DO VERBO LEVAR E SUAS COREOGRAFIAS DE CALÇADA
LEVO minha menina na calçada, pelo lado de dentro, o da parede, que é o lugar da moça no passeio público, que é o lugar que diz o status do enlace para o mais lesado dos transeuntes. do lado de fora, a bonequinha na beira do asfalto, é amizade; do outro, como na coreografia dos meus passos de fred astaire do crato , do hellcife ou das augustas: romance, namoro, amor de muito, amancebo social clube.
Levo ao cine, ao concerto de rock, ao original olinda style, à tapioca, às quiches com com alface americana ou aos três acordes arroz, feijão e bife -por favor, uma farofa de ovo e uma cerveja preta, please, sim, ela ama uma banana assada, noooosa!, traga.
Não esquecer de levar também, viu, para comprar vestidos e roupas de veraneio, q prazer nada viado aquele barulhinho da cortina dos provadores vagabundos. levo porque levar é a grande função do bicho macho contemporâneo nesses tempos de frouxidões e covardias no atacado e no varejo.
Levo de avião ou de busão, mas sempre mantendo a classe, levo, pq o resgate do cavalheiro roots está no levar a dama na riqueza ou no pé-sujo, na cachaça ou na campanhota, no free jazz ou no bolero, levar a moça, inclusive, para conhecer as nossas contradições, talvez a mó fortuna crítica dum homem.
Levar e não esquecer dos degraus e altos e baixos da cidade, donde damos uma mão como amparo e prova inconteste do amor que sobra em todos os nossos membros... inferiores, superiores, robóticos, polvos de todos os mares trabalhando para o bem-estar, conforto e requinte da pequena.
Escrito por xico sá às 01h46
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ASSOMBRAÇÕES DO HOMEM DO TEMPO
Mal curamos a ressaca da virada e já tem gente por ai a bufar a velha sentença: ´Como o ano está passando rápido!´. Tem gente que diz isso a cada folhinha do calendário. ´Já já é carnaval, Nossa Senhora´, estrebucha o infalível Homem do Tempo com a sua trombeta diária.
Ainda no sábado de Zé Pereira, quando mal tem saído o Galo da Madrugada, o representante do deus Cronos na terra, sempre à frente da sua época, solta bombas caseiras e anuncia as festas juninas. Mal pula as brasas da fogueira, decreta, com ares de sábio: ´Já já é Natal, esse ano correu como nunca´.
Apressado, assina mais um cheque, repare que ainda estamos em pleno mês dos desgostos, e o mal-assombrado Homem do Tempo mira a data e toca o terror de novo: ´Bem que eu avisei, 2010 chegou voando´.
O Homem do Tempo, esse infeliz das costas-ocas, esse vampiro das horas, é capaz de matar de susto qualquer criatura temente à Velha da Foice. Não estamos falando daquele desavisado e pobre sujeito que comenta, por mera falta de assunto, a contagem dos dias, o envelhecimento do homem e as suas circunstâncias.
Este é um inocente camarada. O mesmo que olha para os céus e fala que vem chuva, o mesmo que mostra as Três Marias para as crianças, o mesmo leitor de Bilac que recita, orgulhoso, ´Ora direis, ouvir estrelas´.
Tratamos do cruel e temeroso Homem do Tempo, assombração ambulante que a esta altura já deixou em pânico uns dez velhinhos na fila dos aposentados do Funrural ou do INSS.
Sim, amigos, a triste figura é perversa, um carrasco sem guilhotina, e adora tocar a sua trombeta justamente onde estão os mais idosos.
´Quem diria, já chegou de novo a Copa do Mundo´, alardeia com a antecedência mortal de sempre. ´Vamos ver quem tem garantia de vida até a próxima´, cutuca o belzebu, mais uma vez, com o seu pobre chiste publicitário.
O mais cruel Homem do Tempo que conheço, tão cruel que parece personagem de programa humorístico, é o meu ´padrinho de fogueira´ Antonio Carneiro, habitante de Santana do Cariri, na região sul cearense - padrinho de fogueira, para quem não sabe, é o mesmo que padrinho de São João, costume antigo dos pais de fazer novos e bons compadres, enquanto queimam as brasas afetivas do período junino.
Não tenho uma queixa sequer do nosso Carneiro, excelente na condição de padrinho, mas não queria estar na pele dos moradores do Sítio das Cobras e arredores, onde ele reina com os poderes sagrados de Cronos.
Além do avexamento de praxe dos homens do agouro, ele é mestre em comentar as rugas e outros maltratos que fazem residência em nossos pobres rostos. A saudação mais leve que apresenta a um velho conhecido, depois de meses de ausência, é mais ou menos assim: ´Amigo, você está acabado, derrotado pelo relógio, tem gente a quem o tempo nem dá bom dia, não respeita mesmo´.
Pode ser homem, pode ser mulher, independentemente da idade e do natural e belo estrago da vida. Ninguém escapa. Uma peça!
Escrito por xico sá às 01h43
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CATALOGANDO O MACHO MODERNO
Homem-hortinha - Aquele mancebo que, ao receber as moças elegantemente para um jantar, usa o manjericão cultivado na própria hortinha que mantém no quintal ou na área de serviço. Cultivar o próprio manjericão não é exatamente o defeito do rapaz. O problema é que ele passa duas horas a discorrer sobre o cultivo da hortinha, os cuidados, o zelo, uma chatice só, para não dizer outra coisa. Uma amiga, coitada, conheceu um destes exemplares que cultivava até a própria minhoca usado como "fator adubante" da própria hortinha. Corra, Lola, corra, corra mesmo, corra enquanto é tempo!
Escrito por xico sá às 13h11
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EPÍGRAFE DO BIG JATO, MI NUEBO LIBRO
Daqui em diante não peço mais boa-sorte, boa-sorte sou eu. Daqui em diante não lamento mais, não transfiro, não careço de nada; nada de queixas atrás das portas, de bibliotecas, de tristonhas críticas; forte e contente vou eu pela estrada aberta. WALT WHITMAN, in Folhas das Folhas de Relva. Tradução Geir Campos. São Paulo, Brasiliense, 1983.
Escrito por xico sá às 03h40
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