COM A BÊNÇAO DO PAI DOS BURROS *
Esta semana tentei passar o máximo de dias possíveis sem comentar sobre as condições do tempo. Não falei nem mesmo que fazia um calor senegalesco (ou senegalês), esse lugar-comum maravilhoso que não se escuta mais por ai. E olhe que fez mesmo um calorzão à moda de São José da Lagoa Tapada(PB), como diz o Daniel Brito no seu blog, diz com a moral meteorológica de paraibano que já morou em Toronto, Canadá, onde o inverno impõe, fácil, uns 30 graus abaixo de zero.Os momentos mais difíceis da privação foram em duas corridas de táxi. Todos os motoristas puxam o tema assim que disparam o taxímetro. Eles suavam em bicas, este outro espetáculo de clichê, e eu permanecia grosseiramente calado. Os amigos que telefonaram com o apelo de uma cerveja, enfrentei com galhardia. Topei os convites sem manifestos sobre os termômetros de São Paulo. À mesa, discorri até sobre o pré-sal e não dediquei um monossílabo às condições atmosféricas. Em casa, confessei o juramento à compreensível amada, que me ajudou a evitar o tropeço. E assim consegui ultrapassar as 48 horas, pela primeira vez na vida, sem um pio sobre o calor senegalesco. Sucumbi, no entanto, ao terceiro dia. Um vacilo e este homem do Cariri que vos escreve, em elogio à cria da sua costela, caiu na tentação -ó pecaminosas filhas de Eva- e quebrou a jura. Fiz a graça de dizer que no verãozão fora de época a sua boniteza aumentava. Aprecio estes desafios de varejo, as pequenas apostas, besteirinhas que fazem a vida mais leve. Não obtenho lá grandes êxitos nos caprichos, porém logo encontro nova teima para não deixar o diabo ocupar o aeroporto de mosquitos. Antes da peleja climática havia enfrentado os cliclês, um combate que iniciei na noite do lançamento de “O Pai dos Burros”(Arquipélago Editorial), divertidíssimo dicionário de lugares-comuns e frases feitas colhidas e genialmente ajambradas pelo jornalista e escritor mineiro Humberto Werneck. Não resisti a um tempo de jogo de futebol. Lá estava com as minhas “favas contadas” e outros balaios de sediças expressões. Só não rolou “calor senegalesco” por causa do “frio siberiano” da ocasião. O paulista Mário de Andrade, em carta ao pernambucano Manuel Bandeira, preferia usar “um sol de matar passarinho” para descrever a mesma atmosfera africana. É o que achei aqui em outro ótimo livro sobre o tema: “Dicionário brasileiro de provérbios, locuções e ditos curiosos”, de R.Magalhães Júnior, cearense de Ubajara (1907-1981). É justamente no verbete “calor senegalesco” que R.,de Raimundo, traz uma defesa de Mário: “Comecei também a usar lugares-comuns brasileiros. É um meio de generalizar, de humanizar minha escrita”. Na mesma missiva, ele pede a Bandeira que mande um apanhado, do norte e do sul, de tais expressões. E dado o adiantado da hora, Antônio Portela, amigo e bamba no assunto, me despeço, afetuosamente, e dedico esta crônica. * publicada originalmente nos jornais O Tempo(BH),Diário de Pernambuco e Diário do Nordeste
Escrito por xico sá às 15h42
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