NO CÉU DA BOCA DOS MAL-ENTENDIDOS
I o cântico dos cânticos mais bíblicos mal chega aos pés do teu sexo sutra... e nele o pavio, todos os fogos, os artifícios fatais da existência, gracias por el fuego, diz-me, graciosa, sem que careças sequer, mulher, de um pau de fósforo. II Não é que nos ares faças vis piruetas, é que sacas os bambuais da metafísica, sabes que teu deus é uterino, ignoras solenemente o amor de pica. III mas que lindeza na tua súplica, quando dizes, assim, vem, enfia, entra, mesmo restando apenas uma pequena função no gozo, infinitamente menor do que la petite mort da qual falavam os franceses... e sempre melhor teus próprios dedos e as mutações do esmalte do desejo IV como podes com tanta certeza e/ou honestidade? és sempre, muito prazer, uma desconhecida, com quem travo, no claro/escuro da nossa casa, a arte dos imorais, o segredo das criaturas que não temem o silêncio, tampouco a leseira amanteigada dos cafés das manhãs. V disseste,risonha e franca, pareceu uma violëncia, de pé e sem aviso prévio, sequer narrativas lubrificantes, disseste, culpei o barulho do mar, espumas flutuantes, parnasos, lunas cheias e calientes, pelo que me recordo do nosso derradeiro dia no céu da boca dos mal-entendidos.
Escrito por xico sá às 03h56
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CRUZANDO O PARAÍSO *
para Sam Shepard Por ti chorei lágrimas de rodoviária, lágrimas com poeira de estrada perdida, lágrimas e poeira que viraram maquiagem de lama, tijolos d´alma, emendei lotações e fronteiras, gastei botas, máscaras, joelhos... e contei passos de crimes & castigos, por ti esperei em hotéis baratos do centro, porta aberta, mão no coração, faca no peito, por ti bebi como uma mosca caricata de boteco, fiz lirismos chinfrins em guardanapos, sempre começando assim “por ti” etc e algum verbo que representasse um esforço da porra ou o mais puro exibicionismo de uma dor tão gasta que nem já combinava mais com os meus drinques caubói nem muito menos com as minhas elegantes vestes rotas da mendicância, ah, o seu orgulho não vale uma canção triste de Roy Orbison.
*do livro Tripa de Cadela & outras fábulas bêbadas(ed.Dulcinéia Catadora).
Escrito por xico sá às 11h45
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UM DOMINGO,DUAS GATINHAS -FÁBULA DO AMOR E SEU DUPLO
minhas duas gatinhas voltaram no mesmo dia; a que não era gente ficou, juízo não tinha. As duas, porém, me fizeram felizes do mesmo jeito; cada uma me fez bater de um lado do peito. Uma me deixou nervoso; a outra me fez mais calmo. Quando a primeira saiu, não enxerguei a outra a um palmo. Precavido, porém, tranquei uma delas em casa; perder tem limite, corto-lhe as asas. Mas a história foi bem bonita: quando descobri uma das meninas, amor à primeira vista, ela me trouxe a felina, que no futuro ajudaria a diminuir a sua própria falta.
Escrito por xico sá às 01h56
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