nova era? Fazer o que o homem-víbora Joel Silveira, profissão-reportér, fez ainda nos anos 40, quando exibiu, no semanário “Diretrizes”, de Samuel Wainer, os podres do grã-finismo de São Paulo. Um espetáculo do esbanjamento dos quatrocentões paulistanos. Confira as nobres linhas no livro “A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista” (Companhia das Letras), jornalismo do bom, daquele que deixa o cabra corado de inveja. A boa inveja dos homens que dominam a pena e a arte da coragem.
“(...)os lucros dos Matarazzo no ano passado foram de 700 milhões de cruzeiros. É muito dinheiro e com ele os Matarazzo podem fazer grandes e belas coisas. Algum dia (quem sabe?), Matarazzo fará um refeitório ventilado e claro para os seus operários.” É por aí a loa de Silveira, com suas Fifis e Penteados.
É preciso invadir a privacidade dos barões que trocaram o café das antigas pela jogatina financeira. Escancarar as rotinas de muitos usineiros, que ainda hoje negociam as “almas mortas” –como no romance de Nicolai Gogol_ dos escravos na banca dos subsídios e títulos da divida agrária.
Mais Robert Altman e menos Victor Hugo.
Chega de “cosmética da fome” e do sertão cordial da Conspiração Filmes. A hora e a vez de filmar os ricos, seus luxos e suas vadiagens. Gente que morre com dez salários mínimos num alpiste de grife do Fasano, embora a iguaria fina vire a mesma merda que os iguala à plebe rude.
Viva a nossa divina comédia Forbes. Rende boas ficções e documentários idem. Na prateleira, as fitas serão localizadas no gênero “tragicomédias da desigualdade”. Algo assim explicitamente sociológico. Pedagogia do buraco. Mas não carecem ser filmes chatos, faz favor. A receita estética é simples: podem juntar o camarada Karl e os irmãos Marx, com o moralismo extremado de Nelson Rodrigues –aqui abriríamos uma possibilidade, no segmento mainstream, para Arnaldo Jabor largar o jornalismo e voltar ao seu comércio de origem.
Mas não esqueçam de levar as mil e uma noites de Joel Silveira para a tela. O homem que fez a verdadeira minissérie dos barões paulistas. A hora e a vez de botar a playboyzada na fita.
Escrito por xico sá às 14h57
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
ESTÁ ESCRITO NA FACHADA ISSO É UM LAR
(RESGATE EM HOMENAGEM AO DIA DO SOLTEIRO!)
Noves fora o “homem de predinho antigo”, aquela criatura que adora um pé-direito alto, um sofá de época e uma luz indireta, o macho solteiro é um desastre no capítulo decoração. Tem lá o seu sofá velho, a sua tv, uma cama barulhenta, três ou quatro panelas _sem cabo_ encarvoadas pelo tempo, e copos de requeijão, muitos copos de requeijão, alguns deles ainda com um pedaço do papel do rótulo. Se brincar, o cara coleciona também os velhos copos de geléia de mocotó, um primor de utensílio “vintage”.
E quando a fofa, toda fina e fresca, nova namorada, chega lá no muquifo com a sua garrafa de champanhe?! Procura, procura as taças, para fazer uma graça com o marmanjo, e nada. O jeito é beber Veuve Cliquot em copo de extrato de tomate. Quem mandou apaixonar-se por um macho-jurubeba autêntico, que vem a ser justamente o avesso do metrossexual, aquele mancebo da moda que se lambuza de creminhos da Lancôme e decora o loft, sim, ele mora num loft, de acordo com as tendências da revista “Wallpaper”.
“Uó-o-qué, rapaz?, seje homi”, diria meu amigo Rinaldo, lá no sítio Acauã, de Chã Grande, a terra do chuchu, agreste pernambucano.
Pior é quando ela tenta mudar tudo. E põe aquele seu quadro caríssimo e de grife numa sala que não tem nem mesmo um sofá que preste?!
Um desastre.
A fofa, toda classe média metida a besta, não desiste nunca. Ai presenteia o bofe _sim, ela está doida e perdidinha pelo cabra!_ com uma batedeira prateada ultramoderna com 600 funções, que nunca será usada. Ai fica aquela batedeira high-tech fazendo companhia aos três pratos chinfrins e aos garfos tortos _como se o Uri Geller, aquele parapsicólogo que aparecia no “Fantástico” das antigas, tivesse jantado por lá ou feito faxina na área.
Ela começa a revirar geral, um deus-nos-acuda, numa casa onde ninguém havia mudado sequer uma planta de lugar. O reino vegetal, aliás, é outro ponto fraco do macho solteiro. Jarros, flores? Nem de plástico.
Na casa do homem solteiro típico, a utilidade triunfa sobre a estética. O cúmulo do utilitarismo. Sofá da tia-avó vira cama, como diz a minha amiga D., co-autora dessa crônica. A cama vira sofá, a rede vira sofá e cobertor, o cobertor vira cortina preso à persiana...
A falta de cortina é outra marca registrada do desmantelo do cavaleiro solitário. Quando muito, papel filme.
Abajur? De jeito maneira. Tosco no último, ele não tem cultura de luz indireta, nem nunca terá, esqueça.
Outro traço de personalidade do macho solteiro: tudo que chega até a cozinha vira tupperware _aquelas embalagens plásticas de lasanha comprada pronta, caixinha de entrega de comida chinesa ou japonesa, potes de sorvete...
Melhor assim do que as frescuras do ex da minha amiga D., a mesma rapariga acima citada. Ela entrou na casa dele e logo ouviu a advertência, em altos brados: “Não pisa de salto no meu carpete de madeira!”
“Nooooosssssa!,” arreganharia a bocarra o velho Costinha, se vivo fosse.
Escrito por xico sá às 14h37
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
OS MUNDOS
na estrada, um estirão, sumpaulo/recife/pesqueira/juazeiro/crato/sítio das cobras,santana do kariri... bodes deveras e existenciais, pirões, cuscuzes, ditos, édipos, gargalhadas sobre o ser & os nadas, cartas paternas sem vírgulas, essas coisas, um sorriso do velho, agora é tarde, uma bicada na pinga, as paisagens pedem novas molduras, há sol sobre as tatuagens esquecidas, tento voltar para casa teimando contra rastros & útero, os pés de curupira desmentem o futuro e o passado, tudo é ficção, menos a primeira capa da cebola, a faca de mesa que chora & as unhas manchadas pelo branco da mentira.
Escrito por xico sá às 20h10
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|