 |
|
|
LUPANAR DA SELVA
“Não llora, amor”, Marguerita implora, “não llora bebezito de mi pobre bida”. Donde vem esse portunhol selvagem, maluca?, pergunto de volta. Ela me fazia dormir las siestas embaladas com incribles lendas guaranys, cunha-taís, histórias da tríplice fronteira, formigas gigantes viciadas no magnésio de fitas cassetes –com guarânias e boleros- e dos carregamentos de VHS,por supuesto, como diz a ficha criminale. Marguerita estivera com os Jivaros, uns índios da Alta Amazônia, uns índios abusados em suas existências, radicalíssimos os Jivaros, anarquistas ao extremo, que fazem de todos os dias uma viagem sem fim, tribo do Piemonte andino, pelo que me recordo... “POLÍGAMOS RADICALES”, ela diz, com um entusiasmo rasgado.“MATERIALISTAS!!!, SENSUALISTAS!!!, POSITIVISTAS EXTREMOS!!!”, disse sobre eles o padre Vacas Galindo, ela me conta. Esse conto do vigário é de 1895, de novo ela, sopra, recita, para a minha cara de leso maconheiro sem memória, mil oitocentos e quanto mesmo? Século 18 ou 19? Como se isso tivesse importância. Quatro anos después, o abade François-Pierre, ela me ilumina, ah, me gusta da memória de los viajantes, havia dito: "A família jivaro é um lupanar no qual a devassidão mais desavergonhada é exposta sem restrições nem pudor!". Paudurescência na hora, me sentia um jivaro àquela altura diante da minha linda antropóloga da selva ou sabe-se lá, me gusta las cientistas picaretas, o que seria essa mulher, será que ela existe? Será que ela existe uma vez que la própria mujer non erriste, conforme Lacan un dia hay surtado no seu gabinete? Continuarei a inventá-la daqui por delante, porque homem que é homem prefere inventá-las, jamais à sua imagem e semelhança, mas prefere inventá-las a acreditar que a mulher, incluindo a mulher do vigário,seja mesmo uma ficção de nuestras costelas bíblicas. Marguerita me beija de nuevo na boca. Selvagem essa mina. As formigas gigantes sobem pelas pernas, quando atingirem os bagos gozaremos como viejos lagartos vulcânicos. Será a hora de dizer-te adiós, hermosa chica, como no bolero para o amor mais sincero.
Escrito por xico sá às 16h15
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
O BELO STRIP AO CONTRÁRIO
Você acorda e está diante do maior espetáculo da terra: a mulher no seu ritual de arrumação, o banho, o creme na perna levemente amparada sobre a poltrona, os cabides em forma das mesmas interrogações e dúvidas –com que roupa?- e aos poucos, peça a peça, me vejo diante da Anna Karina, a atriz, no auge da nouvelle vague. Em muitas ocasiões, finjo até que estou dormindo, só para flagrar a beleza sem interferir no acontecimento. Dessa forma, ela se apresenta mais naturalmente e oferece melhores ângulos. Cena a cena, meu filme preferido, cinema na cama antes de pedir o café pra nós dois. Porque uma mulher se vestindo é infinitamente mais elegante do que uma mulher tirando a roupa. Por mais que seja fina, há sempre um descuido ao despir-se, além da pressa inimiga, claro, nos momentos do sexo selvagem. Seja um Yves Saint Laurent, um garimpo de brechó ou um vestido do magazine mais próximo, não importa, o que vale é o ritual, a combinação de cores, os detalhes, o quadro a quadro que constrói o figurino. Lindo e lento strip-tease ao contrário. E o momento da maquiagem? Passo mal ao espiar ao longe. Sim, nada de acreditar nessa historinha de “você já é bonita com o que Deus lhe deu!” Dorival Caymmi, saravá meu pai!, é uma beleza de homem, mas pinte esse rosto que eu gosto e que é só seu. Com todos aqueles lápis que lhe fazem uma criança brincando de colorir o desejo. Agora ela anda na casa, à procura do acessório perdido... Seus passos fazem música com os tacos, como é bom ouvir, excitado, aquele ritmo ainda embaixo dos lençóis. Quando o destino é uma festa, o ritual não é menos nobre, mas ainda prefiro o preguiçoso espetáculo das manhãs –final das manhãs, digamos, porque madrugar ninguém merece. E sempre rio baixinho do momento da dúvida na escolha do vestuário, quando você suspira, quando você solta o mesmo resmungo de todas as mulheres do mundo: não tenho roupa. Pode ser uma madame de alta classe ou uma jovem atriz que ainda trabalha de garçonete. O importante é que você se veste e aquele filme, cinemascope, passa como sonho o resto do dia na minha cabeça. Aqui me despeço e deixo vocês com aquela canção lindamente brega do Roberto e do Erasmo: “Homem que tem sentimento/ briga por tudo que quer/ ama independente da moda/macho mas não se incomoda/ de ser um doce com a sua mulher”.
Escrito por xico sá às 10h09
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
FALANDO AO CORAÇÃO
Entre as minhas tantas costuras para fora, uma, em especial, me encanta: a de conselheiro sentimental. Talvez herança da minha mãe. Ouvia moças e mais moças que passavam naquela beira de estrada rumo ao Crato. Eu ficava só ali, na botuca, pegando a manha, o que me renderia o primeiro estágio no rádio, em Juazeiro, no programa Temas de Amor, no qual escrevia –mesmo sem conhecer biblicamente o que seria uma mulher ainda - as dicas para chicas abandonadas ou cheias de dúvidas. Depois ocupei a mesma função com o pseudônimo de Miss Corações Solitários (batismo roubado do livro do escriba Nathanael West) em sites e jornais. Nos últimos anos, a experiência se repetiu na revista UMA e em um blog extinto da revista Trip. Por causa dessa ficha corrida, sempre me mandam até hoje, cartas e emails com alguma demanda amorosa. Não estava respondendo publicamente às consultas, mas como Eliete faz questão de tornar explícita a sua dúvida, e considerando a sua urgência, deixamos ai aberta aos leitores. Xico, sou viúva e tenho um pretendente em outra cidade. Sou pobre e ele rico. Ambos temos filhos.Você acha que largo tudo e caso com ele ou desisto desse amor? Muito obrigada. Um abraço afetuoso, Eliete, Jaboticabal, São Paulo
Prezada Eliete, desistir qual o quê, encantadora senhora! Se achas que é amor por que fugir à luta? Por que o dito sr. mora em outra cidade? Quando é amor, criatura, vale se mudar com mala e cuia até para Tegucigalpa, o que não deve ser o caso –imagino que mores na mesma região do pretendido homem maduro. Mas o que você vais largar, criatura? Filhos? Se eles já tiverem grandinhos, não há motivo para mascar o jiló cristão da culpa. Que faças tua vida, serás compreendida pelos garotos. Até porque eles não terão cerimônia alguma em mais adiante, naturalmente, deixar a mãezinha querida e seguir a merecida vida deles. Amiga consulente, por que tu achas que a riqueza do sr. pretendente pode atrapalhar vossa vida amorosa e de convivência? Não careces dar ouvidos a estranhos comentários, que, por maldade, insinuam algum interesse teu na fortuna dele. Se ele diz que ama, por que temê-lo? Temos que correr de quem vive afundado em um poço de dúvidas, da turma do “estou confuso”, “preciso do meu espaço” etc. Mira, encantadora Eliete, a gente não pode desperdiçar certas oportunidades na vida, sob pena de arrependimentos e rancores futuros que ficam dependurados no trapézio do cocoruto até o fim dos dias. Meio amor não é amor, como nos lembra o titio Nelson, mas se sente que é amor inteiro, segura na mão de Deus e vai, sem medo. Te juega, criatura. Beijo, com o carinho de sempre, XS
Escrito por xico sá às 15h50
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
NO CÉU DA BOCA DOS MAL-ENTENDIDOS
I o cântico dos cânticos mais bíblicos mal chega aos pés do teu sexo sutra... e nele o pavio, todos os fogos, os artifícios fatais da existência, gracias por el fuego, diz-me, graciosa, sem que careças sequer, mulher, de um pau de fósforo. II Não é que nos ares faças vis piruetas, é que sacas os bambuais da metafísica, sabes que teu deus é uterino, ignoras solenemente o amor de pica. III mas que lindeza na tua súplica, quando dizes, assim, vem, enfia, entra, mesmo restando apenas uma pequena função no gozo, infinitamente menor do que la petite mort da qual falavam os franceses... e sempre melhor teus próprios dedos e as mutações do esmalte do desejo IV como podes com tanta certeza e/ou honestidade? és sempre, muito prazer, uma desconhecida, com quem travo, no claro/escuro da nossa casa, a arte dos imorais, o segredo das criaturas que não temem o silêncio, tampouco a leseira amanteigada dos cafés das manhãs. V disseste,risonha e franca, pareceu uma violëncia, de pé e sem aviso prévio, sequer narrativas lubrificantes, disseste, culpei o barulho do mar, espumas flutuantes, parnasos, lunas cheias e calientes, pelo que me recordo do nosso derradeiro dia no céu da boca dos mal-entendidos.
Escrito por xico sá às 03h56
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
CRUZANDO O PARAÍSO *
para Sam Shepard Por ti chorei lágrimas de rodoviária, lágrimas com poeira de estrada perdida, lágrimas e poeira que viraram maquiagem de lama, tijolos d´alma, emendei lotações e fronteiras, gastei botas, máscaras, joelhos... e contei passos de crimes & castigos, por ti esperei em hotéis baratos do centro, porta aberta, mão no coração, faca no peito, por ti bebi como uma mosca caricata de boteco, fiz lirismos chinfrins em guardanapos, sempre começando assim “por ti” etc e algum verbo que representasse um esforço da porra ou o mais puro exibicionismo de uma dor tão gasta que nem já combinava mais com os meus drinques caubói nem muito menos com as minhas elegantes vestes rotas da mendicância, ah, o seu orgulho não vale uma canção triste de Roy Orbison.
*do livro Tripa de Cadela & outras fábulas bêbadas(ed.Dulcinéia Catadora).
Escrito por xico sá às 11h45
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
UM DOMINGO,DUAS GATINHAS -FÁBULA DO AMOR E SEU DUPLO
minhas duas gatinhas voltaram no mesmo dia; a que não era gente ficou, juízo não tinha. As duas, porém, me fizeram felizes do mesmo jeito; cada uma me fez bater de um lado do peito. Uma me deixou nervoso; a outra me fez mais calmo. Quando a primeira saiu, não enxerguei a outra a um palmo. Precavido, porém, tranquei uma delas em casa; perder tem limite, corto-lhe as asas. Mas a história foi bem bonita: quando descobri uma das meninas, amor à primeira vista, ela me trouxe a felina, que no futuro ajudaria a diminuir a sua própria falta.
Escrito por xico sá às 01h56
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DE COMO INVENTAR UM FINAL FELIZ
Neste veraneio, lembrei muito de Ilia, encanto de moça, musa do mar Mediterrâneo, grega que não gostava das tragédias escritas na sua terra, preferia sempre um outro final para tais histórias. Daí contava o mais triste das desgraças caseiras, como Édipo-Rei, por exemplo, sempre com epílogo de felicidade. Ninguém matava ninguém, muito menos filho e pai, a mãe só entrava no meio e, no “the end”, todos espocavam champanhe no litoral. Conheci Ilia em “Nunca aos domingos”, filme de 1960, dirigido por um bravo Jules Dassin, homem perseguido nos EUA por causa das suas ideias generosamente comunistas. Ilia é uma bela e caridosa prostituta. Quando gosta mesmo de um cara, não cobra nada. Em um bar na beira do cais, brinca de transformar o trágico em leveza. Os marinheiros e demais convivas riem abestalhados com tamanha graça da fofa. Ela ama a vida, desde que nunca ouça o que chama "a voz de domingo", a conversa fiada do homem apaixonado que lhe pede em casamento. Ela quer apenas se divertir. E pronto. Mas eis que chega Homero, um norte-americano abestalhadíssimo que vai para a Grécia estudar as razões da derrocada do macho helênico. A pretensão é entender porque um povo tão sábio, cujos professores foram Sócrates e Aristóteles, entre outros bambas da filosofia e da arte, está entregue à farra, à esbórnia e à banalidade. Ele tenta, de todas as maneiras, tirar Ilia daquela vida. Só o conhecimento salva, pensava o besta. A loira (a atriz Melina Mercouri) até que cai um pouco no conto do mala, mas logo se recupera. Apenas um pequeno drama. Mas o lindo é que continua convicta na sua forma de narrar qualquer história que um dia tenha sido trágica. O final, para a galega, terá sempre que ser feliz e litorâneo. E tudo acaba na beira-mar, diz a gênia, no seu mantra permanente. E que 2010 seja um ano narrado pela generosa prostituta grega, que até admite as dores do mundo, as inevitáveis nódoas da rotina, mas que a tragédia não vingue nunca com toda a sua ira possível.
Escrito por xico sá às 01h49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
TEMPO DE HOMENS FROUXOS
Generosos leitores, deixo esta crônica de despedida de 2009, aqui desligo os transmissores e agradeço a todos pelas visitas. Vou buscar novas forças no Cariri de onde eu vim e nos mares donde passei. Em 2010 este blog será finalmente menos arcaico e deve migrar de portal etc. Buenas fiestas e entradas fuedas. Inté dias finais de janeiro. Fiquem com os deuses que dançam!
Agora sim, com ou sem carapuças, la croniqueta TEMPO DE HOMENS FROUXOS: A prosa nada cabulosa da nossa távola redonda salta de mesa em mesa, entre cavalheiros e damas, naquela madruga na taberna: “Pois saibam todos vocês, a teoria da moça ao lado está mais certa que boca de padre e mais justa do que boca de bode”, emenda Ailton, o garçom pernambucano, de prima, sem deixar a peteca fazer gracinha pelos ares. “Antes mesmo um bom canalha, com pegada, do que um macho frouxo e vacilão”, exalta Carol, amplifica Maíra, declama Guta, acentua Luciana, amacia Beth e Clarice gagareja com sua caipirinha de frutas vermelhas. Era a tese da hora, porque bebedeira só é boa mesmo com uma tese de costumes para a gente beliscar noite adentro. Sem deixar um farelo de dúvidas sobre a mesa de acepipes, bar Filial, madrugada de São Paulo, as meninas, agora em coro, decretam: “Paz na terra aos canalhas de boa vontade, eles merecem nosso crédito!” No que o Coppola, o amigo calabrês sempre vestido de nuvens azuis em corte de camiseta pólo, manda o seu mr. Sinatra antes que os sabiás das quatro da matina se manifestem: “Fly me to the moon Let me sing among those stars…”, canta, como sempre, depois do décimo chope. As gazelas vão à lua e retornam divas mais radicais ainda para a saideira clássica sob a paisagem de cadeiras levantadas e água com sabão nos pés. “Antes um bom canalha de ressaca do que um saudável bom moço perfumado com a boca sempre cheirando a antisséptico”, Guta vai mais longe ainda. A tese ganha versões, puxadinhos semânticos, penduricalhos, novas frases refeitas: “Mais vale um cafa na mão do que dois playboys vacilões”. “Nesses tempos de homens frouxos, quando não se pede mais ninguém em namoro, a canalhice é o nosso parque de diversões”, Lu ataca novamente. A tese se torna tão valiosa, uma obra aberta, que alguém anota em guadanapos, como se fosse a ata da bebedeira. Fica como “pindura” para a próxima farra. “Mais vale um Paulo César Peréio na mão do que dois Tony Ramos com depilação definitiva”, manda uma ex-feia que acaba de se consagrar musa-mor da madruga. Àquela altura não há mais ninguém feio no mundo. Nem mesmo um mal-diagramado pela natureza como este cronista, que aprendeu, com o seu ídolo Sérge Gainsbourg, que a beleza é passageira e a feiura é para sempre. Eis o nosso mantra eterno, amém.
Escrito por xico sá às 16h02
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
PRÓLOGO ON THE ROCKS PARA O LEITOR SALTA-PÁGINA
Saiu a 3a ediçao de mi noubella "Caballeros Solitários rumo ao sol poente"(ed.do bispo).Pra celebrare, o prólogo,revisto e atualizado:
“Só o leitor que salta me interessa”, disse, pelo que entendemos do seu escorreito castelhanês, o recém chegado à taberna dos cavaleiros fatalistas.”Ao leitor que pula páginas me dirijo. Asseguro-te que leste todo o meu romance sem te dares conta, te tornaste leitor seguido à tua revelia, à medida que vou te contando tudo dispersamente e antes de iniciar o romance. Comigo, o leitor que salta é quem mais se arrisca a ler seguido”, deu tintas finais à tese-chiste, era de fala pouca, voz miúda, don Macedonio Fernández, egresso da província de Buenos Aires. Donde outro forasteiro, novidade em nuestra tertúlia, salta do seu místico biombo com os segredos típicos daquelas criaturas que vêm de longe, muito longe: “Se vocês quiserem que eu conte, eu conto, mas têm de me pagar uma bebida antes, para que eu possa molhar a garganta”, diz sr.o Steven Brust, chamemos assim o distinto viajante. Sabe-se que o sr. Steven Brust é um cara decente que toca bateria e dumbek, aquele tambor árabe do dança do ventre, numa banda gypsi-punk. O distinto cavaleiro, conforme a mística, sempre muda de nome para fugir das groupies-motosserras, aquelas garotas selvagens que decepam todos os paus, troncos e membros dos seus ídolos estrangeiros. Na tempestade, Steven Brust estica a mão na janela com o seu copo longo de uísque, enchendo-o de granizo até as bordas. Celebra a vida nos trópicos, onde se diverte, deixando para trás o passado de menino criado num castelo escuro. Agora tem o sol o dia inteiro para brincar com a própria sombra. Steven também bebe previsíveis cowboys quando a melancólica besta-fera do lusco-fusco embaça seus óculos verdes com a poeira do amor ou da ira. Steven Brust tem aquele jeitão de cigano húngaro, é o que dizem, mas como nunca vi um cigano húngaro na minha frente, Steven continua a ser apenas aquele escriba vagabundo que encontrei na secção Baixo Augusta do Sandman´s Drinks, célebre no recinto por trocar boas histórias e solos de dumbeck por bebida e sexo.O que mais o diverte nesta vida é contar, com a musa da encomenda e a velha da foice a bafejarem prazos fatais no juízo, pequenas biografias de assombrações nocturnas. Tínhamos a mesma impressão sobre o mundo, além do mesmo ofício, pelo menos é o que me ficou como areia especulativa na memória. “Anjos e demônios habitam as coincidências”, disse a nuestra garota predileta, de cujos olhos saltavam melancólicos peixes de água doce e aquela fagulha de beleza que habita a alma dos esquizofrênicos. Viejo cigano, te pago todas, nos vemos mais adiante na taberna do sr. Knut, embora a síndrome de Korsakov, já tenha comido as beiradas do juízo. Mas vamos devagar, amigo, temos todo tempo do mundo, deixemos que os nossos personagens encham a caveira, nadem no seco -tarefas das mais simplórias para estas pobres almas-, só assim arrancaremos deles um material de primeira.Nos vemos. Assinado: Don Augusto Sombra, biógrafo andarilho, San Pablo de Piratininga, maio do ano da graça de 2006
Escrito por xico sá às 12h16
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
A GENTE SE VÊ - RETROSPECTIVA A PEDIDOS I
Em uma megalópole como São Paulo e outras tantas grandes cidades brasileiras, haja encontros e desencontros, minha estimada Sophia Coppola. Alguns não tão graves, acontece, outros infinitamente dolorosos, que nos perturbam os sentidos, que fazem a gente maldizer os céus, os astros, o destino. Fica tudo na base do “a gente se vê”... E adeus! Não que fosse acontecer um casamento ou algo do gênero a partir daquele encontro, nada disso, mas foram encontros bonitos, fortes, que se acabam ali mesmo, na poeira cósmica, numa tarde fria, em um café da manhã, numa simples despedida. “A gente se vê.” Pronto, eis a senha para o terror, o “never more”, o nunca mais do corvo do escriba Edgar A. Poe. A gente se vê. Corta para uma multidão no viaduto do Chá. A gente se vê. Corta para uma saída de estádio lotado em dia de decisão do campeonato. A gente se vê. Corta para “onde está Wally”. Nada mais detestável de ouvir do que essa maldita frase. Logo depois a porta bate e nem por milagre. Jovens mancebos, evitem essa sentença mais sem graça. Raparigas em flor, esqueçam, esqueçam. Melhor dizer logo que vai comprar cigarro, o velho king size filtro do abandono. Melhor dizer que vai pra nunca mais. Melhor o silêncio, o telefone na caixa postal, o telefone desligado, o desprezo propriamente dito, o desprezo on the rock´s. A gente se vê um carajo. Seja homem, troque de palavras, use o código do bom-tom e da decência. A gente se vê é a mãe, ora, ora. Como canta o Rei, use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só... Esse “a gente se vê” deveria ser proibido por lei. Constar nos artigos constitucionais, ser crime inafiançável no Código Penal. A gente se vê é pior do que a gente se esbarra por ai. Pior do que deixar ao acaso, que jamais abolirá a saudade, que vira uma questão de azar e sorte. Melhor dizer logo “foi bom, meu bem, mas não te quero mais”. YO NO TE QUIERO MAS, como na camiseta mexicana que ganhei de una hermosa chica. Dizer foi bom meu bem e pronto, ficamos por aqui, assim é a vida, sempre mais para curta do que longa-metragem. A gente se vê é a bobeira-mor dos tempos do amor líquido e do sexo sem compromisso. A gente se vê é a mãe, aquela vaca, ora! Seja homem, seja mulher, diga na lata. Não engane a moça, que a moça é fino trato, que não merece desdém. A fila anda para os dois, jogue limpo. A gente se vê. Corta para uma multidão no show do ACDC no Morumbi. A gente se vê. A gente se vê. Corta para a multidão no 1o de Maio no Campo de Marte. A gente se vê. Corta para o formigueiro do Maracanã no Flamengo x Grêmio. A gente se vê. Corta para a São João com a Ipiranga. A gente se vê. Corta para um engarrafamento gigante na marginal do Tietê... A gente se vê. Então aproveita e vai olhar se eu estou na esquina, com teu coração de gelo-baiano de uma figa!
Escrito por xico sá às 23h49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
TUDO EM VOLTA ESTÁ DESERTO, TUDO CERTO
Final feliz, que alívio no faroeste da Pompéia, terra onde o caminhão do gás, como avisou M.L., musa do cine-cama, toca Enio Morricone. Final Feliz. O vaqueiro consegue levar a sua Cherie para o rancho em Montana. Aos vinte e tantos anos, nunca havia sequer beijado uma garota. Só queria saber da sua vida de cowboy e guardava uma certeza na dobra dos braços da camisa de homem forte: um tempo qualquer encontraria o “anjo” e pediria em casamento imediatamente. O destino apontaria: “É esta”. Como deu trabalho esse anjo loiro quando surgiu na sua estrada. Nunca havia sido santa. A galega só tinha uma obsessão: trabalhar em Hollywood. Veio a tempestade. Nevou no coração da gazela mais ainda. O amigo Virgil tocou belas canções, não o suficiente para amansar o selvagem. O cantil de uísque também não foi o bálsamo daquela pobre alma. O enfrentamento com outros brutos, tampouco. O jovem Bo Decker, capaz de domar o mustang mais brabo de todas as pradarias, desmontava aos pés da criatura na taverna. Certo dia, porém, ao mendigar um beijo de despedida, o sol derreteu bregamente e lindamente a neve que encobria aquelas sístoles e diástoles. Destino: o rancho de Montana. Como me aliviam os felizes finais dos filmes. Durmo em paz no meu deserto.
Escrito por xico sá às 05h33
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
AUTO-AJUDA PELO MÉTODO TRUFFAUT -PARTE III/FINAL
O amor e também seus arredores – como as paixões ou até mesmo uma galinhada lírica – se move graças a um único combustível: a dificuldade. Eis a gasolina azul dos que amam ou tentam. Dos que se apaixonam ou tentam. Dos que perseguem um pedaço de beleza mundo afora, como o bravo Bertrand de “O Homem que Amava as Mulheres”, filme e livro do xará François Truffaut (1977). Discorro sobre o tal combustível por ter esbarrado, dia desses, com o site que permite o envio de mensagens, via e-mail, entre pessoas que se paqueram no trânsito – que não é o meu caso, pedestre convicto e inveterado discípulo do velho Johnny Walker. Pois os tais sites podem resolver, na velocidade de uma ejaculação precoce, o drama inicial de Bertrand na citada película. Qual graça há em eliminar os pequenos nós que nos levam aos bons alvos? No amor, de nada adianta "solucionáticas", só "problemáticas", para inverter o aforismo de Dadá Beija-Flor. Estava o jovem Bertrand na lavanderia de mademoiselle Carmem, sua chegada, quando avista as pernas – só o par de pernas da “esplêndida desconhecida”, como diz o moço – e enlouquece. A bela dona desaparece e ele só tem tempo de anotar a placa do veículo em um maço de Gitanes: 6720 RD 34. O bicho endoida a cabeçorra. Vai no Detran local e tenta convencer os burocras da necessidades do nome da proprietária do veículo que evadiu-se. Nada feito, a França é uma Pátria séria e preserva a privacidade dos filhos seus. “Se a pessoa tivesse batido no seu carro, ainda vá lá, pois a sua seguradora poderia ter acesso aos dados da pessoa”, ouviu, oba!, mais ou menos assim, de outro burocra gordinho com feições de Balzac dos Pobres. Os olhos de Bertrand brilharam como nunca. Não teve dúvida: no estacionamento mesmo cuidou de estilhaçar o farol traseiro e o pára-lama do seu Renault ( ou Pegeout, velho Otto?) contra a mureta. Provocada a batida, retoma o labirinto da burocracia para tentar o reencontro com as esplêndidas pernas desconhecidas. Não havia visto sequer o rosto da moça, numa prova, como tem discursado este mal-diagramado que vos fala, que mulher é metonímia, parte pelo todo -basta uma omoplata, um rádio, um perônio, um queixo, uns braços, uns pezinhos... para que nos apaixonemos. Só sei que vai lá, vem cá, guichês e mais guichês, advogado no meio, um buruçu danado, e o jovem Bertrand finalmente se vê diante da sua perseguida. Uma hora de café e conhaque depois... descobre que não está diante da esplêndida, mas da sua prima, proprietária legal do veículo. O par de pernas, que atendia pelo batismo de Marianne, já deixara a cidade, de volta a Montreal. Não que o nosso herói não tenha apreciado uma metonímia qualquer na prima. Muito pelo contrário. Gostou e mutcho, mas... É que no trapézio do cocuruto já balançava outra idéia: Bernadette, a recepcionista de uma locadora de carros onde Bertrand esteve na sua busca pela identidade do par de pernas. “Se tiver algum problema, venha me ver”, dissera a moça na ocasião. Lá ia Bertrand, novamente com o coração despedaçado. Mas sempre movido pelo metanol de alguma dificuldade. A boa conquista amorosa nunca dependerá do avanço tecnológico, dos miojos sentimentais, da “multidão sem ninguém” (MSN etc), dos serviços profissionais, caso dos sites de encontros ou placas, e sim das travas e lombadas do caminho. A boa conquista, amigos, nunca será uma corrida de 100 m livres. Será sempre uma corrida com barreiras. Às suas marcas, senhoras e senhores!
Escrito por xico sá às 15h03
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
AUTO-AJUDA PELO MÉTODO ROLLING STONES
Abrindo o coração para uma cadela chapada e bêbada*. Pq só ela me ouvirá esta noite como uma lady scarpin decente. Apenas ela é mais honesta do que o mais harmônico dos lares. A cachorra chapada e bêbada sabe como ninguém onde mora a sacanagem deslavada e sonsa. Entende um velho triste e sem coleira. Sabe que sinuca, uísque duplo e rolling stones curam qualquer ressaca e adiam as outras dores para depois de auroras reinventadas. *livremente inspirado em letra do mundo livre s/a,2007
Escrito por xico sá às 00h24
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
AUTO-AJUDA PELO MÉTODO WONG KAR-WAI *
suar o amor correndo no parque, como sugere zed, corrida e leonard cohen no ipod, "amor é água", sopra o policial em bicas dos “amores expressos”, a película chapa 1994 de wong kar-wai, o cara de shangai e hong-kong, aquele mesmo do “amor à flor da pele”, no qual os vestidos e a fumaça dos cigarros falam mais do que todas as línguas de pentecostes; suar como o personagem derretendo-se em água e vapores do outro lado do mundo, como a garçonete maluquete que chacoalha juízo e esqueleto ouvindo “califórnia dreams”; a mocinha linda e sound system, sabor gengibre, marinados corazones ao molho de ovas esfarinhadas de peixe amarelo; suar o amor e sair voando pela janela de bicicleta ergométrica; suar no ibirapuera e no parque da água branca suar de novo as redundâncias amorosas todas; suar num estirão do pina ao terminal de boa viagem; suar de olinda ao janga; suar do leblon ao arpoador sem distrair a vista com as bundas, assim não vale, perde o sentido a mandinga; suar os amores líquidos e as represas dos amores do passado; suar uma baia de guanabara de amores em cardumes e mais uma lagoa rodrigo de freitas de olhos de peixes mortos; fazer chover por todos os poros o amor que fica, o amor platônico e o amor de pica; suar o amor com uma sopa de feijão bem quente, seis horas da tarde, no hellcife de todas as glândulas; suar o amor em teresina, com um prato de capote ao molho ou uma fina iguaria do cabaré de beth cuscuz; suar, amigo, a derrama das nódoas por dentro, suar no pedalinho, mas nada de suar para perder peso ou por esporte, falo suar, por enquanto, para limpar-se dos amores sem futuro. A gente se vê, quem sabe, em 2046. *do livro "Tripa de cadela & outras fábulas bêbadas",ed.dulcinéia catadora,sp, R$ 5 mangos
Escrito por xico sá às 00h17
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
NOSSO AMOR BEM PUTO
Nem fomos ao mar para ver o nosso amor morrer na praia. Nosso amor morreu engarrafado, na correria do povo para deixar São Paulo, babilônicos corações de fumaça a 10 km por hora. Nosso amor largou o automóvel e saiu caminhando, melancólico, entre motoboys e miragens, crepúsculo cubatanesco a escorrer do nariz. Stop, parou o nosso amor ou é apenas um sinal fechado? Minutos antes, nosso amor foi visto saindo do Paraíso e saltando na Consolação, a linha do último metrô de todos os amores expressos. Aí nosso amor, puto da vida, bebeu cachaça, cheirou cola, acendeu o cachimbo na Cracolândia, perdeu os óculos, as lentes de contato, pegou um papelote de quinta na Augusta, gastou a pele, fez besteiras e vomitou bem muito o foie-gras dos nossos próprios fígados. Nosso amor não conseguiu dormir direito nesse dia, zumbizou geral o malaco, e não foi apenas o barulho da construção mais demorada do que a catedral de Colônia, a Transamazônica ou o castelo de Kafka. Nosso amor só pode estar tirando onda da nossa cara, é o tipo do amor que sabe rir da nossa desgraça, um amor de rapariga da última luz vermelha do fim do mundo, um amor da porra, que não respeita as leis do cosmo, nosso amor é uma ficção barata, café puro, pão na chapa, nosso amor nem esfriou ainda o cadáver, acabou no auge, como a carreira de Pelé, como os Beatles, nosso amor era sábio. E como os amores reencarnam, muito cuidado, senhoras e senhores, nosso amor pode estar rondando ai a sua área. Prendam o criminoso, onde está a polícia que não vê uma coisa dessas, tio Nelson?
Escrito por xico sá às 02h32
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
 |
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |



|
 |