PROCURA-SE UM ESCRITOR SEM PRÊMIO
Pereira, meu guarda-livros e auxiliar da manguaças tantas, se queixa: procura-se um autor contemporâneo que não tenha sido premiado ou, para dizer o mínimo, indicado a alguma honraria da praça. Ele acaba de voltar da Livraria Cultura. Praticamente todos os volumes espalhados pelos tabuleiros e vitrines continham uma tarja, um invólucro, um selo qualquer anunciando glórias passadas ou possíveis glórias futuras dos escribas. Quem ainda não jabutizou-se jabutizar-se-á no próximo certame, para citar apenas um dos tantos prêmios da safra. Ah, Pereira, que mal há nisso, homem de Deus, literatura foi sempre tão marginal e escondida, tento admoestá-lo (ele sempre diz q homem que é homem não adverte, homem que é homem admoesta). Além do mais, caro Pereira, é uma graninha que entra, uma festa para os autores, quase sempre mais lascados que maxixe em cruz. Não tem conversa. Pereira, cuja regra 01 é ler apenas autor morto, blasfema: até admito ler um autor vivo, desde que sem loiros, sem honrarias ou méritos de campeonatos de livros. Danou-se. Pena que vou morrer e não conhecerei este dito cujo. Pereira, lido e metido, lembra de um conto do Villiers de l’Isle-Adam, um simbolista esquisitão de França, em que um moço se oferece a um diretor de jornal de Paris dizendo-se o único jovem literário sem talento da época, o séc. XIX, pelo que recorda. É o seu grande atrativo para ganhar um emprego, que acaba não levando, por ter demonstrado algum naco de talento durante a entrevista, pelo que conta o Pereira. Por favor, ajudem o Pereira descobrir um autor contemporâneo que não tenha sido premiado ou sequer indicado. Cartas para este armazém de carapuças.
Escrito por xico sá às 12h09
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HOMENS AO DERREDOR DA CARNE QUEIMANDO
Quando o carvão começa a pegar fogo, no churrasco da laje suburbana ou na beira da piscina do Lago Sul, Brasília, os homens automaticamente passam a se sentir mais poderosos. Mesmo em um banquete de mendigos a carne,mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm (a minha gata pisa vez por outra no teclado e interrompe a crônica) fortifica as vaidades e espalha, por algumas horas, as brasas da auto-estima. O mesmo fogo que assa a picanha e a costela chamusca também a testosterona e os básicos instintos do macho, como diria Fausto Fawcett, o poeta-mor de Copacabana e dos arredores fumacentos da Guanabara. A tese-crônica e carnívora vale para qualquer lugar, até mesmo para a Índia, claro, onde os bois e as vacas são sagrados. Lá eles preferem estraçalhar outros quadrúpedes. Amam um cordeirinho, por exemplo, sempre com o melhor dos currys. Falar em tal perversidade, me vem à fogueira agoniada do juízo um velho sucesso de Luis Gonzaga, “Fogo Pagou”, que ele cantava mais ou menos assim: “Teve pena da rolinha que o menino matou/ Mas depois que torrou a bichinha, comeu com farinha...gostou!”. O ser humano não vale mesmo uma moeda enferrujada de botija. Luta vã embirrar contra isso. Desde as caçadas dos nossos semelhantes das cavernas, nem um alimento simboliza tanto a macheza quanto ela, a carne -fraca apenas na concepção do pecado, mas ai já falamos da “marvada” pele sob os olhares apostólicos romanos. A carne, desde os tupinambás e os caetés brasileiros que canibalizaram os jesuítas e outros bispos Sardinhas, é o que nos há de mais sagrado nos tristes trópicos. Uma paradinha à guisa de breve ressalva antropológica: as tupinambás, digo, as belas índias guerreiras, decidiam tudo no processo de engorda dos inimigos a serem assados na brasa. Do pasto à ordem de quem seria comido primeiro, como me lembra o historiador e amigo João Azevedo. Elas que mandavam na melhor das carnes da época. Quem manda nas carnes, manda na sociedade, naturalmente. Dos indígenas às calçadas do subúrbio carnívoro de hoje, motivo da ótima tese de mestrado do carioca Rolf Ribeiro de Souza, a reunião em torno da brasa é um grêmio óbvio ao redor da simbologia do macho, do poder e do algo mais, como diria um Jorge Ben das antigas. “A confraria da esquina: o que os homens de verdade falam em torno de uma carne queimando” (ed. Bruxedo) ,trabalho de mestrado de Souza, na Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), pode ser apenas a minha desculpa acadêmica para a baixaria sob fumaça, mas nem tanto. Seja na rua, onde significa demarcação do território da masculinidade, como afirma Souza, seja na churrascaria chique, donde representa decisões, convenções partidárias e negócios particularíssimos, a carne é que manda nos homens. Alguém já testemunhou algo importante ser acertado diante de folhinhas de alface? Não estamos apenas falando de monta, de dinheiro a perder de vista, estamos falando de importância, do futuro de um grande amor, por exemplo. Não, o alface não inspira confiança. Não à toa, reza a mística dos conventos e internatos, a folha verde serve para acalmar os noviços e seminaristas contra possíveis manifestações dos básicos instintos. O perigo está na carne. Sempre. O resto é fundamentalismo de vegetarianos que se acham imortais e melhores do que o resto da humanidade. Não troco o meu pedaço de carne, a sagrada mistura, por nada nesse mundo. Se for cabrito ou carneiro, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, aí é que a troca supostamente saudável fica mais inegociável ainda. Com fava ou feijão verde, seu moço. Sim, uma farofinha de ovo. Mas antes me traga uma cachaça, que hoje estou amargo demais pra beber cerveja. Ora veja, termino aqui ouvindo a banda Eddie, “e quem não gosta de fumaça, minha querida, não entende de bebida. Nessa vida, eu já caí na desgraça.”
Escrito por xico sá às 15h22
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