NOSSO AMOR BEM PUTO
Nem fomos ao mar para ver o nosso amor morrer na praia. Nosso amor morreu engarrafado, na correria do povo para deixar São Paulo, babilônicos corações de fumaça a 10 km por hora. Nosso amor largou o automóvel e saiu caminhando, melancólico, entre motoboys e miragens, crepúsculo cubatanesco a escorrer do nariz. Stop, parou o nosso amor ou é apenas um sinal fechado? Minutos antes, nosso amor foi visto saindo do Paraíso e saltando na Consolação, a linha do último metrô de todos os amores expressos. Aí nosso amor, puto da vida, bebeu cachaça, cheirou cola, acendeu o cachimbo na Cracolândia, perdeu os óculos, as lentes de contato, pegou um papelote de quinta na Augusta, gastou a pele, fez besteiras e vomitou bem muito o foie-gras dos nossos próprios fígados. Nosso amor não conseguiu dormir direito nesse dia, zumbizou geral o malaco, e não foi apenas o barulho da construção mais demorada do que a catedral de Colônia, a Transamazônica ou o castelo de Kafka. Nosso amor só pode estar tirando onda da nossa cara, é o tipo do amor que sabe rir da nossa desgraça, um amor de rapariga da última luz vermelha do fim do mundo, um amor da porra, que não respeita as leis do cosmo, nosso amor é uma ficção barata, café puro, pão na chapa, nosso amor nem esfriou ainda o cadáver, acabou no auge, como a carreira de Pelé, como os Beatles, nosso amor era sábio. E como os amores reencarnam, muito cuidado, senhoras e senhores, nosso amor pode estar rondando ai a sua área. Prendam o criminoso, onde está a polícia que não vê uma coisa dessas, tio Nelson?
Escrito por xico sá às 02h32
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EU QUERIA SER BILL MURRAY
Eu queria ser Bill Murray. Em Flores Partidas do Jim Jarmusch. Indo em busca do filho que talvez não tenha tido. Bill Murray parado. Não diga que silêncio; diga “não ouço nada”. Bill Murray on the road, no sossego, na moral e na elipse. A máquina de escrever cor de rosa, a motocicleta cor de rosa, flor de obsessão, rosa. Bill Murray dom Juan em fim de feira _a festa acabou, José, para onde?_ e a carta anônima, o vizinho Sherlock com ácido, a busca do rebento que não teve, teve?, não importa. Eu queria ser Bill Murray diante daquele gato, nem carecia a Sharon Stone, o gato feito à imagem e semelhança de Bill Murray, felino metafísico da porra. Ali, dizendo, o gato: “Você veio aqui, velho Bill, com segundas intenções, não, não sou teu filho, hombre”. Eu queria ser Bill Murray naqueles sonhos, a reprise. A lolita na vitrine, Lola, bundinha americana, mas safada, é o que vale. Bill Murray vaga pela América, ô, mas num me venha com essa de metáfora da América, apenas uma história sem final, como todo enredo de busca, como a própria cara de Bill Murray que se procura. Eu queria ser Bill Murray emparedado na quarta parede, sem foco.
Escrito por xico sá às 02h07
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SÓ VINGANÇA,VINGANÇA,VINGANÇA*
Amigo torcedor, amigo secador, que prazer tem uma ex-mulher, ainda magoada ou não, quando o time do desalmado leva um belo tombo. É sadismo ludopédico no último. Ela pode nem apreciar tanto o esporte, mas só por uma lupicínica vingança, faz um foguetório com a desgraça do miserável. Sabe que a única dor que deveras sente o canalha é a da tragédia do seu clube. Como me diz agora a M., com perversidade e alguma saliva histérica na risada, ainda comemorando o fracasso do do Palmeiras, alviverde imponente do homem que a trocou por outra. É, amigo, no peito de cada mulher abandonada explode um coração de secadora vingativa. “Mas enquanto houver força em meu peito/ Eu nao quero mais nada/ Só vingança, vingança, vingança/Aos santos clamar...”, cantaria o gaúcho Lupicinio Rodrigues, o rei da dor de cotovelo. A explosão de M. é tão comovente como no momento dos safanões do menino Maurício e do Obina, que acabaram expulsos, no embate contra o Grêmio, por pura sinceridade de rapazes humildes que buscam a todo custo o triunfo. O zagueiro ainda passou a noite chorando. Coisa de homem mais ainda. Merece todo o respeito. Deixemos a crise verde lá no Parque Antarctica. Bom mesmo é a maldade das mulheres contra a paixão clubística dos seus marmanjos. Outra amiga, carioca, que já superou a dor amorosa e enxerga a fila que anda, comemorou, o porteiro do prédio está de prova, a queda do Sport do mancebo. E olhe que a danada é Fluminense, também sob risco de Segundona. O primeiro episódio que me recordo de belas vinganças femininas ocorreu naquela decisão do Brasileiro de 1996, com Grêmio x Lusa. Segundo gol do tricolor gaúcho. 2x0. A amiga G. pára o carro, voltava de uma cachoeira nas cercanias de Brasília, ajoelha na estrada, ergue as mãos para os céus, agradece, vibra, tinha certeza que A.estaria mais triste que o anjo inútil e todos os fados da Amália Rodrigues. No Recife, L., uma jambo-girl com toda a morenidade exaltada por Gilberto Freyre, enviou para o ex, um torcedor do Náutico, integrante da torcida Timbucana, uma saca de areia de Boa Viagem, logo depois de vitória do bravíssimo Santa Cruz, meados dos anos 90. É que o alvirrubro dos Aflitos tem uma fama histórica de nadar, nadar e morrer na praia. Com as nossas exs, infelizmente não temos esse gosto sádico ludopédico. Por mais que sejam fanáticas, creio que as fêmeas sofrem menos com as dores do futebol. Para variar, são mais sábias também nesse capítulo. *da coluna/crônica q publico toda sexta-feira na Folha de S. Paulo
Escrito por xico sá às 19h30
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