o carapuceiro



MISS CORAÇÕES SOLITÁRIOS RESPONDE

MESMO em justo e merecido gozo de férias na Serra do Rola-Moça, Minas, a nossa cigana andaluza, hoje habitante de uma tenda no Lameiro, na subida pra chapada do Araripe, volta aos seus despachos normais para atender os aflitos e agoniados do amor e da sorte: 

 

Senõra,

Tu que conheces os recônditos da alma humana do alto de sua bola de cristal, tu que vês passado, presente e futuro nas cartas do tarô dos sóis, luas e estrelas andaluzes, responde a esta jovem atormentada: o fogo que queima minhas entranhas se apagará com a volta do falcão querido que foi voar para outras paragens e, vira e mexe, dá sinais de vida, ainda que virtualmente? Ou o falcão só está maltratando meu pobre músculo cardíaco, enredando-me em sua confusão infinita - e assim, devo buscar um novo xodó bem bom por esse mundão de Deus?

Grata pela resposta,

Moça Ansiosa.

 

Resposta - Dadivosa gazela,

se manuseias o teu obscuro objeto de desejo como bolinas as palavras, esse falcão está feito, nos céus e na terra,  pois muito me admira o ritmo e a prosódia da tua missiva. Se o macho-de-rapina saltou mesmo a cerca para outras plagas, te viras com os gaviões que arranham o zinco do teu barraco. Te joga, moiçola, e apaga esse fogo em destemidas mangueiras. Não gastes à toa os cotovelos da espera, não chupes facilmente o chicabon da saudade... Melhor gastar os joelhos nos vagabundos carpetes,  melhor gastar o palato em ritmados e artísticos boquetes! Carinho, tua M.C. Solitários.

Escreva você também, criatura em rebuliços e desassossegos, para a nuestra sábia cigana.



Escrito por xico sá às 18h54
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DE UM SAMBA DO GRANDE AMOR, MENTIRA!

“Tinha cá pra mim que agora sim, eu vivia enfim o grande amor, mentira!”

Encontro minha amiga A., no nosso botequim predileto, e a desalmada vai logo anunciando, com a ironia fina que a acompanha na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença.

 Sempre tem boas histórias e uma mania louca de escolher uma música, normalmente Chico Buarque, para trilha das sagas românticas e congas na bunda.

Como Chico tem um vasto elenco de personagens femininos e incorpora as dores e delícias das mulheres, ela escolhe no capricho, no ponto.

Moleza, garoto.

“Tinha cá pra mim que agora sim, eu vivia enfim o grande amor, mentira!”, ela repete e repete, enche o saco com o “Samba do grande amor”.

Essa música nem é protagonizada por uma fêmea, e sim por um homem desiludido do amor, um cabra cujo destino parafusou-lhe na testa belos objetos pontiagudos, como diria o compay Marçal Aquino.

Mas ela insiste e canta assim mesmo. Pior: canta e ri, uma loucura. Que diabo de sofrimento é esse com essas gargalhadas todas?

A moça é assim mesmo. Não tem jeito. E olhe que nem pediu caipiroscas de frutas vermelhas nesse dia, ficou apenas no chope, coisa fina e civilizada.

“Morrer dessa vez é que não vou”, tira onda. “Ih, estou escaldada, velho Francisco”.

O que A. me contou uma das coisas banais que mais escuto das minhas amigas nos últimos tempos. E olhe que sou conselheiro, ombudsman das moças, cupido e ouvidor-geral de muitas crias das nossas costelas.

“Sua carteira de desesperadas é grande”, ela mesma tira uma boa onda sobre um ofício que desenvolvo com gosto e curiosidade desde os verdes anos –quando sequer eu sabia o era uma mulher para valer, conhecia apenas as cabritas e as bananeiras.

A amiga deparou-se com mais um desses homens que prometem, ensaiam, jogam um charme, cultivam, cantam de galo... comparecem e..., sem dizer nada, tomam o clássico chá de sumiço, saem para comprar o king size, sem filtro, do abandono. 

“Por essas e por outras é que agora prefiro um bom canalha a um homem frouxo”, prega a amiga, conquistando rapidinho o apoio da távola redonda das gazelas ao lado. “Um canalha pelo menos me pega com gosto, como se fosse mesmo a última noite”.

Defende a tese e emenda, riso desavergonhado: “Passava um verão a água e pão, dava o meu quinhão pro grande amor, mentira!”

É rapazes, é tempo de homem frouxo, que corre mesmo diante da possibilidade de uma história mais densa e afetiva. Não sabem o que estão perdendo. A começar pela minha amiga cantante, belo exemplar da raça, no auge dos seus 3 ponto 6, boa conversa, boa lábia, gostosa, bocão-Jolie e um humor capaz de tornar o mais nublado dos dias na mais promissora e comovente folhinha do calendário. Sorte desse homem!



Escrito por xico sá às 11h40
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DE UMA CARTA ABERTA AOS COVARDES NO AMOR ETC

Amigas, peço a devida licença para me dirigir exclusivamente aos meus semelhantes de sexo, esses moços, pobre moços, neste panfleto testosteronizado e inflamável, CUIDADO FRÁGIL. Sim, amigas, esses seres que andam tão assustados, fracos e medrosos, beirando a covardia amorosa de fato e de direito.

Destemidas fêmeas, caso notem que eles não leram, não estão nem ai para a nossa carta aberta, mostrem aos seus homens, namorados ou pretendentes, mostrem, recortem e colem nas geladeiras deles, larguem a página aberta no banheiro, na mesa do computador, na cabeceira da cama, deixem esta crônica grudada na tv, mas não antes do futebol da quarta, pois há o risco de simplesmente ser ignorada, enfim, me ajudem para que esta minha carta aberta aos rapazes chegue, de alguma forma, ao alcance deles.

Amigos, chega dessa pasmaceira, chega dessa eterna covardia amorosa. Amigos, se vocês soubessem o que elas andam falando por ai. Horrores ao nosso respeito. O pior é que elas estão cobertas de razão como umas Marias Antonietas cobertas de longos e impenetráveis vestidos.

 Caros, estamos sendo tachados simplesmente de frouxos, medrosos, ensaios de macho, rascunhos de homens, além de tolos, como quase sempre somos.

Prestem atenção, amigos, faz sentido o que elas dizem. A maioria de nós anda correndo delas diante do menor sinal de vínculo, diante da menor intimidade, logo após a primeira ou segunda manhã de sexo. O que é isso companheiros? Fugir à melhor das lutas?

Nem vou falar na clássica falta de educação do dia seguinte. Ora, mandem nem que seja uma mensagem de texto delicada, seus preguiçosos, seus ordinários. O que custa um telefonema gentil, queiramos ou não dar seqüência à historia?!

Ora, depois daquela intimidade toda! Tudo bem que não mandemos flores, mas um mimo em palavra, nem que seja um lacônico: “Foi ótimo, noite linda!”.

Amigos, estamos errados quando pensamos que elas querem urgentemente nos levar ao altar ou juntar os trapos urgentemente. Nos enganamos. Erramos feio. Em muitas vezes, elas querem apenas o que nós também queremos: uma bela noitada! E, claro, delicadeza.

Por que praticamente exigimos uma segunda chance apenas quando falhamos, quando brochamos, algo demasiadamente humano? Ah, eis o ego do macho, o macho ferido por não ter sido o garanhão que se imagina na cama.

Sim, muitas querem um bom relacionamento, uma história com firmes laços afetivos. Primeiro que esse desejo é legítimo, lindo, está longe de ser um crime, e além do mais pode ser ótimo para todos nós.

Enquanto permanecermos com esse medinho de homem, nesse eterno e repetido “estou confuso” –“eu tô cafuso”, como dizia Didi Mocó!-, a vida passa e perdemos mil oportunidades de viver, no mínimo, bons momentos do gozo e felicidade possível. Afinal de contas para que estamos sobre a terra, apenas para morrer de trabalhar e enfartar com a final do campeonato?

Amigos, mulher não é para ser temida, é para nos dar o melhor da existência, para completar-nos, nada melhor do que a lição franciscana do “é dando que se recebe”, como cai bem nessa hora. Amigos, até sexo pra valer, aquele de arrepiar, só vem com a intimidade, os segredos da alcova, o desejo forte que impede até o ato que mais odiamos, a velha brochada da qual tratamos aí acima.

Caros, esqueçamos até mesmo o temor de decepcioná-las, no caso dos exemplares mais generosos do nosso clube. Não há decepção maior no mundo do que a nossa covardia em fugir do que poderia representar os bons momentos da felicidade possível, repito, não a felicidade utópica, que é bem polêmica, mas a felicidade que escapa covardemente entre nossos dedos sujos de caneta Bic a toda hora. Acordemos, para Jesus, amigos homens, levanta-te e anda condenado!

Rapazes, o amor acaba, o amor acaba em qualquer esquina, de qualquer estação, depois do teatro, a qualquer momento, como dizia Paulo Mendes Campos, mas ter medo de enfrentá-lo é ir desta para a outra mascando o jiló do desprazer e da falta de apetite na vida. Falta de vergonha na cara e de se permitir ser chamado de homem para valer e de verdade.



Escrito por xico sá às 00h24
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CARTA PARA VOCÊ

Nada sofreu um baque tão grande com a internet como a carta de amor. Falo da missiva de punho próprio, selada na língua, carimbada, que segue no bico do pombo-correio ou é entregue pelo bravo homem de amarelo, o velho mr.Postman da canção dos Beatles, esse grande homem, o carteiro, sempre enxotado pelos cães e recebido pelo sorriso das moças que sentem saudades dos mancebos que saíram para comprar cigarro.

Já fiz campanha aberta, aqui mesmo nesta bodega lírico-boêmia, pela volta de tal correspondência. Mesmo sabendo que só malucos ainda usam tal expediente.

Até longos namoros são dissolvidos por email, covardemente, como o pé-na-bunda mais famoso do mundo, o do escritor francês Grégoire Bouillier na artista Sophie Calle. Ela fez da história uma obra. Na semana passada fizeram uma D.R.-cabeçosa e civilizadíssima na Flip, uma Discussão de Relação com notas de rodapés e tudo. (Estou fuera, prefiro a barbárie sincera dos corações selvagens e doloridos, me cutuca aqui a gatinha manhosa no meu colo).

Volto ao tema, que merece panfletos permanentes, por causa da publicação de um livro que é mais uma bela peça de defesa da missiva à moda antiga. Chama-se “Carta para você –Declarações de amor em tempos modernos” (editora Alfaguara), uma antologia que junta os mais diversos escritores, inclusive este vagabundo cronista –por ai voce tem ideia da amplitude.

Mas a genialidade são os outros. Fico muito orgulhoso e confesso, não vou mentir, dona Maria do Socorro, madrecita querida, de estar em uma capa ao lado de varões como o Neil Gaiman e o Leonard Cohen. São os caras, mãe, cada um do seu modo de macho, e a causa é nobre demais da conta.

O Cohen, Maria, agora falando de outra linda homônima da mãe do cabeludo da cruz, a que amo hoje além muito além daquela serra azulada e edipiana do Araripe donde eu vim ao mundo, escreveu uma carta linda. Sim, o Cohen das baladas de todos os cafés e uísques caubóis tristes.

A Maria ouve o belo compositor e cantor canadense enquanto eu rego as flores dos jardins suspensos e a lua fura o barracão de zinco. Os versos do Cohen fazem qualquer planta crescer sem adubo. E talvez sem chuva.

Sim, dona Sophie Calle, o Cohen sabe muito mais sobre pé-na-bunda.

Tem carta com desculpas, carta para a mamãe, carta chocante, carta para a melhor amiga e Margaret Atwood fez uma carta misteriosíssima. Miguel Sanches Neto, do time brasileiro da coletânea, escreveu o melhor começo de todas as cartas do livro: “Querida J., tudo vem com a distância”.

Não é nada não é nada, o fardo das missivas, nos mais diversos jeitos –estilo é coisa de Hemingway e Faulkner para cima!- é, para dizer o mínimo, um empurrãozinho para estimular esses moços, pobres moços, a assentar no papel aqueles garranchos que bolem por dentro e viram caligrafia mais torta ainda.

Amigo, no tempo em que os homens lambiam selos, sabiam adular também as moças de um jeito mais bonito e delicado, se é que você me entende. Eu volto com mais devoção no próximo post, eis a minha missão reencarnada nessa terrinha azul que se move não se sabe para donde.

 



Escrito por xico sá às 01h40
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