O FIM DA IDADE DOS PORQUÊS
Você ai, amigo tiozão, reparou como a molecada nos faz cada vez menos perguntas? O papai leitor também já sentiu o drama e foi humilhado em público pelo garoto sabichão e arrogante. Sim, pode ser um motivo de orgulho, dependendo do corujismo do sujeito com o seu pequeno príncipe ou a com sua delicada princesa. Ah, sem essa de gagarejar o anti-séptico da nostalgia, é que os meninos andam abusados mesmo. Cada vez nos indagam menos. Cada vez encurtam mais a fase dos porquês. Somos diariamente humilhados pelo sr. Google e outros sábios buscadores, como me confessa, na brisa da rua da Moeda, no Recife Antigo, o amigo Jordão, pai de Helena e Francisco. Para completar, diz ele, ainda tem o Wikipedia, que funciona como aquele titio pescador, sempre com histórias fabulosas e nem sempre confiáveis. Sem saída. Haveremos de nos acostumar a não ter mais respostas. Agora nas minhas férias rodeado de sobrinhos, até preferi a contramão: me vinguei enchendo a todos de perguntas. Interrogações a boiar como anzóis sobre as águas do velho Chico. Não é nada bom se sentir obsoleto, porém, no meu pollyanismo crônico, vejo um conforto no novo costume. A meninada para de encher o saco e ficamos apenas com o dever moral de lançar alguns conselhos inúteis, que não serão cumpridos mesmo, e de outros resmungos caseiros na vã tentativa de enquadrá-los. Eles sabem de tudo. Vão nos restar apenas os gugus-dadás dos bebês. Perfeito. Porque, convenhamos, era cada pergunta maluca. Achavam que éramos um programa de busca, uns oráculos, uns Sócrates, uns Platões de bobeira prontos para tirar todas as duvidas do universo. Melhor mesmo a arrogância tecnológica dos pequenos do que os velhos interrogatórios. Como chutávamos, meninos, nas respostas. Vocês não sabem quanto estão ganhando com as novas ferramentas da vida. Da cegonha à ida do homem à lua, haja chute. E explicar por que o Kurt Cobain se matou? Tive que passar por essa com o filho de uma ex-namorada. Haja filosofia de quinta e enrolação propriamente dita para me safar do nó existencial do rapaz do Nirvana. Gastei toda a minha ignorância no mundo pedagógico de Jean Piaget e não teve jeito. O mesmo guri foi mais longe, durante a passagem de uma troça do carnaval de Olinda: “Tio, para que tanta alegria?” Ai só me restou colocá-lo no ombro e seguir o inexplicável coro dos contentes. Ufa, viva São Google e todas as buscas automáticas. E o titio fabulador também, gracias, afinal de contas o mundo carece de obras abertas que misturem ficção e realidade. É um ótimo exercício para os pimpolhos dessa geração tão prática e objetiva.
Escrito por xico sá às 17h41
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|