DA ORIGEM DESTE CARAPUCEIRO
Dos vícios falar, não das pessoas. Mesmo com esse lema aparentemente sossegado e cristão, o padre beneditino e escriba de mancheia Miguel do Sacramento Lopes Gama (1791-1852), não deixava viv´alma livre da sua pena destemida. Todos queimavam no seu purgatório imaginário. Mestre na crônica de costumes no Pernambuco da primeira metade do século XIX, nem carecia mesmo anotar os batismos das suas vítimas preferenciais. Bastava expor, no seu periódico, um vasto sortimento de carapuças à disposição dos leitores. Tinha para todos os gostos e formatos de cabeças e cabeçorras. Assim era o Carapuceiro, “sempre moral e,so per accidens, político”, como o próprio religioso definia. Ali, nem mesmo os homens de batina e da sua convivência católica estavam livres da palmatória irônica de Lopes Gama. O padre Carapuceiro, como ficaria conhecido por causa do jornal -hoje nome de famosa rua do Recife e-, rezava pela cartilha do “ridendo castigat moris”, ou seja, rindo corrigimos os costumes. Dos amigos de batina, por exemplo, criticava “os padres e frades gamenhos”, aqueles cuja gabolice e os enxerimentos chamavam a atenção da praça. "Um clérigo ou um frade bamboleando-se, saracoteando as ancas, requebrando-se, de maneira que um Dominus vobiscum parece que é uma umbigada ao povo em festança de lundum", lascava nas suas folhas. Os modos de macho e as modinhas de fêmea, naquela época sob ditadura estética dos franceses, também eram assuntos prediletos do padre, um pioneiro na defesa de uma moda brasileira, mais adequada ao calor e aos costumes dos trópicos. Era carapuça a torto e a direito. Nem mesmo o ingênuo e popular bumba-meu-boi escapou do seu laço. Ele achava a “brincadeira” ridícula. O padre Carapuceiro era um homem-jornal. Ele mesmo escrevia, editava, diagramava, fazia as ilustrações e ainda distribuía o seu temido periódico. A sua crônica acabou sendo importantíssima, entre outros épicos, na pesquisa que resultou no clássico “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre. Quem quiser provar do veneno do beneditino, é ler “O Carapuceiro”, uma antologia de textos organizada pelo historiador Evaldo Cabral de Mello para a coleção Retratos do Brasil, da Companhia das Letras. Mais de 150 anos da morte do padre, certamente ainda vai sobrar alguma farpa para o leitor de hoje. Ajuste a sua carapuça e boa leitura. Em homenagem ao velho periódico pernambucano, mantenho desde 1998 esta tribuna virtual (inicialmente um sítio/revista) que resultaria neste blog. Boa semana a todos.
Escrito por xico sá às 12h42
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