o carapuceiro



DA SOCIEDADE DOS AMIGOS DO CRIME E DE ALGUNS DOS SEUS MANDAMENTOS *

 

          Só nos resta uma saída honrosa a esta altura da balbúrdia que toma conta do mundo: inscrevermos nossos batismos na velha Sociedade dos Amigos do Crime. As regras são quase as mesmas, com algumas poucas atualizações da crônica de costumes dos tempos do marquês. Vale sobretudo o artigo segundo:

“O indivíduo que queira ser admitido na sociedade deve renunciar a toda espécie de religião, submetendo-se a provas que constarão seu desprezo por esses cultos humanos e seu quimérico objeto. O mais leve retorno de sua parte a tais asneiras implicará sua exclusão imediata.”

 

Lembremos também o artigo 12º:

 

“Nos horários consagrados ao prazer, todos os irmãos devem estar nus e misturar-se uns com os outros, gozando indistintamente...” 

 

*do Catecismo de Devoções, Intimidades et Pornografias. para baixar o livro inteiro e de graça só falar com o bispo, clicando aqui, ó!



Escrito por xico sá às 02h17
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DE UM AMOR PERRO NO MAIS LEGÍTIMO PORTUNHOL SELVAGEM *

não sei se escucho um boleron ou um tango, se bebo caubói ou on the rocks, se camarón de la isla ou biño das beiras fartas do rioja, se naranjas de sebillya ou pitombas semi-áridas, se lago azul de ypacarai ou sete lagunas non stop, se trampo focado ou trabalho com margem -como diz o hermanito inconfidente das geraes-, se tu ou tu mesmo cabô chorare, e sempre tu e tu e solamente tu, pois mi corazón tututututututu de teléfono ocupado, se entrego aos deuses da sarjeta ou bote faixa en la calle, faixa como quem procura su perro amado, gratifica-se etc etc, ai mi perrito que me sorria latindo, mi perrito hojalata, mi perrito vira-asurero.

se” de “se” de cullo és ruella,  por supuesto, não hay banda non hay banda... y don estebito a esta altura sobe no palco nuevo do PRAGA, el cetegê del rokenrô, se não fosse o diablo desta fiebre da selva amorosa yo estaria bem dentro, te procurando, chica, no googlezito de mis gafas, mis anteojos pára-brisas, mis lunetas de camiñoneiro perdido nos entornos de um bielorizonte llorado como en la canción de roy orbison.

*do libreto LA MUJER ÉS UN GLUEBO DA MORTE (editora YiYi-Jambo, Asunción, Paraguay, 2008, à venda na Mercearia São Pedro, SP, donde aliásssss, hoje, jueves, quinta dos infernos, 05/03, tem fiesta de lançamento da incriible chica Del Fuego (Nego Fogo, contos) e de Respiração do Labirinto, do poeta mexicano Mario Papasquiaro, traduzido pela Beatriz Bajo. Papasquiaro é aquele carinha, saca?, o cabrón mexicano que foi o melhor amigo de Roberto Bolaño, simmm, o poeta que inspirou o personagem Ulises Lima da saga Os Detetives Selvagens. Coisa fina da ed. Dulcinéia Catadora. E por um precito franciscano: apenas seis realetas.Imperdible. 



Escrito por xico sá às 03h46
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DA ARTE DE ESPREMER CRAVOS E ESPINHAS

          Aqui nos pegamos, mascando o chiclete Ploc da nostalgia precoce, para lembrar os tempos em que as mulheres espremiam nossas espinhas e tiravam todos os cravos do nariz e arredores _inclusive aqueles na ponta da napa, motivo suficiente para gritaria e espirros tantos da nossa parte.

Reclamávamos nesse momento, éramos chamados de frouxos. Inevitáveis comparações com a dor do parto e outras dores femininas ecoavam no ar nessa hora solene.  E quando elas escolhiam justo a hora do futebol, o ataque do time do coração, vilge, nossa!  
       Hoje, quando estão praticamente extintas as mulheres da brigada contra cravos e espinhas  (suerte que a cria da minha costela mantém-se na resistência gaulesa e aproveita a boa luz das manhãs dominicais) , sentimos a perda, uma vez que nunca dominamos muito bem essa arte. Nem mesmo na adolescência, quando nos transformamos em verdadeiros e monstruosos Mr. Hydes _culpa, óbvio, do glorioso vício solitário, que além das espinhas ainda nos pregava pêlos na palma da mão, de modo a nos devolver ao darwinianíssimo macaqueamento do macho. 

Como não acreditamos nos milagrosos creminhos usados pelos metrossexuais _esse novo tipo de homem moderno gerado da costela de David Beckhan_ preferimos incentivar o resgate da prática feminina de tirar cravos e espinhas, essa bela e útil mania praticamente extinta nos dias que correm.
        Vez por outra ainda damos a sorte de avistar, em alguma parada de ônibus, uma voluntariosa senhora ou senhorita a espremer o rosto de um camarada. Sempre uma bela cena produzida pelos suburbanos corações.

Sim, não tem a menor graça, nesse mundo tão imbecilmente profissionalizado, a limpeza de pele dos salões de beleza. Seu rosto ali entregue a  amistosas funcionárias sem nenhuma intimidade, mulheres que nunca ouviram os nossos roncos de noite na cama. É o tipo de serviço que exige histórico de intimidades. Tal arte carece de pelo menos um mês de namoro ou acasalamento. Não é tarefa para qualquer uma. É tão delicado quanto tirar a roupa pela primeira vez na frente de outrem - e, pensando bem, uma reveladora prova de devoção.
          A menos que seja uma perversa incatalogável, uma gazela não escarafuncha suas crateras à toa. Quando ela posiciona aqueles dois indicadores sobre a sua bíblica face, parece aceitar a convivência harmoniosa até com as nossas mais indignas impurezas. É provação, é decência feminina no último. E quando ela mostra o resultado na ponta da unha, aquela linda revoluçaozinha dos cravos domingueiros contra o tédio da existência!?



Escrito por xico sá às 22h48
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DONDE SE TOMA CIÊNCIA QUE HOMEM É VIRGULA E MULHER É PONTO FINAL

Sim, homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final. 

Sim,  o amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos: “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar...”

Acaba, mas só as mulheres têm a coragem de pingar o ponto da caneta-tinteiro do amor. E pronto. Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente.

Sem reticências...

 Mesmo, em algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, sabem que não faz sentido  prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita.

O homem até cria motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!!

O macho pode até sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando baforadas aflitas no king-size do abandono, no Continental sem filtro da covardia e do desamor.

Mulher se acaba, mas diz na lata, sem metáforas.

Melhor mesmo para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável, celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações mútuas, o diabo-a-quatro.

O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada.

Nem no Crato...nem na Suécia.

Se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever o “the end” sem uma quebradeira monstruosa.

Fim de amor sem baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais estava.

O mais frio, o mais “cool” dos ingleses estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim, demasiadamente humano esse barraco sem fim.

O que não pode é sair por ai assobiando, camisa aberta, relax, chutando as tampinhas da indiferença para dentro dos bueiros das calçadas e do tempo.

O fim do amor exige uma viuvez, um luto, não pode simplesmente pular o muro do reino da Carençolândia para exilar-se, com mala e cuia, com a primeira criatura ou com o primeiro traste que aparece pela frente.

 E vamos ficando por aqui, pois já derrapei na curva da auto-ajuda como uma Kombi velha na Serra do Mar... e já já descambarei,  eu me conheço, para o mundo picareta de Paulo Coelho. Vade retro.

 



Escrito por xico sá às 04h45
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DECÁLOGO D0 MAL-DIAGRAMADO

Dez coisas que um homem feio deve saber para tirar mais proveito da vida, essa ingrata: 

I) Que a beleza é passageira e a feiúra é para sempre, como repetia o mal-diagramado Sérge Gainsbourg – o tio francês que pegava a Brigitte Bardot e a Jane Birkin, entre outras deusas. Sim, aquele mesmo francês cabra-safado autor do maior hino de motel de todos os tempos, “Je t´aime moi non plus”, claro.

II) Que as mulheres, ao contrário da maioria dos homens, são demasiadamente generosas. E não me venha com aquela conversinha miolo-de-pote de que as crias das nossas costelas são interesseiras. Corta essa, meu rapaz. Se assim procedessem, os feios, sujos e lascados de pontes e viadutos não teriam as suas bondosas fêmeas nas ruas. Elas estão lá, bravas criaturas, perdendo em fidelidade apenas para os destemidos vira-latas.

III) Que o feio, o mal-assombro propriamente dito, saiba também e repita um velho mantra deste cronista de costumes: homem que é homem não sabe sequer a diferença entre estria e celulite.

IV) Que mulher linda até gay deseja e encara, quero ver é pegar indiscriminadamente toda e qualquer assombração e visagem que aparecer pela frente.

V) Que homem que é homem não trabalha com senso estético. Ponto. Que não sabe e nunca procurou saber sequer que existe tal aparato “avaliatório’’do glorioso sexo oposto.   

VI) Que as ditas “feias” decoram o Kama Sutra logo no jardim da infância.

VII)  Que para cada mulher mal-diagramada que pegamos, Deus nos manda duas divas logo depois de feita a caridade.

VIII)  Que mulher é metonímia, parte pelo todo, até na mais assombrosa das criaturas existe uma covinha, uma saboneteira, uma omoplata, um cotovelo, um detalhe que encanta deveras.

IX) Que me desculpem as muito lindas, mas um quê de feiúra é fundamental, empresta à fêmea uma humildade franciscana quase sempre traduzida em benfeitorias de primeira qualidade na alcova.

X) Saiba, por derradeiro, irmão de feiúra, que a vida é boxe: um bonitão tenta ganhar uma mulher sempre por nocaute, a nossa luta é sempre por pontos, minando lentamente a resistência das donzelas. Boa sorte, amigo esteticamente prejudicado, nesse grande ringue da humanidade!



Escrito por xico sá às 18h20
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